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Via Cineclube, Alemanha com ou sem Merkel

Há já algum tempo, entristeceu-nos ler que o Cineclube de Torres Novas tinha deixado de mostrar filmes no Teatro Virgínia. Quiçá para reduzir as despesas. Não há disponibilidade financeira para A, mas há sempre para B. Andam por aí personagens que aterraram em Torres Novas, saltaram para um posto mais chorudo na capital e, com a derrota do “engenheiro”, retornaram ao ponto de partida. Questão de tachos partidários. Como não são da terra, até somo levados a crer que possuem lugar garantido à mesa orçamental. Conivências entre parceiros de loja? Contos e contas por explicar. Cada um que interprete como entender. Mesmo entre as linhas, como se fazia no tempo do outro Botas. Que, esse, era Doutor por extenso e Professor catedrático.

Lembramos o trabalho notável que o Cineclube vem efectuando há décadas na cidade e no concelho. Disso podemos dar testemunho. Como milhares de conterrâneos, devemos-lhe parte da nossa educação. Preencheu uma lacuna. É uma divida por saldar.

Com efeito, foi nas sessões da referida associação que descobrimos outras cinematografias, inclusive a alemã. Entre outros filmes, recordamos “Die Brücke” (A ponte). Uma película sem grande qualidade estética ou narrativa, mas que nos fez pensar. Tratava dos dilemas de um grupo de estudantes liceais, mobilizados para defender uma ponte a poucas semanas do fim da guerra. Tal como alguns colegas do colégio, tínhamos lido a obra de Manfred Gregor. Os jovens dessa época identificavam-se com aqueles adolescentes da Baviera: Albert, Walter, Hans, Klaus, Karl, Sigi  e Jürgen. Estas vinhetas da hecatombe nazi serviram de introdução ao que viria a transformar-se no “Wirtschaftswunder” (milagre económico) de Konrad Adenauer. Ainda hoje conservamos o livro, numa arrecadação em Portugal.

Estávamos a passar os olhos pelo “Público” de sábado (20.10.2012), quando deparámos com uma carta de Raul Fernandes sobre a aversão que um sector da população portuguesa sente para com tudo o que é germânico. Diz ele que “só há pouco tempo, convivemos com os países mais industrializados da Europa com quem nos gostaríamos de igualar a nível de bem-estar. É evidente que não possuímos no trabalho a disciplina, a organização, a pontualidade, a perseverança, a concentração, tudo qualidades de suecos e alemães, por exemplo. Distinguimo-nos dos povos do Norte da Europa, que não têm decerto algumas das nossas qualidades. Somos, contudo, obrigados a aceitar que as características deles são um trunfo na construção de uma sociedade moderna”.

A falência lusitana, da qual também são inequivocamente responsáveis alguns políticos da casa, não ocorreu por eles terem colaborado na divulgação de cinema de qualidade. Tampouco terá sido por causa das despesas no sector da cultura. Ah! Como é fácil culpar os europeus do norte. E igualmente Angela Merkel.

Não é que estejamos contra tudo o que muitos portugueses dizem em relação à Alemanha. Cremos que a população atingiu o limiar do suportável e começou a acusar quem tenta defender os interesses do eleitorado. Que em Portugal a vida está a ficar mais incerta, tornou-se uma verdade do Senhor de La Palisse.  E, como nas velhas catilinárias de Cícero, perguntamos: “Até quando vão abusar da nossa paciência?”

Assim se explica a “Angst” (angústia, depressão, ansiedade, medo) dos portugueses. Este termo alemão está relacionado com o adjectivo “angustus” que, em latim, significa “estreito, apertado, restringido”. E, se a memória não atraiçoa, foi numa aula de filosofia, no Colégio Andrade Corvo, que o Padre Miranda utilizou este vocábulo para nos explicar as teorias de Freud, Jung e Heidegger. Assenta como uma luva para descrever o presente estado de espírito dos nossos compatriotas.

Mais tarde, descobrimos outros pensadores e começámos a gostar do cinema germânico. Chegámos a Rainer Werner Fassbinder, após a leitura de “Berlin Alexanderplatz” de Alfred Döblin, como explicámos num apontamento publicado em Janeiro 2010, neste semanário. E continuamos a rever com prazer as obras de Volker Schlöndorff, Werner Herzog e Wim Wenders.

Antes, a cultura germânica tinha-se fortalecido com o progresso da língua via Lutero, Goethe e Schiller, mas também com os filósofos Kant e Hegel. São numerosos os autores de língua alemã galardoados com o Prémio Nobel de literatura: Mommsen, Eucken, von Heyse, Hauptmann, Mann, Hesse, Sachs, Böll, Grass e Müller. Contudo, esta civilização não seria tão brilhante sem músicos de elevada craveira, dos quais apenas mencionamos os colossais Bach, Mozart e Beethoven.

Em fins dos anos vinte, a Alemanha já era um país industrializado e com inúmeras inovações tecnológicas. Com uma burguesia que foi proletarizada devido à crise financeira, comunicação de massas e um desmesurado problema de identidade, emerge então uma produção intelectual de alto teor.

A segunda guerra mundial e o nacional-socialismo mostraram como a serpente do mal pode existir no seio das grandes civilizações. No entanto, seria leviano condenar um povo inteiro por ter tido o azar de ser governado por um partido sanguinário chefiado por um psicopata. Durante o Terceiro Reich, como noutras ditaduras, houve sempre quem resistisse. Estamos a pensar, sobretudo, nos escritores Bertold Brecht, Peter Weiss e Heinrich Böll.

Temos os ouvidos cheios de piadas, críticas e ignorâncias sobre a Alemanha e os alemães. E foi na página 44, do “Público” acima mencionado, que lemos uma reflexão inteligente a propósito do país de Frau Merkel. Vasco Pulido Valente concluía a crónica desse dia com as seguintes palavras: “A Europa que aí vem será a Europa que a Alemanha quiser, como quiser e quando quiser. As coisas são o que são.”

Ao mesmo tempo que redigimos estes parágrafos, estamos a ouvir Dietrich Fischer-Dieskau em “Das Lied von der Erde” (O canto da terra) de Gustav Mahler. E não resistimos à tentação de comparar algumas pimbalhadas com os “lieder” de Mahler e Schubert.

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