SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 10 Agosto 2020, 20:08

Memorabilia XVII

Os anos 50 do século XX pareciam ter apaziguado Portugal com os países vitoriosos do pós-guerra, de tal modo que as oposições ao governo de Salazar se encontram silenciadas e desinteressadas. O Estado Novo integrara-se no mundo livre, tendo sido inclusive aceite pela Nato. Após as eleições de 13 de Novembro de 1949, que elegem 120 candidatos da União Nacional, Portugal subscreve junto da ONU a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

A década de 50, caracterizada pelas visitas do general Dwight Eisenhower (16/1/1951), o responsável militar pela Nato, da rainha de Inglaterra (16-20 Fevereiro de 1957), aprovam a integração de Portugal no mundo democrático. [1] As campanhas eleitorais para as presidenciais de 1951[2] e as legislativas de 1953[3] são exemplos de uma grande desmobilização oposicionista. Em 1955, a 14 de Dezembro, o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral da ONU admitem Portugal como seu membro de pleno direito. A legislação repressiva, que conduz ao reforço do poder atrabiliário da PIDE, conduz a uma repressão cada vez mais forte sobre trabalhadores industriais e agrícolas, que se manifestam, sob a orientação do PCP. Este em 1956, ao optar pela solução política, que ficou conhecida por desvio de direita, vai abandonar até ao próximo Congresso, a opção revolucionária, sofrendo também um profundo hemorragia, com a prisão de muitos dos seus principais dirigentes. Nas legislativas de 1957[4], as oposições desistem de concorrer. Os resultados do 1ºCongreso Republicano, iniciado a 5 de Outubro, levaram à divisão dos oposições, prefigurando-se como mais forte  a candidatura de General Humberto Delgado à eleições presidenciais de 1958.

Se a década de 50 apresenta, na aparência, uma acalmia para o Estado Novo, o fenómeno Delgado, em 1958, vem abalar seriamente o regime, que se via no plano internacional, durante a década, pressionado pelos movimentos independentistas das colónias portuguesas e pela pressão da União Indiana sobre as possessões lusas na Índia. A substituição, como candidato presidencial, do general Craveiro Lopes, considerado por Salazar demasiado à esquerda, pelo contra-almirante Américo Tomás, mostra que, no interior do regime, se começa a fazer sentir uma linha liberal, influenciada pela economia capitalista europeia e americana, que se opõe à linha conservadora, rural, proteccionista, que vem desde o início do movimento da União Nacional. Por sua vez, a carta do bispo de Porto a Salazar, criticando a política seguida por aquele, leva-o ao exílio, e em 1959, à proibição da entrada em Portugal, mostra a influência que o Concílio do Vaticano II[5] e a encíclica papal  Mater et Magistra, de forte imspiração social[6], introduziu na igreja portuguesa, onde  começam a  surgir, quer na JUC (Juventude Universitária Católica, quer na JOC ( Juventude Operária Católica), figuras  que se vão integrar nos movimentos liberais e oposicionistas da década de 60, que conduzem, inclusive, ao apoio a acções revolucionárias, imediatamente perseguidas pelo regime, como  a participação no golpe da Sé[7]

Se o ano de 1960 é caracterizado pelas acções de Humberto Delgado já no exílio, pelas pressões dos movimentos de libertação africana sobre o governo de Salazar com vista à independência, a fuga de Peniche de 10 quadros importantes do PCP, entre eles Álvaro Cunhal, de greves mineiras, rurais e industriais diversas, 1961 representa o eclodir duma nova fase, que se inicia com o assalto ao Santa Maria, por Henrique Galvão[8], o início da guerra em Angola[9], o envio de militares,o ataque da UPA e Holden Roberto no Norte, chacinando dezenas de portugueses e destruindo fazendas.[10] Em Portugal, a tentativa falhada do golpe militar, para demitir Salazar, do general Botelho Moniz,[11] conduz a uma remodelação governamental, com o afastamento das figuras liberais, tendo Salazar assumido a pasta da defesa. Nas eleições legislativas de 12 de Novembro, a oposição desiste à boca das urnas, tendo sido eleitos todos os candidatos da União Nacional. O receio do golpe militar, ou de eleições, onde se repetisse o fenómeno Delgado, conduziu a que fosse em Março, legislativamente alterada a forma de eleição do chefe do Estado, que passa a ser indirecta, através dum colégio eleitoral.[12] Para acabar o ano horribilis para a ditadura salazarista, a União Indiana invade e ocupa e reintegra  as cidades de Goa Damão e Diu. Salazar exige ao  governador general Vassalo e Silva a resistência até ao último homem, mas, ante a desproporção de forças, aquele decide a rendição.[13]

Só de forma muito enviesada encontramos nas páginas de O Almonda informações destes e outros acontecimentos que mostravam um cada vez maior desencanto com a política de Salazar, verificando-se que, dentro da União Nacional, a corrente liberal começa, com influência no exército, na igreja, nos grupos industriais e financeiros, a viragem que levará ao marcelismo.

Como veremos no próximo artigo a década de sessenta, que marca o fim do sonho salazarista, deixa as suas marcas em Torres Novas . O Almonda, mesmo visado pela censura, não deixa de nos mostrar, por vezes de forma acidental,  a transformação do mundo agrícola e comercial tradicionais num mundo industrializado, onde a banca ganha cada vez mais a sua força, com dois bancos instalados na vila nessa época: o Banco Nacional Ultramarino e o Banco Tota e Açores. Das relações entre o poder político e o económico, que, após a morte de Salazar, se vão identificar com a tentativa de abertura (fracassada) marcelista. [14]


[1] A divisão do mundo em dois blocos, com  os interesses americanos nos Açores, provoca uma política dúplice, com esquecimento da ditadura portuguesa, mas que vai ser revista por John Kennedy .

[2] Óscar Carmona morre a a 18 de Abril, com 81 anos. Salazar recusa o cargo de presidente, posição defendida pela facção moderadora do regime, liderada por Marcelo Caetano, tendo sido então escolhido a general Craveiro Lopes para   candidato da União Nacional. Já a oposição, dividida, apresentara dois candidatos.:pela oposição republicana e democrata, o contra-almirante Quintão Meireles, pela esquerda comunista, o professor universitário Rui Luís Gomes.. O segundo foi considerado, pelo Conselho de Estado, inelegível, sendo excluído do processo eleitoral (17/7). Por sua vez, Quintão Meireles, considerando não haver garantias democráticas de defesa do sua candidatura, retirou-a (19 a 22 de Julho).A oposição apela a abstenção. Craveiro Lopes é eleito presidente da República em 22 de Julho.

[3] Dividida a oposição em comunista e não comunista, apelam à abstenção, pelas mesmas razões apontadas para as presidenciais.

[4] 3 de Novembro de 1957.

[5] 11 de Outubro de 1962 a 8 de Dezembro de 1965.

[6] Publicada parcialmente no semanário O Almonda

[7] 11 de Março de 1959.

[8] 12 de Janeiro de 1961.

[9] 4 de Fevereiro se 1961.

[10] 15 de Março de 1961.

[11] 13 de Abril de 1961.

[12] 21 de Março de 1961.

[13] O que valeu ao nosso conterrâneo, irmão da escritora Maria Lamas, bem como a outros oficiais superiores, o ser demitido, por decisão do Conselho de ministros de 22 de Março de 1963.

[14] Foram usados, como meios de informação, neste período, o 5ºvolume do  Portugal Contemporâneo, coordenado por António Reis, o 7º volume da História de Portugal, coordenação de José Mattoso e o2º volume da História Comparada, direcção de António Augusto Simões Rodrigues.

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