SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 10 Agosto 2020, 19:07

Memorabilia – 7

Torres Novas sempre foi uma terra cuja vida socio-religiosa-cultural  dependeu sempre das colectividades. Se até ao liberalismo a vida associativa obedecia a princípios diferentes , assentando no trabalho, nas freguesias rurais e urbanas, das confrarias socio-religiosas e  nas associações de artes e ofícios das artífices mecânicos, no século XIX, pela influência das ideias do socialismo francês,  começam a surgir os movimentos associativos de carácter mutualista. Na vila e termo, a pequena burguesia dos funcionários administrativos, a classe média proveniente das profissões liberais, os militares vitoriosos das lutas liberais, os emigrados e perseguidos durante o miguelismo, os mestres das artes e ofícios, desenvolvem, na assistência, na arte dramática, no associativismo mutualista, nas sociedades musicais, uma intensa actividade, que exerce, durante o século XIX, uma acção social dinâmica nas colectividades. Junte-se o aparecimento da imprensa e a ainda que difícil implantação do ensino básico mas freguesias rurais e na vila torrejana, o retrato do associativismo completa-se. Colectividades, bandas de música, teatro, o Montepio e a criação do Virgínia, na continuação da Sociedade União Dramática da década de 40, O Clube Torrejano, centro da elite burguesa, política, social e militar, a Misericórdia onde mesas directivas influenciadas pelo liberalismo conduzem a ideologia dum cristianismo social e à construção dum novo hospital sob as ruínas do antigo convento do Carmo. O desenvolvimento do comércio urbano e da indústria, com a criação dum proletariado de origem rural, e nas empresas de fiação, maioritariamente feminino, levam a outras formas de organização, incipientes, de carácter sindical, a que davam alimento as relações que a ligação ferroviária entre Lisboa e o Entroncamento propiciavam.

Se assim foi na monarquia constitucional, a dinâmica manteve-se na primeira república, e mesmo durante a ditadura, quando a censura salazarista proibiu o pluralismo político e a imprensa democrática, o ensino e a cultura racionalistas, o que se verificou foi a deslocação das ideias liberais e democráticas para um associativismo de massas, como o futebol, a assistência social, as associações musicais das freguesias. Uma leitura atenta das séries deste semanário católico, O Almonda, durante o período de 1926-1932 e 1932 -1974 mostra-nos  essa vida intensa, colectiva, transmitida pela notícias da actividades da semana e da colaborações das aldeias. Mas também o grande impacto da actividade do orfeão torrejano, sob a batuta do padre Maya dos Santos, do Virgínia com as suas sessões periódicas de cinema, dos conjuntos musicais, com os seus bailes onde se irão distinguir, na vila, a  Banda Operária e mais tarde o Conjunto Níger.  E a partir de sessenta, a própria dinâmica social abre o semanário a novas colaborações, enquanto outras colectividades se desenvolviam na vila e no concelho, tornando-se o Cineclube de Torres Novas um símbolo  da resistência democrática e criatividade fora do sistema, o choral Phydellius, o Coral de Torres Novas, as bandas musicais, a actividades amadoras desportivas, a dinâmica da Zona Alta, o teatro , até à criação do MIC, em 1973, que procurava coordenar as actividades das colectividades concelhias num programa integrado.

Depois de Abril – a política fez regredir o movimento associativo, quando os sócios se dispersaram por uma intervenção partidária quase exclusiva. Mas as colectividades mantiveram-se e deve-se à acção do Francisco Canais Rocha a criação da UCATN, enquanto dirigente da ARPE, a renovação da ideia dum associativismo coordenado, com colectividades com a sua própria autonomia e actividade. Ideia importante, com dois importunos obstáculos a dificultar a estruturação que se reconhece fundamental: a influência dos partidos políticos no controlo das direcções associativas e o difícil apoio do município à concretização desse pólo de coordenação associativo, pela quase nula ou escassíssima verba do orçamento para as actividades associativas. Sempre o ilustre torrejano, infelizmente falecido, cuidou de não confundir o associativismo com o dirigismo partidário, daí a ideia da renovação dum novo MIC do século XXI, de que a UCATN poderá, nesse sentido, ser o elemento impulsionador.

A primeira mostra do Associativismo Torrejano teve algum êxito, mas não conseguiu, a meu ver, dar resposta a uma concelho que chegou a ter mais de cem colectividades. Fez-se o possível, dir-se-me-á, mas  há que ligar as periferias ao centros urbanos, partir com tempo para uma Assembleia das Associações e Colectividades, donde saia um programa de acção e um coordenação ágil e com capacidade periódica de análise do realizado. Sem ignorar que , hoje, parte significativa  das acções desportivas e culturais, assentam na intervenção das escolas  e agrupamentos.

Quanto ao espaço, ao mercado semanal, julgo-o limitado demais para uma mostra anual das actividades concelhias, que deveria caminhar para um programa de festas da cidade, cujo espaço ou espaços são os da cidade histórica e as próprias freguesias.

O mercado municipal deveria ser utilizado quotidianamente para exposições permanentes de artistas, artesanato, escultura, pintura, fotografia, mostras de escritores, leituras públicas, assembleias de colectividades, acções colectivas, mostras de gastronomia, palestras, concertos, ateliês de artistas, com espaços delimitados para a criação da sua específica actividade artística. Em suma, um centro público de vida associativa e cultural, coordenada por uma comissão eleita na assembleia pública de colectividades, associações e escolas, sob a responsabilidade do vereador respectivo e agregando representantes do Departamento Sociocultural, como elementos de ligação ao Museu, Biblioteca e sector publicitário camarário.

O Património associativo, cultural e social concelhio, para ter futuro, merece uma acção concertada, de que a primeira mostra pode ser o pontapé de saída.

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