SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 11 Agosto 2020, 20:47

Ninguém Diz Quem Vende As Armas?

Memorabilia 6

A memória também é futuro.

É urgente não deixar que as palavras fiquem presas na garganta ante a crueza das imagens. Nem deixar que as mãos se escondam nos bolsos, quando é preciso agitá-las como linguagem do corpo. Nem esconder o olhar sob um manto de aparência, quando a realidade é uma navalha a ferir-nos por dentro com a sua lâmina de vergonha. Ser solidário não significa espreitar o rosto do espelho como se a rua não existisse e nela não encontrássemos mais do que o rasto dos nossos sapatos.

A memória somos nós nas imagens dos refugiados do Médio Oriente e da África na diáspora em busca da porta da Europa. Que diferenças há entre eles e nós? O local de nascimento, a língua falada, a religião seguida?

Há nesses refugiados uma determinação que simultaneamente nos preocupa e nos faz inveja. O que nos preocupa como retrocesso, como escassez, como perda de direitos sociais, é para eles a frase luminosa dum paraíso à entrada dum novo mundo prometido. Como adivinhar as suas vidas nos seus locais de nascimento e existência? As guerras diárias, os ódios religiosos, o luxo e a miséria absolutos, a morte transformada numa banal ocorrência? O horror escrito dia a dia com uma linguagem de humilhação e sofrimento inenarráveis?

A Europa cria muros para se proteger da contaminação. Países humilhados por séculos de exploração e subserviência transformaram-se em carrascos, em nome da defesa dos interesses privados de minorias de burocratas  que soletram mal  a palavra democracia, por a terem decorado à pressa, substituindo a farda do guarda concentracionário pelo fato azul, a camisa branca, a gravata de seda dos monopolistas da segurança.

São rios de seres humanos, fugindo das armas e das bombas que os trucidam, lhes matam os filhos, os exploram na própria viagem. Não têm pátria, porque estas sucumbiram ante a cupidez dos que, longe, lhe roubam as matérias-primas, lhes vendem as armas, lhes usam os corpos como mercadorias facilmente descartáveis, os dirigem através de marionetas a quem deram o bastão do comando.

Buscam uma esperança no colonizador que os explorou, porque na miséria, no sofrimento, no horror, há graduações e diferenças, no uso e usufruto das mais simples coisas às palavras essenciais como dignidade, direitos sociais, respeito pelo outro. Procuram a terra prometida como o fizeram na segunda guerra mundial os judeus fugindo do holocausto nazi, os deslocados que percorriam sem rumo as estradas da Europa fugindo do que hoje a estes persegue: o facto de existir. O mesmo que aconteceu aos povos dos países que colonizámos na África e no Oriente, mão de obra barata em busca dum ar mais respirável, ainda que no submundo das periferias urbanas, com a terra e a memória dos cheiros na dor carnívora do abandono.

A hipocrisia gera os monstros do apocalipse, num planeta a quem já escasseia

o tempo para regenerar as suas próprias disponibilidades para que a vida subsista .

As globalizações do lucro, do empreendorismo, das riquezas colectivas cada vez mais usurpadas por minorias sôfregas dos seus impérios de curto prazo, trazem-nos a estas imagens terríficas da desumanização em que o deus dinheiro desagua: uma criança morta na orla da água e da areia, afogada pela avidez da desumanidade, num mar que foi sempre o esteio da civilização,  estrada entre o oriente e o ocidente, o caminho da memória para o futuro.

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Olho estas duas crianças sorrindo, ladeando um urso de peluche, um pouco mais velhas que os meus gémeos netos. Aylan, três anos, foi encontrado morto numa praia da Grécia. O Mediterrâneo guardou no seu ventre silencioso, Galip,de 5,  a mãe Rehana, de 35. Sobreviveu o pai Abdullah Kurdi. Uma família da Síria, apenas um exemplo das muitas que pagaram a vida nas casas bombardeadas, nos crimes fanatizados, nas fugas sem um destino, no mar que tentaram atravessar, no tráfico de quem os explorou.

A memória também é futuro. Grito-o com força, com fúria, com dor, com remorso.

Com os versos dum poema de Jorge de Sena a queimar-me a alma, extracto da Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya: «Tanto sangue, / tanta dor, tanta angústia, um dia/ -mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -/ muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos/ de opressão e crueldade, hesito por momentos / e uma amargura me submerge inconsolável. / Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, /quem ressuscita estes milhões, quem restitui/não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?»

antoniomario45@gmail.com

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