SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 15 Agosto 2020, 17:31

Memorabilia – 2

Folheio um pequeno livro artesanal de doze páginas, de que se fizeram 50 exemplares. Por título, Memórias. Apontamentos fotográficos e poéticos sobre a cidade de Torres Novas, com alguma sensação de que a mudança de escala abrira fendas que apontavam para um novo espaço-tempo imprevisível. Data: Dezembro de 2004. Oferta de Natal para amigos.

Onze fotografias de dramática densidade, autoria de Luís Cavaco. Pano de fundo da mudança urbana em transição, que tentei, através da palavra, interpretar.

De todas, fixo-me nesta, no lado ocidental da Avenida, outrora o pulmão operário de Torres Novas. A vila industrial chegava ao fim. A Néry, o Stal, as oficinas da Rodoviária, um pouco mais ao centro da Avenida, a Central  Telefónica. A rua operária, da Fábrica, que ligava à Fiação e Tecidos, outra ruína, escondendo ruínas de fábricas, mais antigas, que ladeavam o Rio. Perto da ponte do Ral, numa das ruelas laterais, a da Corrente, a oficina do Vítor Réquio. Outras memórias: a ganga, o rumor das vozes, a algazarra da malta do Colégio Andrade Corvo, que deu lugar à sede dos Claras, ao mudar-se para a Quinta de Santo António.

Local de adolescência, da impetuosa fogueira que é a amizade, onde nasceram alguns jornais estudantis, o Corvo, ou o do meu tempo, dos finais da década de cinquenta,O Grasnar do Corvo.

O texto que escrevi para a fotografia. «Viver do passado cansa, que sempre fui um bicho na maçã do futuro. Os lugares, é isso, nódoas na toalha gastas da vida, suja e lavada nos dias que me cabem por destino: a loja de mercearia de família; o café Portugal; o Zé da Ana; o nocturno Valeriano; a malta do meu tempo. Nada disso escava os registos mentais de hoje, zarpou, para sempre, do corpo; foi-se.

O baú da memória: atafulhado, anárquico. Outros caminhos, outras esquinas, outros rostos, tão verídicos e reais como os que, imutáveis, passaram.

Cesariny, no funeral do poeta Al Berto: «uma cidade (Lisboa) que para mim desapareceu há muito tempo». Também, da minha, desconheço-lhe o essencial: a noite. Desencontrei-me com os locais; os rostos; as fábricas; os mercados; os bairros. O quotidiano excomungou a petinga frita, a broa; o tinto; o queijo fresco; o diálogo, através da noite, dos sonhos dum futuro por inventar. Substituiu-o o charro do desemprego e da miséria, a falcatruagem das discotecas.

Registo: tudo muda.

Mas: que artista fez desta cidade a sua obra?

Vale-lhe o tecto verde dos castanheiros da avenida. O rio domesticado, neurótico.

A minha vila era melhor que esta cidade.

Desapareceu: mais nada.»

Fecho o livro. Quebro o fio do labirinto, guardo o silêncio das sílabas ardidas como uma colcha de seda passada de noiva em noiva através de gerações.

É um dia quente. A chapa do sol tomba sobre as casas, a cidade está em festa. Por ela?

Relembro Miguel Torga,  no último tomo, o XVI do seu Diário, pg.51.

«O mundo com vários abcessos prestes a rebentar. Ainda há pouco exultávamos de esperança, e já ninguém tem paz nas almas. É que não há mais tempo de duração. Todas as nossas horas são ofegantes, e cadentes as estrelas anunciadas e anunciadoras. Temos tudo, e falta-nos o essencial. É como se de repente a vida ficasse do avesso e a não soubéssemos vestir».

A minha vila? A minha cidade?

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