SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 10 Agosto 2020, 20:39

Memorabila -XIV

O ano de 1961, como vimos no anterior artigo, é politicamente um ano complicado para o governo de António de Oliveira Salazar. O assalto da Santa Maria, o início da guerra colonial, as eleições legislativas de Outubro, a anexação pelo Estado da Índia dos últimos territórios que nos restavam do antigo império colonial do oriente. Mas também o é para a oposição democrática, que a PIDE, após as eleições legislativas, atinge de forma violenta, com a prisão de muitos oposicionistas, a maioria militantes comunistas. É o caso de Torres Novas, que a 20 de Novembro, vê serem presos pela Polícia Política, 21 elementos, a maioria da direcção do Núcleo Campista Raiar de Aurora[1] e muitos dos seus associados, que deixa praticamente existir.[2]

Outra colectividade com bastante projecção mantém uma regular e periódica actividade, embora alguns dos seus dinamizadores estejam no grupo dos presos políticos referidos. O Cineclube de Torres Novas, cuja comissão instaladora era constituída pelo Dr Augusto Guimarães Amora, convidado para presidente, Justino Ferreira Gaspar, Francisco Nelson da Silva, António Maria Teixeira da Silva Paiva, José Henriques Pereira dos Santos, Rogério Paulo e Silva Paiva. Joaquim Canais Rocha[3] e Vítor José Caetano Nicolau, também da referida comissão, mas cujos nomes tinham sido recusados pelo SNI (Secretariado Nacional da Informação), embora, por proposta do presidente, continuassem a fazer parte da direcção.[4] A associação vai crescer. E dos 200 sócios com que partiu em 1960, em Abril  de 1961 já contava com 780 sócios.[5]

Por sua vez, a Comissão Pró-Torres Novas, presidida pelo Engenheiro Neves Clara, apresenta, em Maio, o seu programa de actividades: concurso internacional de Pesca no Almonda, um ciclo de conferência sobre Torres Novas, uma Exposição de Floricultura e outra de Fotografia. Deliberou-se não realizar as já tradicionais festas do Castelo, devido à gravidade dos acontecimentos em Angola.[6] A 5 de Agosto, o semanário noticia a realização, no dia seguinte, do 6º concurso de Pesca e a 2 ª Taça das Nações no Rio Almonda e a importância do Dr. António Alves Vieira para a sua concretização.[7] A !2, os torrejanos ficam a saber que  Portugal venceu a II taça das nações e o Clube desportivo de Torres Novas o V Concurso Internacional.

Outro acontecimento locail digno de relevo é o começo  da construção do Grémio da Lavoura, para e qual contribuiu a acção do proprietário ,advogado e seu presidente, o Dr. José Marques.[8]

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No campo do ensino assinale-se o projecto da construção do novo colégio, saído do Colégio Andrade Corvo, adquirido pela Igreja Católica, passando a Colégio Diocesano Andrade Corvo, na Quinta de Santo António, para o qual é nomeado como director o padre Adelino José Narciso Gomes[9] Anexo ao colégio irá abrir a nova Escola do Magistério Primário, com 18 alunos.[10] A população escolar torrejana, na abertura do ano lectivo, mostra a grande predominância do ensino técnico, nas suas novas instalações, com 900 alunos, seguido do Colégio de Santa Maria, 327 alunas, O Colégio Andrade Corvo, 150, o Magistério Primário, 18.[11]

No sector cultural do Município, a Biblioteca, sobre a direcção do Dr. Alberto  Borges dos Santos[12], professor da Escola Industrial e Comercial de Torres Novas, divulga  que, aquela, fundada  em 1937 por Gustavo Pinto Lopes , possui actualmente um recheio de 12 mil volumes e  a frequência de leitores , em 1960, fora de 15.636.

Num próximo artigo concluiremos esta visão preliminar referente ao ano de ruptura que foi 1961, com a reflexão que, sobre a vila fazem três dos seus cidadãos: O Dr. Augusto Mendes, Faustino Bretes e Joaquim Rodrigues Bicho, que inicia, neste ano, a sua colaboração no semanário.


[1] O Almonda nº  2092,9/7/1961 – Levara a efeito o 2ºAcampamento Campista, em 1 e 2 de Julho, na passagem do seu 7º Aniversário, realizado, como nos anos anteriores, na Quinta de S. Gião.

[2] Canções e Liberdade, Exposição Comemorativa do 20ª Aniversário do 25 de Abril, Museu Municipal de Torres Novas, 1994, p.31; Rocha (Francisco Canais), Para a História da Resistência ao Fascismo em Torres Novas(1945-1961),Nova Augusta nº 10, B.M.T.N.,Outubro 1996,pg.44.

São presos, Manuel Boniné (3ª vez), António Maia (2ª vez), António Rodrigues Canelas (2ª vez), José Maria Salgueiro (2ª vez), António Antunes Canais, Fernando Antunes Canais, Manuel Santo, Pedro Gonçalves,  Joaquim Ramos Silva, Fernando Oliveira Nuno, Joaquim Atalaia, Dâmaso Ribeiro, Joaquim Razões, Isidro Conveniência, Eduardo Luz Gouveia, Luís Luz Maurício, Joaquim Canais Rocha, António Emílio Coelho, Fernando Marques Emílio, Diamantino Marques das Neves, José Dias Cardoso.

[3] É a figura pública mais importante do cineclubismo concelhio, através da sua página no Semanário O Almonda, onde inicia uma das suas primeiras secções, Crónica de Cinema, em Julho de 1959, sob o pseudónimo de Sianac. A divulgação da cinematografia europeia e americana da pós-2ª guerra Mundial, a propaganda do movimento cineclubista nacional, a divulgação de obras da literatura universal são a norma da sua secção, que vai ser interrompida em Novembro, pela sua prisão política, até Fevereiro de 1962,

[4] Rocha, cit., 47/48. Criada em1959, por atraso da aprovação dos Estatutos, a sua sessão inaugural realizou-se a 12 de Março de 1960. Com o filme de Alain Resnais, Brincadeiras Proibidas. No ano seguinte, ao comemorar o seu primeiro aniversário, cria-se a secção de cinema amador, que vai funcionar, a partir de Março, com aulas de aprendizagem orientada por aquele e o fotógrafo Agostinho Alves dos Santos.

[5] O Almonda, nº 2080, 9/4/1961.

[6]Idem, nº2082, 28/4/1961.

[7] Idem nº2097,12/8/1961.

[8] Idem nº 2088, 10/6/1961.

[9] Idem nº2103, 30/9/1961,

[10] Idem, nº2103, 30/9/1961.

[11] Idem nº 2104, 7/10/1961.

[12] Idem nº nº2105, 14/10/1961. Autor duma página cultural no semanário, Artes e Letras, sob o pseudónimo de Júlio Dangra, que nesta data entra no seu 4ºano de publicação.

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