SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 11 Agosto 2020, 19:49

MEMORABILIA XVIII

Localmente, a década de 1960 é caracterizada pela gestão municipal de Fernando Nunes Martins da Cunha (Março de 1962 a Fevereiro de 1974), que correspondeu, no essencial, a uma época de fomento industrial, desenvolvimento económico e planeamento urbanístico.

No sector cultural, surge, em edição camarária, a revista Nova Augusta (nº1- Dezembro de 1962), Comemoração das Bodas de Prata da Biblioteca e Museu Municipais, sob a direcção do professor da Escola Industrial, Dr. Borges dos Santos, capa do pintor torrejano Luís Filipe de Abreu.

Se o primeiro número sofre a influência açoriana da origem do director, não deixa de publicitar velhos autores torrejanos como Manuel Simões Pinho, Dr. Augusto Mendes, os poetas José Lopes dos Santos, Faustino Bretes, António Borga, romancistas como Judith Navarro, Maria Lúcia Namorado, o citado António Borga, com um conto dedicado a Maria Lamas, autora torrejana que, por razões ideológicas se vê afastada do corpo da revista[1]. Ressalte-se ainda a colaboração histórica de Maria Augusta Serra, sobra arqueologia torrejana, e pictórica, dos pintores, o torrejano Manuel Gonçalves e de ascendência local, Artur Bual.

Da mesma revista sai, em Agosto de 1963 comemorando o centenário do pintor Carlos Reis, o nº 2, onde, além de autores diversos com textos sobre a efeméride, surgem alguns dos  poetas da segunda metade do século XX, José -Alberto Marques[2], José Carlos Cardoso[3], António Mário Santos[4], além de Maria Elisa Nery de Oliveira, da geração anterior. Três pintores, os torrejanos Francisco Nuno e Júlio Tuna, e o de ascendência local, Artur Bual apresentam trabalhos seus ou, como o último, ilustra o poema de José Carlos Cardoso. Além da continuação do estudo de Maria Augusta Serra, publica-se o primeiro sobre Vila Cardílio, de Afonso do Paço[5]. Em ambas as revistas, torna-se importante a representação pictórica de quadros de Carlos Reis, de seu filho João Reis, e doutros mestres sobre o autor.[6]

Se, na década de 50 e início de 60, a acção sociocultural assentava numa comissão de sócios do Clube Torrejano, o Grupo Pró-Torres Novas, a partir da década de sessenta consolida-se fora desse grupo e com outros intervenientes. Na vila, o Cineclube de Torres Novas, musicalmente o Choral Phydellius e o Coral de Torres Novas, a Banda Operária Torrejana; na música ligeira e de baile, o Conjunto Níger e os Kalifas, na dança popular, o Rancho Folclórico de Torres Novas.

Mas, numa década em que a luz eléctrica chega finalmente a todas as freguesias, há um recrudescimento das Bandas Filarmónicas, dos Ranchos e dos grupos de teatro amadores que apresentam as suas próprias récitas. Superioriza-se, nesta década, sem desprimor do trabalho das restantes, a freguesia de Riachos, com o incremento produzido pelas Festas do Senhor dos Lavradores[7], do Rancho Folclórico e da sua carreira ascendente[8], do grupo de futebol, da columbofilia, a que não serão estranhas, entre outros, as figuras políticas locais do presidente da Câmara, Fernando Cunha e do Dr. José Marques.

Por sua vez, O Almonda, por intermédio de Joaquim Canais Rocha, Olímpio Repolho, Alexandre Martins, Joaquim Rodrigues Bicho e A. Chora Barroso, na senda do Artes e Letras, de Júlio Dangra, lança novos  suplementos socioculturais, mas mais divulgadores da vida patrimonial eartística do concelho, sobre os quais nos debruçaremos noutro artigo. Também o Dr Carlos Trincão Marques nos surge com Perspectivas, fazendo uma outra leitura sociopolítica do mundo contemporâneo, nacional e internacional,secção bem  reveladora das tentativas de abertura a que o semanário vai cedendo, ante as pressões dos acontecimentos históricos.

Não são anos fáceis estes anos, apesar das mudanças que geram uma outra fisionomia concelhia. Uma guerra colonial em três, então, províncias africanas, um emigração crescente para a Europa, um agravamento da imagem de Portugal nos areópagos internacionais, um mal-estar crescente com Roma e o papado, que se observa na incomodidade governamental na presença de Paulo VI nas  comemorações do Cinquentenário de Fátima, cujo discurso é revelador duma posição contra a guerra,  revelando  o declínio da política do orgulhosamente sós do velho ditador.

A partir de 27 de Setembro de 1968, por incapacidade irreversível do Dr. António de Oliveira Salazar, após um acidente em Agosto, e uma consequente intervenção cirúrgica, que vem originar um AVC, o Presidente da República Américo Tomás nomeia Marcelo Caetano primeiro-ministro. Um novo ciclo político parecia ir estabelecer-se no país, mas breve a esperança numa abertura para uma transição democrática desvaneceu-se, até ao movimento dos capitães, a 25 de Abril de 1974.


[1] Maria Lamas (1893-1983). É presa pela PIDE em 1962, quando regressava de Moscovo, onde assistira à conferência sobre Desarmamento Geral. Em Junho desse mesmo ano, reinicia novo exílio em Paris, só regressando a Portugal, em 1969,.

[2] Publica o seu primeiro livro, A Face do Tempo, ed. do autor, Papelaria Delta, Torres Novas, em 1964.

[3] Já falecido, poeta divulgado nos suplementos de O Almonda da década de 60, foi o grande divulgador, na sua galeria de arte Neupergama, da pintura e poesia e poesia surrealista portuguesa

[4] Publica o seu primeiro livro de poesia, Por Exemplo Homem, ed. Saturno, em 1966.

[5] Em Maio de1963 iniciam-se as diligências camarárias para o estudo sistemático da vila românica de Cardílio.

[6] A saída de Borges dos Santos de Torres Novas leva à suspensão, no jornal O Almonda da secção Artes e Letras e, na Biblioteca, da revista, que só volta a ser republicada 18 anos depois, numa 2ª série, em 1981., sob a direcção do então director da Biblioteca e Museu, José Manuel Carraça da Silva.

[7] Festa da bênção do gado, em 28 de Maio de 1966,suspensa desde 1953. Pela primeira vez, o Senhor Jesus dos Lavradores sai da Igreja de Santiago para ser conduzido até à freguesia de Riachos.

[8] Apresentações nacionais e internacionais., quer no continente, na madeira ou em França. Em Julho de 1867, que o Almonda descreve pela pena de Chora Barroso, na secção Amanhecer, realiza-se o Festival Nacional de Folclore.

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