SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 15 Agosto 2020, 18:46

Memorabilia – X

Sempre gostei da palavra amizade. Tem uma cor quente, carnívora por dentro. Escreve-se com a tinta do sangue. Com sílabas. Com o silêncio que grita na sua conjugação. Com o olhar fluido no espelho do tempo. Diz tudo o que é e não é. Como um lugar: a vila transformada em cidade. Tudo ou quase tudo é uma diferente e estranha narrativa: os locais, os rostos, as fábricas, as casas, as escolas. Os cafés: o Portugal. O Zé da Ana. O Valeriano, nocturno, no cair do pano da partilha da palavra, do pão, do queijo fresco, do vinho. A própria noite. A Neupergama, a base do surrealismo fora de Lisboa.

O José -Alberto Marques, o José Carlos Cardoso, outros, que por ternura e fidelidade, não fazendo parte desta memória, não cito.

Hoje, mais à frente explicarei a razão, o meu monólogo é com o José-alberto marques. Em minúsculas, com hífen, como sempre queria. Com o amigo, professor, poeta, romancista, editor de revistas, antologiados que baste em edições nacionais e estrangeiras, premiado, expositor de poesia visual em diversos países. A sua passagem pela Covilhã, onde, no contacto com E.M. de Melo e Castro, a sua ligação ao concreto, ao experimental, se aprofundou. Sem nunca  excluir, como um vulcão aparentemente adormecido, a tendência romântica, desde a adolescência,  que lhe vem de um António Nobre, dum Cesário Verde, dum Camilo Pessanha, dum modernista como  Mário de Sá Carneiro. Leiam-se, a Face do Tempo, Hoje mas, História das Coisas, até às Hiperlíricas, ao mais recente British Barthes. Veja-se como a alma da oficina do poeta se transforma numa lava torrencial onde a palavra é o alfa e ómega da sua intervenção no mundo. Não o salva, não o protege, não o destrói. Arde, simplesmente. E ao arder , transfigura  o real num outro real, o corpo da palavra.

Daí o seu orgulho pela publicação, na revista de Finalistas, de 1958, do Colégio Andrade Corvo, então na Avenida, em Torres Novas, do primeiro poema experimental português. «O autor assina com o nome de Alberto Marques e hoje reconhece que não cometeu feito especial, Esse remete-o ao Brasil, se quiserem à memória de Alberto de Campos». Como confessa em I’Man, na comemoração dos 50 anos do 1º Poema Concreto publicado em Portugal

Convém elucidar que o autor já tinha publicado várias críticas de livros num suplemento do jornal O Almonda, apresentando a defesa duma vanguarda literária, ao mesmo tempo que «politicamente a sua formação era cada vez mais de esquerda, de contestação ao regime», o que lhe valeu, em 1973, ser preso por razões políticas. Já depois de Abril, em 1975, foi candidato a deputado pelo MES, fez parte da direcção do SPGL e da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Interessa-me, sobretudo, a sua obra literária. Extensa lamentando a impossibilidade exploratória numa simples  crónica de afectos. Mas, diga-se que, entre a Face do Tempo (1964) e British Bar (2011), a sua bibliografia marca 17 livros de poesia, 4 de ficção, uma Antologia de Poesia Concreta em Portugal, de parceria com Melo e Castro, 4 livros de literatura infanto-juvenil, 15 exposições, distribuídas por Portugal, Inglaterra, México, França, Bélgica,7 hapenings e Performances, também no Brasil,  1 espectáculo multimédia, 1 espectáculo de teatro. Lembro-me de, já posteriormente, ter lido uma critica sobre um outro espectáculo de teatro, assim como a indicação do próprio, ainda este mês, que estava a concluir as provas dum novo romance provisoriamente intitulado Narrativylírica.

Nada surge por acaso. Ao folhear uma das minhas antigas agendas, redescubro que o poeta fez anos a 8 de Outubro de 1939.O mês ainda vai na segunda quinzena, cada dia na nossa idade é um aniversário. Daí a opção de minha crónica.

Como e espaço não abunda publico-lhe um poema do British Bar

Nunca vi morrer um  poeta

Já não há explosivos, morte por morte, o caos e o acaso.

Considero a poesia o acto limite do ser humano

Loucos, lúcidos, sábios, os poetas são os leitores profundos das palavras, das vidas e seus dizeres.

Não se confundem com o mundo, sequer com o universo.

Nunca vi morrer um poeta.

Um abraço, José.

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