SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 19 Outubro 2020, 22:40

Memorabilia XX

1968 é um ano complicado para o mundo.

Vejamos alguns dos acontecimentos com influência planetária: No Vietname, após a ofensiva do exército vietcongue no Tet, os americanos entram na defensiva[1], iniciando-se pouco depois em Paris conversações para um cessar fogo.[2]Nos EUA o racismo conduz ao assassinato de Martim Luther King, em Memphis,[3] e do senador democrata Robert Kennedy.[4] O movimento negro BlacK Power, que defendia a resistência e revolta contra o poder branco, manifesta-se publicamente nos jogos Olímpicos do México, sendo expulsos dois atletas por terem feito a saudação desse movimento em pleno podium.[5]O confronto entre o Egipto e Israel agudiza-se durante o ano, até ao confronto militar ao longp do canal do Suez.[6] Em Novembro, o republicano conservador Richard Nixon é eleito 37º Presidente dos EUA.[7]

A agitação estudantil entra em crescendo na Europa, em Itália, até à Revolução de Maio de 1968, em que se põe em causa as estruturas do Estado e respectivas instituições, conduzindo a um vazio de poder, que dificilmente foi contrariada por De Gaulle.[8]Na Checoslováquia a liberalização conhecida pela Primavera de Praga de Alexandre DubceK e Ludovic Svoboda é liquidada pela invasão das tropas soviéticas, o que originou problemas e cisões nos partidos comunistas europeus.[9]Na 1ª Assembleia dos episcopados latino-americanos foi apresentada a Teologia da Libertação, que empenhava a Igreja Católica na luta, ao lado dos pobres e dos oprimidos.[10]A Conquista do Espaço atinge nova etapa, com o programa Apolo VIII, em que uma cápsula com astronautas americanos orbitou a Lua e regressou , intacta, à Terra.[11] Em África é a subida do general Mobutu, com a criação da União dos Estados da África Central[12], no Brasil a ditadura militar,[13] na Grécia a sua contestação, na África a independência dos países e a luta de guerrilhas.

Portugal, neste ano, é atravessado por um conjunto de greves,[14]movimentos estudantis em Lisboa e Porto contra a guerra do Vietname e a guerra colonial[15] Por sua vez Mário Soares é preso e deportado para a ilha de S. Tomé.[16] Também, já no fim do ano, em pleno governo marcelista, é preso o pároco de Belém, Felicidade Alves, que levou à contestação por católicos, frente ao Patriarcado de Lisboa,[17] e, no mês seguinte , processa-se uma vigília de centenas de católicos na igreja de S. Domingos, condenando a política africana portuguesa. Nas colónias portuguesas, agrava-se a luta de guerrilha e, em Novembro, a Assembleia Geral da ONU aprova uma resolução condenando a política portuguesa em África

O regime ditatorial abre fendas. E, de súbito, acontece o imprevisto.O Dr. António de Oliveira Salazar sofre grave acidente, na sua residência de férias mo Forte de Santo António do Estoril,[18]vindo a ser operado a um hematoma cerebral na Cruz Vermelha[19] e a 16, sofre um grave acidente vascular, tornando-se o seu estado de saúde gravíssimo, obrigando a presidente da república Américo Tomás a substitui-lo na presidência do Conselho de Ministros pelo professor Marcelo Caetano. O país agita-se. A última reforma ministerial de 19 de Agosto é aceite por aquele, que apenas mexe algumas pedras ministeriais, em quem confia para efectuar as mudanças que apresenta, como programa de Governo, na Assembleia Nacional[20].

Dos acontecimentos descritos atrás pouco ou nada se publica na série de O Almonda desse, e o que sai sempre com a visão do Novidades, onde assenta a base informativa do jornal.

Mas, a partir desta ruptura ministerial, a conjuntura internacional e nacional vai-se fazer sentir nos microcosmos concelhio.

No campo do poder político, a nível concelhio destacam-se, mais do que nunca, as figuras de Fernando Cunha, Engenheiro Neves Clara e Dr. José Marques, mesmo o Dr. Jorge Moita, tendo como figuras de segundo plano, o visconde de S. Gião, Dr. Raposo, Eng. Vale e Azevedo , o presidente da comissão concelhia da União Nacional Dr. António Alves Vieira.

No sector religioso, a ideia duma nova diocese começa a abrir caminho, a partir da criação da região pastoral de Santarém[21]. As mudanças de clero, quer na Direcção e docência do Colégio Diocesano de Andrade Corvo[22], quer no aparecimento de novos párocos na vila de Torres Novas e freguesias,[23] quer na acção paroquial , integradas no espírito renovador do concílio, vêm influenciar de forma decisiva os grupos de jovens estudantes que irão criar, inclusive o JET.[24]

Nas freguesias, a secção Pelo Concelho de O Almonda mostra como a electrificação e o dinamismo de obras municipais, levadas a efeito por Fernando Cunha[25], gera uma acção intensa das colectividades, com actividades a nível do Folclore, das Bandas Musicais , dos grupos teatrais.[26] Destaque-se, com realce, a secção criada por Joaquim Canais Rocha, Cinema[27], onde do Canadá, começa a surgir a colaboração habitual do torrejano exilado Vitor Pereira da Rosa. Acções da divulgação de diferentes culturas, apesar da censura, as novas cinematografias europeias aí são divulgadas, com programação no cinema Virgínia. A Televisão, com o Zip-Zip, os festivais da canção, abrem fendas no tecido rural da mentalidade portuguesa. A guerra, embora silenciada, não deixa de estar nas páginas de O Almonda, cheio de fotografias dos que partem para África, dos que regressam, dos que o transformam no elo de ligação com a sua terra natal, quer em África, quer na emigração. Com a mudança política, o próprio Almonda enceta um início de mudança abandonando de vez no cabeçalho, como se pode observar nas imagens, a simbologia trinitária salazarista no cabeçalho. O mundo, como o país, ainda que de forma mais lenta, mudava. Cantava para os jovens Francisco Fanhais : Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.

António Mário Lopes dos Santos


[1] 31 de Janeiro.

[2] 10 de Maio.

[3] 4 de Abril.

[4] 5 de Junho.

[5] 18 de Outubro.

[6] 8 de Setembro.

[7] 5 de Novembro.

[8] Maio.

[9] 20 de Junho.

[10] Dezembro.

[11] 27 de Dezembro.

[12] Abril.

[13] 13 de Dezembro

[14] Pescadores (Abril, Maio), Carris (Junho-Julho)

[15] Janeiro/Fevereiro, Maio, Outubro, pela morte do estudante Daniel de Sousa Teixeira, preso em 20 de Agosto. Em Dezembro é encerrado o Instituto Superior Técnico, como centro da subversão estudantil, o que conduz à declaração do luto Académico pela Academia de Lisboa

[16] 19 de Março. Regressou em Novembro, já na presidência de Marcelo Caetano.

[17] Novembro.

[18] 3 de Agosto.

[19] 7 de Setembro.

[20] Novembro.

[21] 29/51966,Dicionário de História Religiosa de Portugal, C. Leitores, P-V-Apêndices,151/154.

[22] Padre Adelino Alves, o então padre Francisco Fanhais.

[23] Padre Manuel Tiago na vila, padre Anilar Fialho nas Lapas. Nos Riachos já se sentia a influência paroquial do padre Ribeiro. No seminário de Santarém e na Mata, donde era natural. a influência do então padre Francisco Nuno. Não deve ser estranha a esta renovação a visita do cardeal Cerejeira a Torres Novas em Março de 1968, noticiado pelo jornal a 23 de Março de 1968. História que mereceria ser investigada.

[24] Juventude Ecuménica Torrejana, onde, entre outros, se regista o futuro jornalista Pedro Vieira. Está por fazer a história deste grupo, surgido por influência do padre Manuel Tiago, que se destacará em acções de intervenção nas freguesias rurais mais conservadoras, como no célebre acampamento da Rexaldia. Outro segmento da história concelhia mal conhecida, que só os intervenientes ainda vivos podem trazer a lume.

[25] Vide Actas Municipais, 1960-1974.

[26] Vide séries de O Almonda, 1960-1974.

[27] Início a 2/2/1968.

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