Home > Colaboradores > Jorge Pinheiro > Apanhado com a mão na massa

Apanhado com a mão na massa

Eu teria aí uns oito anos de idade, estávamos de férias de verão e o meu pai queria à viva força que eu aprendesse a arte de comércio a retalho de mercearia e solas e cabedais e aproveitava essa época para me pedir que estivesse na loja a ajudá-lo, pois dessa forma eu aliviava-o de alguns serviços e apreendia alguma coisa daquela arte.

Devo confessar que sempre me mostrei renitente aos seus pedidos pois gostava muito mais de dormir até ao meio-dia e de brincar com os meus amigos de bairro. Mas eu tinha que obedecer a quem me dava o pão e aceitar a minha aprendizagem do comércio.

Fui algumas vezes buscar café e mercearias diversas ao Machado & Lopes, ao Alves & Duarte, ao Joaquim António da Silva e em especial ao Armazém de Artur Dinis, e dessa forma aprendia o que custava a vida, os preços e os pesos daquele pequeno comércio.

O meu pai mandava-me por vezes fazer as contas dos clientes, cujas parcelas tinha inscrito em folhas de papel pardo, gabando a minha rapidez na execução dessas tarefas. Também me pedia que preenchesse algumas letras comerciais seus aceites, invocando que eu tinha a letra muito bonita e redondinha. E foi aí que eu aprendi a lidar com letras, não imaginando que pelas minhas mãos passassem mais tarde, quando bancário, milhares desses títulos comerciais.

Também já nessa altura me pedia para ir entregar alguma mercearia a alguns clientes que moravam perto e a ir junto dos devedores tentar cobrar os “calotes” antigos e a perder de vista.

Lembro-me de em certa manhã, meu pai me ter dito: “Ficas aqui a tomar conta da loja, que eu vou ali ao Dinis e não me demoro!”.

O diabo tomou conta de mim, que precisava de uns tostões para ir comprar cromos em rebuçados ao Féra, que era uma doença para a rapaziada coleccionar e colocar nas caricas para os jogos.

Abeirei-me da gaveta do dinheiro, abri-a e de lá tirei uma moeda de cinco escudos. Nessa altura ainda não se sonhava com máquinas registadoras.

Só que, quase de imediato o meu pai regressou, não tendo tempo de ir a lado nenhum, pois só me queria por à prova.

Perguntou se tinha havido algum cliente, disse-lhe que não e foi directamente à gaveta, abriu-a, mirou-a, olhou uma e duas vezes para mim e disparou: “Ouve lá, tiraste daqui dinheiro!”.

Tremi que nem varas verdes, disse-lhe que não senhor, que não tinha tirado nada e ele rispostou: “Foi uma moeda de cinco escudos, se quiseres até te digo o ano dela e tudo!”.

Cabisbaixo, lá confessei o meu pecado, mas em vez de me puxar as orelhas o meu pai sorriu, mostrou-me um desenho que fez das moedas e da sua disposição na gaveta antes de sair, e disse: “Não voltes a fazer isto. Se precisares de dinheiro pede, que eu se puder dou-to!”.

Nunca mais esqueci esta lição e nunca mais caí em tocar naquilo que não é meu.

Escrevo esta memória precisamente no dia do Pai, em homenagem a todos os pais do mundo e com um obrigado especial ao meu querido pai.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *