SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 9 Agosto 2020, 09:29

Memorabilia XXV 1970 -2

Se me fosse pedido uma definição do ano concelhio através do que reencontro nas páginas de O Almonda, sintetizaria a minha opinião em três palavras: Guerra, Emigração e Mudança.

A – Guerra – nenhuma das edições semanais, durante um ano, ignora o tema, ainda que não haja, como na década de 60, a menor informação sobre o teatro do combate. Mas as suas páginas, especialmente a segunda, estão cheia de fotografias das gerações de combatentes, ou pelo aniversário, pela partida, mais raramente, pela tragédia da morte. O número de assinantes na Guiné, Angola, Moçambique, por sua vez, representa a maioria dos que, fora, recebem o Almonda. Nas páginas interiores, dedicadas as freguesias, os correspondentes não deixam de exultar a partida e a chegada, ou chorar a infelicidade dos que morreram.

Também, mas com mais raridade, a descrição dos actos de heroísmo em batalha, merecedores de louvores ou de medalha.

Se um dia alguém tentar a história do concelho nos palcos da guerra de África terá de passar obrigatoriamente, de 1960 a 1975, pelas páginas deste semanário[1],

B – Emigração – Não há, senão esporadicamente, retirados da imprensa nacional, alguns artigos sobre o tema. Como a guerra, era outro assunto tabu, que a censura não deixava focar, já que, dos dois tipos de emigração, a clandestina cresce durante a década de 60, e nela se encontram não só os que procuram trabalho noutros lados, como inclui os desertores das forças armadas, e os que, na clandestinidade, circulam pelos caminhos ínvios do contrabando da raia, ou nos barcos comerciais e de turismo que entram e saem do país. Temas que a literatura, lentamente, foi mexendo e, hoje, merecem estudos universitários[2]. No aspecto específico de O Almonda, pesquise-se na secção Os Nossos Melhores Amigos, ou também nas secções dos correspondentes das aldeias, e verifiquem-se as assinaturas feitas do semanário, pelos torrejanos de França, Alemanha, Canadá. A tal ponto que o director do semanário. Padre Joaquim João Búzio, visita este último país, a convite dum casal do concelho, publicando depois uma série de crónicas sobre a viagem. Há algo, na política de reformas introduzidas pelo governo de Marcelo Caetano, que demonstra como o tema é importante: a criação do Secretariado Nacional da Emigração[3]. O artigo Emigrantes Clandestinos, da imprensa governamental, que O Almonda transcreve, revela quanto o tema preocupa o poder político.

C – Mudança. Não a que a oposição democrática desejaria, não a que os mais conservadores procuravam impedir. O tempo muda e com ele os modos de ver o passado. Os jovens querem outros mundos, outros caminhos, têm outros objectivos. Os liceus públicos, nas sedes dos distritos, as escolas industriais nos concelhos, com o ensino nocturno para os trabalhadores, criam novas formas de pensar. Como os rios, por muito que se tentem represar, não param de correr para o oceano. Mudança dum mundo velho, agrário, servil, para um mundo a industrializar-se na periferia das cidades do litoral. Um mundo ainda do homem, onde as filhas do operário da fábrica, do camponês rendeiro das terras do grandes possidentes agrários – que os há no concelho -, dos empregados de comércio, dos pequenos comerciantes e industriais, encontram uma saída discriminatória na formação feminina das escolas industriais[4], onde para os homens se abrem os cursos que o pós-guerra necessita: mecânica, montador-electricista, serralheiro mecânico, comércio, afins. Cursos em que, com bases gerais, se aprende um ofício para a indústria e o comércio em expansão, um português mais leve que o liceal, um arranhar de línguas como francês e o inglês para o ingresso no funcionalismo bancário ou nas empresas do import-export, que, se não se impõem, deixam marcas para o futuro. Um mundo onde o analfabetismo começa a regredir, entre os novos, mantendo-se entre as gerações mais idosas. Torres Novas, sofre essa mudança. Fiação e Tecidos, Nery, Lourenço e Irmão, António Alves, Claras, Renova, Unital, Lusos nos Riachos, são apenas alguns dos exemplos concelhios, onde de desenvolve paralelamente uma política de desenvolvimento rural, dinamizado pelo Grémio da Lavoura e a Cooperativa dos Produtores de Figo. Jovens com novas mentalidades, para quem a televisão, que neste ano, começa as sua emissões ao meio-dia[5], por muito que esconda, não impede um Zip-Zip, um Festival da Canção, algumas séries e programas de divulgação.. Localmente, veja-se a lista dos filmes que a Empresa do Virgínia traz a Torres Novas, que Joaquim Canais Rocha publica nas suas páginas de Cinema, e vê-se como se difunde o gosto pelo filme europeu e americano contemporâneos, que, apesar de censurados, foram divulgados a partir do movimento cineclubista e páginas de cinema da imprensa concelhia nacional.


Mudança a outros níveis, como no campo religioso, pós-concílio, com a introdução do novo calendário litúrgico da Igreja Universal[6], o Conselho Pastoral do Patriarcado de Lisboa[7], a nova geração de clérigos que vivem junto do mundo do trabalho, no mundo escolar em profunda mudança com a reforma do ministro da educação José Veiga Simão, do aparecimento de grupos estudantis como, localmente, que publicou, enquanto pôde, no Almonda, uma secção, da Gente Nova, uma das fontes do catolicismo progressista , alunos de ambos os sexos das escolas que pensavam, discutiam e pretendiam mudar a pobreza e as condições de vida dos mais atrasados, que pertenciam ao mundo rural, que defendiam uma outra igreja, democrática, plural, defensora das desigualdades sociais.

Mudanças socio-culturais e políticas que analisaremos em próximo artigo.


[1]No caso vertente, não procuro nestas páginas refazer o passado histórico, cuja trama, mais complexa, nos teria de levar a arquivos múltiplos, militares e civis. Interessa-me chamar a atenção para um passado, que foi o da minha geração, sem sentimentalismos, com a objectividade possível de quem viveu esses tempos. Se servir para a investigação que, acredito, se fará sobre o pós-2ª Guerra Mundial, no concelho, fico satisfeito.

[2] Os interessados têm hoje, á disposição um mundo de informação, que basta pesquisar na internet.

[3]O Almonda nº2464, 15/8/1870.

[4] Exemplar, o livro de Laura Santos, «Mulher, Esposa e Mãe». O curso de formação feminina assentava na criação da mulher ao serviço do homem. Saber cozinhar, bordar, tricotar desenhar, tratar da casa, fazer as compras, saber cozinhar, ser boa mulher, mãe e esposa. Tão longe da denúncia de As Mulheres do Meu País, da torrejana e perseguida politicamente, Maria Lamas! Mas a partir da década de 60 começam a ouvir-se vozes como as dos poemas transcritos.

[5] O Almonda, 2450,de 9/5/1970.

[6] O Almonda, nº 2434, de 17/1/1970,

[7] O Almonda nº 2450, de 16/5/1970.

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