SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:49

Cegos, Surdos e Mudos

 

Não sei se conhecem as pequenas estátuas de três símios, um tapando os ouvidos, outro os olhos, outro a boca, que corresponde, na prática, ao autismo – fora de realidade, para um leitor que me diz, cara a cara, que precisa dum dicionário para me «traduzir». Assustou-me deveras este escrever difícil, já que o meu intuito é ir dizendo, a quem me lê, não vá na conversa de quem manda, sem inquirir porque papagueiam umas sentenças e não outras. Uso, é verdade, por vezes formas mais metafóricas do que literais, a vida está difícil, a escrita idem, e os donos políticos do planeta, do mais pequeno fiscal ao presidente duma grande nação, não gostam de ser contrariados. Regra geral, quando os enfrentamos e lhes dizemos, então como é, em vez de se auto-analisarem, largam os cães de caça contra os que, de peito feito, lhes chamam o que, por respeito cívico, se não pode (deve) escrever nestas linhas de comentário. E os piores são os que nasceram em berços de vidas difíceis, que, ou por raiva, ou por tentativa de superarem os traumas da infância, ou para se vingarem, qual conde de Monte Cristo, dos que não os valorizaram como julgaram merecê-lo, mal se apanham, por oportunismo, velhacaria, ambição, no cimo da montanha, começam a fazer rolar toneladas de pedregulhos contra os que ainda se encontram a tentar chegar ao cume. Não sei para que lado, se o direito ou o esquerdo, dormem, ou se dormem, já que desconfiam de tudo e de todos, familiares inclusive, já que o outro é sempre alguém que os pode trair, fazer sombra, tentar substituir. Marcam o seu lugar pelo vestuário e a figura do politicamente correcto, falam de tudo e de nada, já que a sua cultura é a da espuma dos dias, dos noticiários televisivos, das páginas mal folheadas dos jornais. Regra geral, começam a carreira política pelos cargos dos clubes de futebol, o país que é Portugal tem sido uma escola de grande aprendizagem, pena que a ministra da educação, em vez de se lançar de faca e garfo a alimentar-se da avaliação dos docentes nas cinco refeições diárias que os dietistas aconselham – será que os desempregados lusos fazem parte das preocupações da luta contra o colesterol desses vendedores das modas da saúde? – não usasse como manual de avaliação todo um percurso que vem desde os estádios de ninguém que certos políticos consideraram importantes para a nação – ou os seus bolsos, quem explica? – ao livro autobiográfico da Carolina , bem mais interessante que os programas de português do Magalhães, que por acaso até foi ao serviço de Espanha  dar a volta ao mundo, assim como o Sócrates a vender o produto criado por uma empresa privada, a quem  que só ( ?) interessa os lucros que daí vêm.

 

Duzentos mil trabalhadores na rua não significam, para o primeiro-ministro, mais do que as palavras insultuosas que o PCP e o Bloco de Esquerda com que certos sindicalistas à ordem se atreveram a macular as intenções do beirão salvador da pátria. Talvez porque os três macaquinhos tomaram conta dos governantes e gestores deste país, que não abdicam dum único euro das suas receitas administrativas acima dos dez mil euros -upa.upa – mensais, se viu que, em resposta à manifestação popular contra o desemprego crescente, as falências galopantes, a busca da sopa dos pobres como uma alternativa de sobrevivência, o ministro do trabalho reuniu na sede do Nersant de Torres Novas uma frota distrital de carros pretos de gama alta, para falar aos empresários da distribuição das verbas do QREN comunitário, que impressionava pela manifestação exterior de riqueza insultuosa e de arrogância.

 

Não será que tanta desfaçatez, com o que se vai vendo, ouvindo, lendo, começa a cheirar a ranço?

 

Carvalho da Silva, citou, no seu discurso político da última sexta – feira em Lisboa, que a corrupção lhe fazia lembrar a série do filme O Padrinho. Parece que muito bom político da nossa praça se sentiu ofendido. Mas, se os nossos tribunais, se o ministério público, se as inspecções fiscais e administrativas funcionassem, ao ritmo das europeias, ou das americanas, aposto que muitas destas figuras de proa que por aí escamoteiam os seus milhões, já estariam a ser julgadas pela confusão da coisa pública com a coisa pessoal.

 

Mas como ainda vivemos no país do faz de conta dos três macaquinhos…

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