SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 15 Agosto 2020, 11:50

Memorabilia XXIV

1970 – I

É um ano de mudanças fundamentais, a nível nacional e internacional.

Portugal é governado por Marcelo Caetano, que em Janeiro tenta uma mudança liberal no seu ministério, com a nomeação de três ministros: Rui Patrício, para os Negócios Estrangeiros, Veiga Simão para a Educação, Baltasar Rebelo de Sousa para Saúde e Assistência e Corporações e Previdência Social, mas sem possibilidade de grandes aberturas, já que a figura de Salazar, doente, física e psicologicamente incapaz, mantinha a unidade, na sua sombra, da direita mais conservadora do regime.

A sua morte, em 27 de Julho, com 81 anos de idade, fecha definitivamente o ciclo iniciado, durante a Ditadura, mas fundamentalmente, a partir de 1932, quando foi nomeado, quatro anos depois da sua posse como ministro das Finanças, o VIII Governo da Ditadura Militar, sobre a sua presidência.

Tempos difíceis, com a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, em 20 de Janeiro, a denunciar os maus tratos nas cadeias. Em Peniche, no mês de Março, os maus tratos originaram protestos dos presos, com acção repressiva violenta de guardas prisionais.[1] Mas a acção da Comissão conduz a uma informação internacional da situação portuguesa, que conduz não só a debates sobre a violação dos direitos humanos, como em Abril, no Conselho da Europa. Também a situação da guerra em África sofre condenações, como em Junho, na Conferência Internacional de Solidariedade para como os povos das colónias portuguesas, em Roma. Mais grave ainda para o governo português, a recepção em 1 de Julho, no Vaticano, pelo papa Paulo VI, dos dirigentes do MPLA, PAIGC e FRELIMO,o que provoca um agravamento de tensões entre Portugal e a Santa Sé.

A abertura idealizada pelos liberais do regime, que fundam a SEDES[2], ou na mudança do nome, no V Congresso, de União Nacional em Acção Nacional Popular[3], não impedem que os ultras do regime consigam a nomeação de Kaulza de Arriaga para governador Militar de Moçambique, que vai levar a uma grande ofensiva em Junho, a Operação Nó Górdio, contra a Frelimo.

Por outro lado, as medidas assumidas pelos deputados liberais Sá Carneiro, Francisco Balsemão, Miller Guerra, Pinto Leite[4],na Assembleia Nacional, são sempre derrotadas.

A ideia de que o regime não muda regressa ao espírito dos democratas que se opõem à ditadura. Daí que surja, nesse ano, outros movimentos, ccmo o MRPP, com Arnaldo de Matos como secretário-geral, e vários grupos de extrema-esquerda, advogando a acção directa, criticando o «revisionismo» do PCP, o que leva estr partido à criação da Acção Revolucionária Armada (ARA), que inicia a sua acção revolucionária com um atentado com explosivos ao navio Cunene, imobilizando-o no cais de Alcântara.

Ano também de fracassos reconhecidos pelos americanos no Vietname, com a retirada em Abril, ordenada por Nixon, de mais de 150.000 soldados. Dos protestos nos EUA pela intervenção no Camboja. Das várias eleições, entre as quais se destaca, em Setembro, a de Salvador Allende , no Chile.

Mortes públicas que marcam transformações políticas: a de Nasser, em 28 de Setembro, no Egipto, a de de Gaulle, 9 de Novembro, em França.

Recorde.se ainda um último acontecimento nacional, que irá definir a política sindical futura, com a constituição, a 11 de Outubro, de Comissão Organizadora da Intersindical, procurando unir a luta dos sindicatos contra organização corporativa do regime.

Acontecimento político municipal, que irá marcar os anos futuros d concelho: A recondução, como presidente da Câmara, de Fernando Cunha, subindo a vice-presidente o professor de Educação Física João Tolda Martins[5].

A nível distrital, a nomeação da Comissão Distrital da ANP[6], onde Fernando Cunha vais representar o concelho de Torres Novas.

Num segundo artigo, iremos ver como a ano de 1970 é visionado pelo semanário O Almonda.


[1] Encontravam-se presos os torrejanos António dos Santos Graça (31/3/1964) ,5 anos com medidas de segurança); Francisco Canais Rocha- 2ªprisão- (20/8/1968), julgamento (22/3/1969),6 anos, 3 meses e medidas e segurança; saíra em liberdade, por resultado da Amnistia do Centenário do Marechal Carmona, a esposa do segundo, Rosalina Labaredas.

[2] Tentada a sua fundação em Fevereiro, só foi constituída legalmente em Dezembro.

[3] 21 de Fevereiro de 1970.

[4] Morre num desastre de helicóptero, na Guiné, com outros deputados, em 26 de Juho..

[5] O Almonda nº 2451, 16/5/1970. Toma posse em Julho -idem, nº 2459, 11/7/1970.

[6] Idem,nº2470, 24/9/1970..

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