SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 11 Agosto 2020, 19:42

Memorabilia – 4

A poesia e a beleza sempre andaram de mãos dadas. Os grandes poemas universais são poemas de amor. A Ilíada e a Odisseia, de Homero, A Divina Comédia de Dante, os sonetos de Luís de Camões, o Romeu e Julieta de Shakespeare, a poesia de Rilke, apenas alguns esparsos exemplos duma das grandes preocupações da humanidade: a relação eros-tanatos, o amor e a morte. Como escrevia um poeta : amor – amorte  – amo(r)te. Dual. Luz e sombra, alegria e tristeza, infância e velhice, alfa e ómega. O transitório e o absoluto. O uno e o múltiplo.

Matilde Campilho, poeta portuguesa, 33 anos, autora de Jóquei, um livro de grande beleza literária, foi a última coqueluche da Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil. A sua beleza atrai, a sua voz prende, a arte de dizer arrepia, comenta um dos presentes: «a maneira como ela lia, a interpretação que faz da sua poesia, é maravilhosa». Mesmo, sem a sua voz, o livro é muito bonito, expressão muito brasileira, que os intelectuais ditos desta pátria menorizam, porque o seu espelho são o do estranho, do novo, do original, do único.

Lê-se muito pouca poesia entre nós. Desconhece-se, pior, a escola portuguesa é analfabeta quase total, neste tema. 99 % da poesia portuguesa não passa pelos livros de português. Os estudantes de literatura, exceptuando algum Camões, algum Pessoa, alguma Sophia, desconhecem-na.

Lisboa, o Porto, têm meia dúzia de lugares para meia dúzia de crentes que se veneram reciprocamente dentro de paredes estreitas. O país é quase um zero absolutos. E escrevo quase, porque no nosso concelho, há uma pequena excepção, onde a poesia ganhou um espaço e devoção: refiro-me a Riachos.

Mas, se Matilde Campilho é, além de criativa, inteligente, percebe-se quão profunda é a sua concepção de mundo, quão séria é a sua poesia. Permita-se-me a transcrição de quatro vectores de pensamento, de declarações suas na apresentação dos seus versos, que O Público transcreveu, a 4 de Julho:

– «a poesia é uma coisa que a gente faz em casa, no restaurante. Mesmo que tenha muita gente em volta, não tem ninguém. É uma relação minha com o papel.»

– «a poesia, a música, uma pintura não salvam o mundo. Mas salvam o minuto. Isso é suficiente.»

– «Venho duma religião que diz a determinada altura: atire a primeira pedra quem nunca pecou. O que está acontecendo agora é que todo o mundo está achando que não peca. E todo o mundo está atirando pedras contra todo o mundo. As pessoas estão num fogo cruzado. Tem perigo na esquina. Não está fácil.»

– «Quem tem tempo para ler poesia quando tem fome? Se o estômago está vazio, às vezes nem o amor cabe.»

Madalena Monge, num dos últimos número deste semanário, queixava-se do desaparecimento da poesia das suas páginas, mesmo sabendo-se que nem tudo o que aparece em forma de poesia o é, e se torna difícil, neste mundo que se apedreja cada vez mais, ter um suplemento ou uma página dedicada à literatura, como outrora as ouve, com a carolice do Joaquim Canais Rocha, onde o suplemento Contacto, por exemplo, marcou uma época. Experimentar, foi sempre a forma de criar novos públicos, mas seleccionar, optar, também o é. E, neste caso, não se chama censura, mas defesa de qualidade. Como em jogos florais, premeia-se o que se distingue, o que toca, o que vale. Sou a favor da educação e cultura poéticas, da divulgação da poesia nacional e concelhia, mais do que nas páginas dos jornais, em encontros, colóquios,colectividades, sessões temáticas. Mas inserindo-a também nos jornais.

Como deste livro de poesia de Matilde Campilho. Vale a pena lê-lo.[1]

Mas há uma realidade indesculpável. O pelouro da cultura camarária não tem, nunca teve, o menor projecto para divulgação da poesia nacional e concelhia. E, quando o faz, não o publicita convenientemente. Percebe-se. Ao contrário das feiras e das festas em anos eleitorais, a poesia não dá votos. É outro mundo. Subterrâneo, mas autêntico. A busca dum rosto, duma resposta, do significado dum silêncio, da palavra que é raiz e pedra e árvore e água, da solidão ou da consciência do outro na partilha e na solidariedade.

Como escreveu a autora de quem falamos, «o nosso tempo é o nosso tempo, há uma bússola nas nossas costas e sobre as nossas cabeças, há um tratado que se deslinda devagar, afinal é tudo tão devagar»[2]. Talvez por isso a arte tenha uma finalidade: durar. Ao contrário da politiquice politiqueira, tão mudável, tão carnívora, tão desumana, tão ignorante, tão efémera.

Chegará o tempo, Madalena Monge, um dia, da poesia no seu lugar mais necessário: dentro de cada um , como razão de vida. Acredite.

antoniomario45@gmail.com


[1] Pode ser lido ou requisitado na Biblioteca Municipal.

[2] Dum poema antologiado em Voo Rasante,antologia de poesia contemporânea, Mariposa Azul, Lisboa 2015.

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