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Nos passos de Pedro e Inês (parte 1)

Na história da literatura grassam episódios que representam o que há de mais sublime e elevado na vivência amorosa dos seres humanos. Recriações sublimes de uma paixão infinita, onde os apaixonados selam na união celeste um amor que se revelou demasiado grande para a pequenez e imperfeições da vida terrena. São célebres os pares românticos, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Dafne e Cloé, ou, na nossa memória pátria, a amor trágico vivido por D. Pedro I e Inês de Castro.

Muitos foram os escritores portugueses que se renderam aos encantos e intensidade deste drama amoroso, levando-os a eternizar nas suas obras os momentos cruciais do romance. O grande Fernão Lopes refere, na sua crónica sobre o monarca justiceiro, que ” raramente se encontrou um amor tão grande”.

A paixão entre Pedro e Inês representa a matriz das histórias de amor nacionais, exercendo sobre quem a descobre um fascínio arrebatador. O enredo encontra-se embebido nos verdadeiros ingredientes de uma história de amor: paixão, intriga, tragédia, vingança e loucura. Por outro lado, é o símbolo do amor eterno que vai ao encontro da ânsia universal do homem, ao tentar vencer a morte e recuperar a felicidade junto da sua amada.

A adensar a aura mitológica deste relacionamento amoroso concorrem também os episódios ligados à coroação de Inês de Castro, que aconteceu seis anos depois de ter sido sepultada em Santa Clara, a 7 de Janeiro de 1355, e os actos de crueldade e desvario praticados pelo rei em Santarém, sobre dois dos assassinos da amada.

Crónicas da época dão conta de que Inês de Castro foi transportada de noite em triunfo, “dentro de um caixão muito bem arranjado, trazido por grandes cavaleiros, com acompanhamento de grandes fidalgos e muita outra gente, e donas e donzelas e muita clerezia. Ao longo do caminho havia muitos homens com círios nas mãos, dispostos de tal maneira que sempre o seu corpo caminhou por entre círios acesos”, nas dezassete léguas que separam Coimbra do Mosteiro de Alcobaça, onde jaz num túmulo admiravelmente trabalhado, dentro da igreja, junto à capela-mor. As versões mais exaltadas, relatam um acontecimento fantasmagórico perpetrado pelo rei, ao obrigar os fidalgos a beijarem a carcomida mão da rainha entronizada.

No referido mosteiro podemos visitar o seu túmulo e o de D. Pedro, pés contra pés, esperando pelo toque do juízo final, altura em que ao levantarem-se, ver-se-iam um ao outro antes de tudo o mais, fazendo assim cumprir a inscrição presente na base da rosácea:  A:E:AFIN:DOMÜDO (Aqui espero o fim do Mundo). Uma lenda que forçosamente se consolidou quando, ao serem feitas obras (1957), os túmulos foram colocados na posição que hoje observamos.

Esta paixão intensa encontra-se repleta de muitas peripécias e encontros fugidios. Os dois amantes viveram longos períodos de afastamento, tendo sido, até, Inês de Castro enclausurada no Convento de Santa Clara, porque a ligação não era bem vista pelo rei D. Afonso IV, membros da corte e pelo povo. Mas os enamorados nunca deixaram de contactar, socorrendo-se de toda a espécie de subterfúgios para poderem trocar correspondência. Libertada do seu exílio, Inês de Castro viveu com o rei D. Pedro momentos de grande felicidade em Coimbra, na actual Quinta das Lágrimas, onde tiveram quatro filhos.

Muitos lugares do país presenciaram o encontro entre os dois enamorados. Cidades, vilas e aldeias atribuíram os seus nomes a monumentos, pontes, paços e quintas, honrando com o seu gesto, a passagem e permanência dos amantes.

Nos anos em que Artur Gonçalves esteve radicado na Lourinhã, empreendeu uma pesquisa histórica à volta de dois sítios que falam da presença remota de D. Pedro I e Inês de Castro. Estão situados na freguesia de Moledo, da referida vila.

O rigor e objectividade das descrições fizeram parte, desde muito cedo, do trabalho histórico desenvolvido pelo nosso ilustre conterrâneo. A uma solicitação endereçada por Alberto Pimentel, Artur Gonçalves relata, através de um olhar cirúrgico, os dois lugares onde as marcas deixadas pelos amantes são evidentes. Primeiramente, discorre sobre o denominado Paço de Inês de Castro, em Moledo, patenteando, em algumas linhas da carta a sua verve crítica, face ao atentado e incúria a que esteve sujeito, o desaparecido edifício histórico. Prestemos atenção às suas inéditas palavras: “ É a freguesia de Moledo a mais pequena e hoje, a menos importante, do concelho de Lourinhã, se bem que, dos locais, seja talvez a de maior valor histórico (…).

Foi Moledo um dos lugares desta província que, com a Atouguia da Baleia e Serra d’El-rei, mais predilecção mereceu aos dois últimos monarcas da primeira dinastia (…).

Existiu também no lugar de Moledo um paço régio, de que hoje nem vestígios restam (…).

Nenhum traço existe de tal palácio, a não ser um muro que veda a propriedade e rigorosamente no local onde era a construção, sinais evidentíssimos de ter sido a parede revestida de azulejos. Perto e dentro da cerca que pertencia ao palácio existe ainda uma fonte que era superiormente revestida em idêntico azulejo, mas que vai sendo destruída pelo povo, sempre na crença de encontrar ali um tesouro escondido (…).

As últimas pedras da histórica residência foram dali levadas para construção de uma adega.”

(continua)

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