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Realidades da vida passada que estão de volta

De algum modo dando seguimento ao meu artigo publicado neste jornal em 13.01.12, sob o titulo “Realidades da vida passada que podem estar para regressar”, resolvi, neste momento de grave crise, transcrever mais alguns pedaços do meu livro inacabado “Alcanena – década de 50 e 60 do século passado”.

A conquista das 8 horas de trabalho

Naquele tempo já tinha acabado a escravatura do trabalho de sol a sol. O operariado, depois de muita luta, no princípio do século XX, nos primeiros anos da República, já tinha conseguido as 8 horas de trabalho, durante seis dias por semana.

Lembrando estas questões ligadas ao mundo do trabalho, não é por acaso que Alcanena, pequena vila da província, já tinha um Sindicato Nacional, o dos Operários da Indústria de Curtumes, ainda hoje existente, que nesses tempos difíceis muito fez pelos seus sócios.

A crise era grande para a maioria. A indústria, no período após a guerra, por norma só dava três ou quatro dias de trabalho aos homens, que, claro, só recebiam os dias que trabalhavam e eram pagos semanalmente. Mas mesmo assim, em termos laborais, em termos da chamada exploração que continuava a existir, tudo era bem diferente do tempo em que se trabalhava de sol a sol, segundo diziam os mais antigos que já tinham passados pelas duas situações.

Como acima se fala só do trabalho dos homens, quer isso dizer que naquela altura não havia mulheres a trabalhar na indústria de curtumes, certamente porque o trabalho era muito violente e muito sujo.

Não havia férias e muito menos subsídios para as mesmas e pelo Natal também não havia qualquer subsídio. Constava porém que alguns patrões dariam a alguns empregados, algum dinheirito para a melhoria do almoço de Natal. Mas não seriam casos frequentes e nem sequer substanciais.

As Caixas de Previdência, a Assistência e o Socorro aos acidentados

A governação da época, apesar da ditadura reinante, mesmo assim não deixou de importar algumas das políticas na área social que se foram instalando na Europa naquele período após a Guerra. Foram assim criadas as Caixas de Previdência dos Operários e as Caixas Sindicais de Previdência no sentido de acalmarem as hostes e as lutas laborais. Mas no seu início, regalias e pensões de reforma ainda não existiam. Era pura e simplesmente um sistema contributivo e de capitalização. Só anos mais tarde, quando essas Caixas já dispunham de algumas reservas consideradas importantes para a época é que o sistema passou a ser misto, isto é, contributivo e distributivo, tendo começado pela atribuição do abono de família para os descendentes e também para os ascendentes, cujo valor mensal seria de 60$00 por mês e por cada descendente. Os ascendentes teriam 40$00. Mas estes valores só seriam integrais se o trabalhador conseguisse trabalhar e descontar o mês inteiro, caso contrário os valores dos abonos seriam reduzidos proporcionalmente de acordo com os descontos entregues. Entretanto foram criados os subsídios por doença, após o 3º dia de baixa e resumiam-se a 60% do vencimento.

Como estávamos num regime corporativo, também as Caixas de Previdência afinavam por esse diapasão. Era a Caixa dos Metalúrgicos, dos Empregados de Escritório e dos Organismos Corporativos, dos Bancários, da Indústria Têxtil, dos Lanifícios, dos Corticeiros, da Carris, dos Ferroviários, dos Jornalistas, dos Médicos, dos Fósforos, da Marinha Mercante, etc.

No final da década de sessenta, criadas as Caixas Distritais estas foram agrupando todas as actividades, reduzindo-se assim o número de Caixas no sentido de se uniformizarem os benefícios onde existiam algumas diferenças. Estavam todas reunidas no Ministério das Corporações sendo que os benefícios da Saúde derivavam naquela altura da Federação de Caixas de Previdência – Serviços Médico Sociais com sede em Lisboa.

Convém referir que as receitas das Caixas resultavam exclusivamente das contribuições das entidades patronais e dos seus empregados pelo que o Estado, apesar de administrar corporativamente esses dinheiros, nunca comparticipou ou contribuiu para o aumento dessas receitas. Mas era desse “bolo” importante que se faziam investimentos como foram os Postos Clínicos, primeiramente nos grandes centros e depois até na Província, se fomentava a habitação através da famosa Lei 2022 e até o grande edifício na Praça de Londres, o Ministério das Corporações e Previdência Social, que ainda ali se mantém e cujo nome tem variado ao sabor dos anos e dos políticos, também foi construído com dinheiro desse “bolo”.

A Sopa dos Pobres

Os mais idosos e outros mais desfavorecidos pela madrasta da vida, sempre tinham um caldo quente servido pela Sopa dos Pobres, ali em frente ao Hospital. Refira-se que esta obra de assistência, sempre ligada à Igreja, era de uma forma geral apoiada por quem mais podia e era vulgar nessa altura constatarem-se no jornal “O Alviela” os donativos de couves, batatas, azeite, feijão, grão, hortaliças, carne e enchidos, a casca e a lenha para os fogões, e por vezes até algum dinheiro, que simpaticamente eram anunciados em pormenor e agradecidos reconhecidamente naquele jornal.

O Queijo, o Leite e a Farinha que vinham da América

Em ano que não posso precisar, mas seguramente na década de 50, já perto do seu final, os Estados Unidos ofereceram ao Povo de Portugal grandes quantidades de Queijo e Leite em Pó enlatados e ainda farinha de trigo para o fabrico de pão, e em Alcanena também foram recebidas quantidades apreciáveis destes bens alimentares. Foi a Cáritas a entidade que, com a colaboração das paróquias, procedia à sua distribuição pelos mais necessitados. Foi uma ajuda muito útil para os pobres. É certo que a distribuição nem sempre terá sido feita com o rigor que a situação exigia, mas nem por isso se deve deixar de recordar mais este facto que também ilustra a vida de miséria que se vivia naqueles tempos difíceis e muito conturbados. Recorde-se ainda que as embalagens daqueles produtos oferecidos tinham todas, em inglês, o aviso que não podiam ser vendidas nem trocadas. Falava-se que essa recomendação nem sempre teria sido respeitada. Mas isso são contas de outro rosário.

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