SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 11:40

O Ensino no Concelho de Torres Novas na 2ª metade do século XIX – 2

1900 -2

Nota Prévia

No último artigo sobre o ensino foi publicado um quadro estatístico que, por falha pessoal, se encontrava totalmente adulterado. Com o nosso pedido de desculpas, publicamos de novo o referido quadro:

Datas

População

Total

População

Masculina

População Feminina

Sabem Ler

Homens     Mulheres

Analfabetos

Homens     Mulheres

1 -1-1878

4,550,699

2.175.829

2,374,870

544.556

254.369

1.631.273

2.120.501

1-12-1890

5.049.729

2.430.339

2.619.390

667.497

381.275

1.762.842

2.238.115

1-12-1900

5.423.132

2.591.600

2.831.532

736.509

425.287

1.855.091

2.406.245

Anuário Estatístico do Reino de Portugal relativo a 1900[1]

Ensino Privado em 1900

No sector privado existia uma escola, conhecida pelo Colégio da Dona Bárbara,[2] para meninas que,em 1886, devida à avançada idade da proprietária[3], por influência do Padre Joaquim Gomes Duque, foi transferido para a  Companhia de Santa Teresa de Jesus, ficando aquela no Colégio até à sua morte.

Em 1889, o administrador do concelho, Dr. Pedro Correia Gorjão, envia o seguinte ofício ao Governador civil:

«Em cumprimento da circular. nº 2 de 7 do corrente, tenha a honra de informar  a V. Exª que existe n’esta villa um collegio, onde se ministra  o ensino a individuos de ambos os sexos, havendo também alguns alumnos internos.

As pessoas que dirigem o collegio e ministram o ensino são senhoras espanholas, que uzam habito e filiadas em congregações religiosas estrangeiras, segundo é voz publica e geral.

Diz-se que uma senhora d’aqui , que estava e está no referido collegio fôra , à pouco , professar a Hespanha.

Neste Collegio havia também uns padres mas parece que ultimamente Sua Eminencia o Cardeal Patriarcha deu ordem para os padres sahirem do Collegio, pelo que adquriram uma casa próxima, aonde um d’elles tem uma aula, em que ensina individuos do sexo masculino.

A casa em que está o colegio e a outra proxima foram adquiridas pelo Padre Francisco Maria Rodrigues d’Oliveira Grainha, da Covilhã, muito conhecido no paiz, que é quem superiormente dirige tudo, mas não reside aqui, onde todavia vem frequentes vezes.

Parece que esta gente, sem descuidar a relação das almas, não dispensa os bens terrestres, pois que n’esta administração existe registado um testamento do fallecido padre Joaquim Gomes Duque, feito a favor do padre Lourenço Gonçalves  Nabais, d’Aldeia da Fonte, do concelho do Sabugal, e na sua falta a D. Ana Monserrate Fito residente no collegio de Fraga, diocese de Viseu. Esta senhora está aqui há muito tempo.

A opinião geral é que esta gente faz parte da Companhia de Jesus.»[4]

Em 11 de Fevereiro de 1899, o administrador solicita à Directora do Colégio de Jesus Maria José  a indicação do número de alunos, de ambos os sexos , que frequentam o ensino primário elementar. Eram, a 5 de Agosto de 1900,professoras, além de D.Josefina Santos, D. Elisa Gomes, D. Maria do Carmo e D.Justina.[5]

Mas em 1901, a 18/3, o administrador, mediante ordens do Governo civil, requer ao delegado de saúde uma vistoria ao colégio, de forma a informar se o mesmo funciona em condições de salubridade e higiene ,e« se as práticas  que nele se executam são prejudiciais ao desenvolvimento físico e moral ou à saúde das pessoas que nele habitam». A 7 de Abril o colégio encontra-se encerrado, como se lê em notícia do jornal O Realista, nº 78, de 7/4/1901.«Já retiraram daqui as beneméritas Irmãs Therezinas que há annos se acham á testa  do excellente collegio de Jesus, Maria, José agora mandado fechar por ordem da auctoridade administrativa do districto. No ex-collegio ficaram, ao que nos consta, só duas religiosas que estão tratando da Srª D. Barbara Balbina Paula Corrêa, octogenaria cega e entrevada, recolhida alli desde a fundação d’aquella casa.».[6]

A 8/4, informa que faz dele parte uma capela com capelão privativo, a qual continua aberta e servida pelo mesmo capelão. «Peço licença para informar a V. Exª que elle me parece prejudicar a execução das ordens que sobre o mesmo collegio V. Exª me deu, sendo meu parecer que para que essas ordens não serem iludidas, ella deveria ser também mandada fechar».[7] O que acontece, a 23 do corrente, «em que mandei intimar o imediato encerramento da capela do Collegio Jesus, Maria ; José a que se referia o ofício de V. Exª de 20 do corrente. A intimação foi feita nas pessoas de D. Josefina Santos…que aqui permanece a titulo de encarregada da referida capela e do reverendo António Vieira, capelão que a serve.»[8]

O poder municipal regenerador não aceitou o encerramento. E apresentou uma representação para a sua reabertura, ao presidente do Conselho.[9] Não se conhecem esses documentos, mas a correspondência posterior mostra que foi deferida a representação e o colégio refundado.

A legislação de 1901 leva a que o colégio que se deseja fundar seja obrigado a nova regulamentação, como se vê do registo de 11/12, dirigido à directora, D. Josefina Júlia Santos, exigindo-lhe «um requerimento pedindo a aprovação dos estatutos por que pretende reger-se o Colégio de Jesus Maria José, assinado por pessoa que para isso tenha competência, que será a mesma que assina os estatutos devidamente aprovados»,[10]o que acontece a 17 desse mês, quando o administrador lhe envia os estatutos devidamente aprovados, devendo pagar de custas 800 réis.[11]

O Colégio sobreviverá até à República, quando encerra definitivamente.


[1] Carvalho, Rómulo de, História do Ensino em Portugal, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 635.

O anuário só foi publicado em 1907.

[2] Corresp. c/ Inspector Primário de Santarém, Lº1503,12/1/1886,nº 2, 1 -O então administrador Dr. Pinto Lopes  envia-lhe o mapa da frequência do colégio relativo ao mês de Dezembro. É a primeira referência que encontrámos em relação ao colégio,o que não significa que não existisse há mais tempo.

[3] D. Bárbara Balbina de Paula Correia, natural do Carvalhal da Aroeira, faleceu em em 1891.

[4] Correspondência com o Governo Civil, 18/1/1889,nº4,15.Veja-se  Artur Gonçalves, Memórias  de Torres Novas , 98/100, onde descreve com certo pormenor  a transformação do colégio da D. Bárbara em colégio de Jesus , Maria , José,  dirigido pelas irmãs teresinas , da Companhia de Santa Teresa de Jesus,xcsem clausura, com sede em Barcelona.

[5] O Imparcial, nº46, 3/8/1900.

[6] O Realista nº 78,7/4/1901.

[7] Corresp. 8/4/1901,Lº 1595,nº 36, 36.

[8] Corresp,23/4/1901.nº 41, 37 v.

[9] O Realista nº79, de 14/4/1901.

[10] Corresp.,11/12, Lº1519,nº 73, 37.

[11] Idem, ibid, 17/12, nº 75, 37v.

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