SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:25

Em defesa do Património Concelhio

Em 1978, Joel Serrão despertou em mim o bichinho da investigação da História do Concelho de Torres Novas, que se transformou, até hoje, numa crisálida enquistada no espírito, sem metamorfose, mas viva à tentativa de interpretação no tempo das condições tradicionais da existência. A História nacional ganhava novo fôlego nas Universidades, ultrapassada a via estreita do pensamento único, que condicionava o estudo, a investigação, o debate, a publicação, com a recuperação das obras de Jaime Cortesão, António Sérgio, Vitorino Magalhães Godinho, Joel Serrão, Oliveira Marques, José Tengarrinha, e o aparecimento duma nova plêiade de historiadores cuja raiz original se chamavam José Mattoso, Baquero Moreno, Maria José Pimenta Tavares, Manuel Vilaverde Cabral, António Manuel Hespanha. Miriam Halpern Pereira, Vítor de Sá, Fátima Bonifácio, Luis Torgal. Sei que estou a ser injusto para com outros, mas na minha opinião passa por estes nomes as mudanças da investigação histórica em relação ao passado fascista.

O importante é que eu fui agarrado pelo vírus, e nesse ano de 1978/79, tentei saber o que existia da imprensa do concelho de Torres Novas na Biblioteca Nacional. Havia um tema que me apaixonava e de nada se sabia – a história concelhia da 1ª República. Os arquivos municipais também pouco tinham merecido investigação em relação ao século XIX, apenas de forma superficial e dentro duma concepção historiográfica nacionalista, de Artur Gonçalves, e o século XX era um tabu perfeito. Torres Novas na 1ª República foram o resultado dessa investigação. A partir de então , nunca mais a história do concelho de Torres Novas deixou de fazer parte das minhas preocupações, tendo, até hoje, contribuído para uma melhor divulgação do seu passado.

Os arquivos transformaram-se-me em segunda casa, e, a partir da reforma de professor do Ensino Secundário, num local de trabalho efectivo. Quanto mais pesquisava, mais crescia em mim o quanto pouco se sabia sobre a história concelhia, para além das suas elites – e mesmo essas tratadas de forma superficial. Não havia (como ainda não há) no Arquivo Municipal  qualquer  inventário da documentação concelhia dispersa nos mais diversos arquivos, como o Distrital de Santarém,  Torre do Tombo,  Universidade de Coimbra ,  Diocese de Lisboa,  Seminário de Santarém,  Biblioteca Municipal de Lisboa,  Academia das Ciências, Academia da História, nas sedes das freguesias.

Dentro da escassez de intervenção e desinteresse autárquicos, houve nas últimas décadas um oásis no meio do deserto cultural, chamado departamento editorial da Biblioteca Municipal concelhia. Deve-se-lhe todo um trabalho de divulgação de obras, como a publicação anual da revista Nova Augusta, onde se procuraram difundir os estudos mais recentes sobre os assuntos históricos e sociais, ainda que considere limitativo a sua nula abertura à criatividade literária, estreitando os parâmetros temáticos aos gostos dos seus dirigentes. Falta-lhe, defendi-o sempre, um órgão colectivo de leitura, constituído por cidadãos que se distinguem nos mais diversos campos da cultura, que não esteja dependente dos técnicos do sector, e intervenham de forma activa, na estrutura , selecção e composição da revista.

Recentemente, foi aprovado um regulamento para o arquivo municipal, que contempla não só as regras do seu funcionamento, mas o carácter das doações e depósitos documentais e de bibliotecas privadas. É um avanço, mas não o liberta de ser um arquivo morto.

Dependente da direcção da Biblioteca Municipal, o que não acontece na maioria dos Arquivos Nacionais, cujos objectivos são outros, não tem autonomia, direcção, técnicos especializados, orçamento, equipamentos específicos com iluminação própria, sala de leitura e investigação condigna. E os documentos deterioram-se sem cuidados de tratamento, os livros manuscritos perdem as tintas e tornam-se ilegíveis, as fotografias não são estudadas nem investigadas, o que conduz à perda irreparável dum conhecimento do quotidiano, dos grupos, das pessoas, das profissões, sobre os séculos XVIII ,XIX e XX da antiga vila e concelho. Não há um mapa da vila do século XIX e das mudanças que lhe alteraram a fisionomia, ainda que as descrições das alterações se encontrem nos livros de actas e correspondência da autarquia. Há muito pouco tempo, foi recusado pelo executivo, a aquisição da imprensa digitalizada existente na Biblioteca Nacional, que não chegava a custar, segundo se disse, menos de mil euros, e que é patrimonialmente, uma das fontes mais ricas, totalmente imprescindível, para o estudo do último quartel do século XIX , 1ª Republica e primeira fase da Ditadura Portuguesa.

Nem há, definida, uma política de apoio à investigação e ao investigador, que permita o enriquecimento do espólio documental autárquico.

Quando se entra em fase eleitoral, seria bom que os partidos políticos apresentassem as suas propostas em relação ao sector da cultura, sem ignorar a importância do Património Concelhio.

Voltaremos ao assunto.

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