SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 09:52

O Ensino no Concelho de Torres Novas na 2ª Metade do séc. XIX -22

1885

O Ensino Industrial e Secundário na Vila

O ensino concelhio, no ano de 1885, além do quotidiano, sofre uma mudança importante, com a instalação da escola de desenho industrial em salas do edifício adquirido pela Câmara na rua da Cerca, que pertencera ao Conde de Torres Novas. Tendo sido criado pelo decreto de 3 de Janeiro de 1884[1], surge na legislação, Torres Novas, só em Maio, no Regulamento respectivo[2], no seu art.º 12, que cria as seguintes cadeiras de desenho industrial: uma em Belém, uma no bairro de Alcântara, uma nos subúrbios de Xabregas, uma em Vilar (palácio de Cristal), junto ao museu do Porto, uma na freguesia de Bonfim, uma em Vila Nova de Gaia, Uma em Coimbra, uma nas Caldas da Rainha, uma na Covilhã, uma em Portalegre, uma em Tomar, uma em Guimarães, uma em Torres Novas. Em todas se leccionará o regime do ensino elementar de desenho, o preparatório (desenho simples livre à vista e o complementar (desenho real à vista), e nalgumas o ensino industrial ou especial (1º ornamental; 2º arquitectural; 3º Mecânico). Em Torres Novas, além do ensino elementar, fora criado o 1º (desenho geométrico; desenho de ornato, perspectivas e aguadas, modelação) e o 3º(Desenho geométrico, perspectivas e aguadas, Desenho à vista de máquinas, elaboração dos Cortes, etc)do ensino industrial.

A 13 de Maio de 1884, a Câmara informa o M.O.P. que «tendo sido creada para esta villa uma cadeira de desenho industrial, cumpre-me levar ao conhecimento de V. Ex., em nome da Camara Municipal da minha presidencia, que esta resolveu em sua sessão de 24 de Janeiro proximo passado, offerecer para estabelecimento d’aquella aula um edifício que possue na rua do Conde de Torres Novas»[3].A 9 de Outubro é publicado em decreto  como devem ser  designadas as escolas de desenho industrial da circunscrição do sul, sendo a instalada na sede do concelho denominada de Vitorino Damásio.[4] A 28 de Novembro, a Câmara informa o inspector de desenho industrial de que se apresentou nessa data na secretaria da Câmara o professor de Desenho Industrial,[5]Luís Casimiro Franco. A 5 de Dezembro informa o M.O.P. que a casa destinada para a escola estará disponível, o mais tardar até 15 do corrente.[6]Instala-se provisoriamente, nas instalações despejadas na Praça, da Fazenda e dos Correios e Telégrafos.[7]

Já em 1915, a escola está em funcionamento, como se conclui do ofício seguinte , dirigido è Escola: «Respondendo ao officio de V. Excia , com data de 15 de Janeiro ultimo, cumpre-me informar  a V. Exª  que os livros offerecidos por esta Camara á escola do Desenho Industrial Victorino Damásio, são destinados  para uso dos alumnos da mesma escola, enquanto n’ella estiverem matriculados, devendo  deixal-os quando não o forem».[8] Como se verá, a escola passa um pouco à margem da autarquia, visto que, a um convite do seu director, a Câmara informa não estar presente na cerimónia anual de fim de ano e distribuição de prémios. [9] Tal distanciamento revela-se mais, quando em Setembro, pede informações, por questões de legislação tributária, de qual o ordenado do professor de desenho e do guarda da escola a seu cargo, bem como das datas de nomeação e posse de ambos. Como veremos nos anos seguintes até 1905, data da transferência da dita aula de desenho para Lagos, a autarquia tem muito pouco a ver e raramente se preocupa com o funcionamento da aula de desenho.[10]Não temos elementos sobre o número de alunos, professores, esperando que, no futuro, uma investigação nos arquivos do M.O.P. referentes ao ensino industrial, permita saber do funcionamento e com quem deste estabelecimento de ensino.

No fim do ano a Câmara defere o requerimento seguinte, referente à criação, na casa da Enfermaria, dum Colégio particular, para a preparação de alunos para o ensino secundário, visto que o governo ter ignorado  todos os pedidos e representações para a criação dum liceu na vila.

«Foi presente um requerimento em que o Doctor Guilherme Bobbio Porsia, de Lisboa,[11] José Augusto dos Santos, professor do ensino elementar e complementar, n’esta villa, Pedro Francisco Marsano d’Amorim, primeiro tenente d’artilharia numero dois  estacionado n’esta villa e João Maria Lucio Serra amanuense d’esta secretaria, expondo que há muitos annos se tem feito sentir a falta d’um instituto na sede d’este concelho, que habilite  no Curso d’instrucção secundaria os mancebos que se destinão a um grao d’instrucção mais elevado e que á força de grande dispendio e muitas vezes  com resultados negativos tem que ir estudar  no lyceu d’uma capital de Districto o que podem estudar em casa de seus pais, tinhão combinado estabellecer um Collegio nesta Villa onde se professem todas as disciplinas dos lyceus de segunda classe[12], ficando pelos mesmos constituído o pessoal docente e mais o professor ou professores que, conforma as necessidades o exijão tenhão de ser convidados para regerem as differentes  cadeiras, e que levados pelos melhores desejos e vontade d’introduzir n’esta villa um melhoramento que tanto carece, vem pedir o auxilio e protecção da Camara  para que lhes conceda   gratuitamente para estabelecimento do dito Collegio a casa denominada da Enfermaria e que há muitos annos tem servido de eschola de latim».[13]

Nota – No próximo artigo veremos as transformações do ensino elementar, a cargo da Câmara, no último ano do governo regenerador de Fontes Pereira de Melo.


[1] Legislação, 3/1/1884,M.O.P., D. G. 5, pgs 5. Era ministro António Augusto de Aguiar, sendo assinado também pelo ministro da Fazenda , Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, criando uma escola industrial na Covilhã e oito escolas em várias terras do rei. Não contemplava , então,Torres Novas.

[2] Legislação, 6/5/1884, M.O.P., D. G. 103 de 7/5 – Aprova o regulamento geral das escolas industriais e das escolas de desenho industrial, pgs 127.

[3] C. Of. Nº138, fls 42.

[4] Legislação, 9/10/1884, M.O.P., D.G. 234, 14/10,pgs 433. Torna-se importante o papel do inspector da circunscrição, Francisco da Fonseca Benevides.

[5] C.Of, nº 290,fls71.

[6] C. Of, nº303, fls 72 v.

[7] C. Of., 5/12/1884,nºs 304, e 305, fls 72v.

[8] C.Of. nº46, 5/2/1885, fls. 81.

[9] ;C,Of, Lº 294, nº 299, 14/7/1885,fls 9.

[10] Legislação, 4/7/1905, D. G. nº 166, 27/7/1905.

[11] Pároco encomendado da freguesia de Santiago

[12] Criados em cada capital de distrito.

[13] Actas Camarárias, Lº235, 10/12/1885, fls. 92. Vide também, Gonçalves, Artur, Memórias de Torres Novas, pgs. 96/97.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados