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Falsificações da História

Há um mês atrás, a comunidade científica foi perturbada por um pequeno fragmento de um papiro do século IV que, pretensamente, apresenta novos dados sobre a vida terrena de Jesus Cristo. Revelado pela professora Karen King, da Universidade de Havard Divinity School, encontramos na fotografia do supracitado documento o seguinte excerto em copta: “ Jesus disse-lhe: a minha mulher (…) poderá ser minha discípula”. A serem verdadeiras estas palavras, Jesus Cristo teria casado, o que reacende a velha polémica sobre o celibato dos padres católicos. Um problema que aguarda dados novos sobre a autenticidade do papiro.

Na nossa humilde perspectiva a resposta não deve ficar cingida ao facto de Jesus ter ou não ter contraído matrimónio. O mistério do “chamamento divino” para o exercício do sacerdócio envolve uma complexidade que está para além do mero compromisso civil. Esta é uma das razões que leva a igreja a não embandeirar pelo casamento dos padres, apesar de os seus defensores (até alguns clérigos) olharem a medida como uma lufada de ar fresco na rígida estrutura eclesiástica.

De momento, acompanhamos com alguma curiosidade as investigações e os debates, por parte dos especialistas, em torno do referido papiro, do tamanho de um cartão-de-visita. Julgamos que o final da contenda, traduzir-se-á na colocação do texto na vasta fileira de documentos apócrifos forjados – domínio em que a História é um campo fértil. Uma infeliz experiência várias vezes registada no trabalho de historiadores de renome, que viram algumas das suas narrativas históricas abaladas por se basearem em documentos inautênticos, compilados por falsos cronistas.

Um desses casos aconteceu com Artur Gonçalves, no seu livro “Mosaico Torrejano”, publicado no ano de 1936, ao mencionar e invocar, por duas vezes, em apoio das suas ideias, o historiador Flavio Lucio Dextro. Ora, o referido autor nunca existiu. Os seus textos, cheios de anacronismos, falsidades e suposições, na realidade foram inventados pelo jesuíta Jerónimo Roman de la Higuera (1538-1611), para armadilhar a investigação dos futuros historiadores. Convicto da autenticidade das obras de Flávio Dextro, Artur Gonçalves cita-o numa passagem do capítulo VI, intitulado “Memórias da Lusitânia”, página 104: “ Em Concórdia, cidade antiga da Lusitânia (hoje Beselga na comarca de Torres Novas), passou a melhor vida o famoso Paulo presbítero, chamado Concordiense, da pátria onde nasceu. Foi varão igualmente santo e douto.

O grande padre S. Jerónimo se correspondia com ele (1) e lhe dedicou a vida de S. Paulo (..)”

Em nota de rodapé, o ilustre torrejano sustenta o último parágrafo com base nos textos do ilusório Flavio Dexter, alertando-nos que nº IV do presente capítulo iria, “mais circunstanciadamente”, fazer referência ao autor.

Algumas folhas depois, na página 113, socorre-se do pseudo-cronista para falar de S. Donato e dos seus companheiros: “Todos eles naturais de Concórdia foram martirizados imperando Antonino, o Pio, no ano de 145, segundo se vê a pág. 27 do Fragmentum Chronici, Sive Omnimodae Historiae Flavii Lucii Dextri Barcinonensis:

«Anni Christi 145 – Concordiae in Lusitania (quae nunc Besulci dicitur) Sancti Christi martyres Donatus et socii ejus etiam passi».

Os primeiros pois a sofrer o glorioso martírio foram S. Donato e seus 86 companheiros e a seguir S. Secudino ou Secundiano, S. Rómulo, Santo Estevão e Santa Catarina…”

Estamos em presença de um lapso (o testemunho de Flavio Dexter) que mancha o texto de Artur Gonçalves, no referido capítulo do livro “Mosaico Torrejano”, já que os ilusórios martírios de S. Donato e amigos aparecem com roupagens de autênticos factos. Mas os erros do ilustre torrejano não foram realizados de forma premeditada, como acontece em muitas publicações recentes, que tentam fazer história sobre mentiras claramente desmascaradas. Vejam-se os casos do célebre romance de Dan Brown, “O Código Da Vinci”, ou de alguns dos best-sellers actuais da nossa literatura histórica e religiosa caseira. O engano de Artur Gonçalves resultou de uma pequena lacuna: desconhecer os autores que desmascararam, por detrás do imaginário Flávio Dextro, a urdidura mistificadora de Jerónimo la Higuera.

A construção da História nunca foi um assunto que envolvesse o pleno consenso entre todos os seus investigadores. E, quando tentamos abordar eras longínquas, muito mais difícil se torna o empreendimento. À medida que recuamos no tempo a verdade histórica esconde-se sob um manto, onde a fantasia e o real se misturam, deixando nas mãos do historiador um labirinto de enigmas que exigem uma redobrada atenção e um pequeno laivo de sorte. Foi o que não teve Artur Gonçalves nas páginas do mencionado capítulo, apesar da evidente honestidade com que encarava o ofício de historiador.

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