SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:51

O Ensino no Concelho de Torres Novas na 2ªmetade do século XIX

1900 -3

A Escola Industrial Vitorino Damásio[1]

O Ministério do Obras Públicas, Comércio e Indústria, cria, pelo decreto de 3 de Janeiro de 1884 (D. G.5, de 7/1), uma escola industrial na Covilhã e oito escolas industriais, as quais, em 9 de Outubro (D.G.234,24/10)receberam as seguintes nomeações: Alcantara – Marquês de Pombal: Xabregas – Afonso Domingues; Belem -Gil Vicente; Caldas da Rainha, Rainha S. Leonor; Torres Novas, Victorino Damazio; Tomar – Jacome Ratton; Portalegre , Fradesso da Silveira; Covilhã, Campos Manoel. Faziam parte da Circunscrição do Sul, tendo como inspector responsável Fonseca Benevides. Da Circunscrição do Norte, criadas nesse mesmo ano, o despacho de 5/12/1884 dá a conhecer igualmente a sua identificação: Vilar – Infante D. Henrique, Gaia, Passos Manoel; Bonfim, Faria Guimarães, Coimbra, Brotero, Guimarães, Francisco da Holanda. Era inspector responsável Silva Leitão.

A 6/5, é publicado pelo M.O.P., (D. G: 103,de 7/5) o regulamento geral das escolas industriais.

O funcionamento da escola de desenho Vitorino Damásio, iniciado nos finais de 1884, ou início de 1885, já foi por nós publicado em artigo neste semanário, dispensando-nos da repetição.[2]Iniciou o seu funcionamento Luís Casimiro Franco[3]. Como professores, mestre Joaquim Teixeira Alvarenga, mestre da oficina de carpintaria[4], e Adolf Hansmann, professor de desenho decorativo,[5]além do primeiro, também professor.

Nas relações da Câmara com a Escola, pouco se revela, a não ser na presença, e nem sempre, dum ou outro vereador, na festa de fim de ano e distribuição de prémios. Luís Casimiro Franco foi o único director conhecido desde o início até ao final, quando, a 4/7/1905, a escola é transferida para a cidade de Lagos (D. G.nº166, 27/7/1905), por nos últimos dois anos não ter frequência escolar considerada desejável para o seu funcionamento.[6]

Mas a escola, pelo menos, entre 1892 e 1897 revela ter uma existência, como se verifica pelo mapa seguinte, e mantém a sua existência estrutural, como se verifica nos anexos de decreto de 24/12/1901.

Datas

Alunos

Exames

Aprovações

1892/1893

69

22

22

1893/1894

73

2

2

18984/1895

45

18

18

1895/96

58

28

28

1896/97

44

MHOP-Inspecção das Escolas Industriais da Circunscrição Sul, NP 1352 –

Nº103 Mapa Vit. Dam.

Os problemas vão surgir com a degradação do edifício, a necessidade de obras, o desinteresse da Câmara no apoio, assim como na estrutura mental da oligarquia reinante, mais interessada na criação dum liceu, que pudesse responder aos interesses dos filhos da média e alta burguesia local, que, no sector masculino, os que podiam, se deslocavam para o liceu de Santarém, ou se ficavam pelo colégio privado criado em 1885, na Casa da Enfermaria, o colégio Valverde, mas que encerrou as portas dois anos depois, pelo menos devido a divergências entre os docentes e o padre de S. Tiago, director responsável, Dr Guilherme Bobbio Porzia.[7]Quanto ao ensino feminino, o colégio Jesus, Maria, José, nas mãos das irmãs Teresinas, sob a orientação da Companhia de Jesus, sito na rua do Salvador, garantia o ensino das meninas de boas famílias dos proprietários e burguesia concelhios.[8]

A hipótese que considero ter levado à diminuição da frequência escolar, além das já referidas, entronca na representação que Câmara fez ao Governo a 4 de Agosto de 1900,que se transcreve:

«Senhor – Possue esta villa uma escola industrial =Escola Industrial Victorino Damazio=estabelecida nos termos do decreto de 3 de Janeiro de 1884. Para facilitar a sua creação, que representava um valioso elemento de progresso para esta terra, a Camara Municipal de então, em 24 de Janeiro de 1984,offereceu para seu estabelecimento as salas que tinham disponiveis em sua casa conhecida pela “Casa do Conde de Torres Novas, no bairro da Cerca d’esta villa e lá foi installada a escola, onde ainda hoje se acha. Á Administração Municipal d’então pequeno prejuízo lhe causava esta cedência, tendo como tinha, casa onde se achavam installadas todas as suas repartições e aquellas a que devia installação; mas as circumstancias mudaram desde a demolição do seu edifício =Paços do Concelho = para alargamento da sua principal praça publica, e actualmente está sobrecarregada com a despesa annual de 150$000 reis, que paga de rendas pela installação das suas repartições e das que por lei lhe exigem casa, tendo ainda, para poder satisfazer a estas exigências, occupada uma casa sua de que não aufere rendimento, que é a casa onde se acham as repartições de Fazenda, Real d’Agua e Recebedoria. Esta situação lhe acarreta, como já tem acarretado, as contrariedades que resultam de não occupar casa sua, nem casa apropriada. Impõe-secomo acto de boa administração o remediar-se este estado de coisas e tanto mais que existe remedio facil e rapido, conciliando o desejo que esta Camara tem, de que aqui se conserve a escola industrial, limita-se elle a que Vossa Magestade consinta na mudança da escola para outra casa, que esta Camara lhe pode fornecer, nas condições de ficar bem installada.

É esta a casa conhecida pela Enfermaria que tem capacidade bastante para esta installação, como o seu passado plenamente o prova, tendo sido, como é sabido, sede de um collegio que teve bem mais frequencia do que a d’esta escola industrial. Esta mudança deixar-nos-ia livre a casa do conde de Torres Novas grande demais para a escola, que apenas occupa uma parte, mas cuja grandeza nos serviria  para magnifica installação de todas as nossas repartições municipaes, administração do concelho, repartição da fazenda, real d’agoa, recebedoria, etc., etc., todas as repartições publicas enfim, cuja reunião tanto beneficia o publico; deixar-nos-ia ainda mais auferir uma renda de casa, actualmente occupada pelas repartições de Fazenda e tudo isto sem que a escola industrial Victorino Damazio deixasse de ter uma muito boa instalação.

A aprovação de Vossa Magestade, dada por intermédio do Ministerio competente – esta mudança de tão importante e imediato resultado é o que esta é o que esta camara mui respeitosamente pede a Vossa Magestade n’esta representação.

E. R. M. -Torres Novas e secretaria da Camara Municipal do Concelho de Torres novas, 4 de Agosto de 1900. O Vice- Presidente José António da Silva.[9]


[1] Muita da informação sobre a escola Vitorino Damásio existente no AHMOP como na Torre do Tombo foi-me fornecida, de forma solidária, pelo historiador de Alcanena, Gabriel Feitor, a quem presto publicamente  o meu profundo agradecimento.

[2] O Ensino no Concelho de Torres Novas na 2ªmetade do século XIX -22, O Almonda,23/6/2014.

[3] A.H.MOP., Lº do Registo de Pessoal, 1884-1894, IECIS, 2. Nomeado por espaço de 2 anos pelo D. G. de 4/12/1884,por despacho do ministro e nessa data colocado na escola de desenho de Torres Novas. Só em 1887, por decreto de 1/9, foi nomeado definitivamente professor de desenho na escola de Torres Novas e em 5/9/1890 nomeado director da Escola Vitorino Nemésio (fls.20)

[4] Idem, ibidem. O registo indica-o até 20/7/1891(fls.21).

[5] Idem, ibidem Contratado em Viena de Áustria, a 18/5/1889.

[6] Decreto de 24/12/1901, art.º 2º, §1 : «As escolas que em três anos de exercício não tiveram em 2 anos sucessivas frequências suficientes, serão suprimidas ou transferidas para outra localidade onde podem ser mais proveitosas».

[7] O Ensino no Concelho de Torres Novas na 2ª metade do século 1XIX,O Almonda, 8/8/2014

[8] Idem, O Almonda, 23/1/2015.

[9] Cop. Ofic., Lº. 300 (1899-1903), 30

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