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Um quadro de José Malhoa no Museu Carlos Reis

Um museu é o lugar privilegiado para observarmos algumas das obras superiores do espírito humano. Cada quadro, escultura ou artefacto encontram-se impregnados da alma do artista revelando o seu mundo e a sua maneira de sentir. Ao analisarmos as cores, formas e profundidade do objecto artístico, damos conta dessa realidade invisível que o artista tentou fixar. Dificilmente podemos conceber a existência humana sem a arte. Quanto mais consciente o homem se torna de si próprio, mais se dá conta do caráter insubstituível e único da realidade artística.

Mas, nem todos os indivíduos estão despertos para as aspirações elevadas do espírito. Apesar de ser uma dimensão intrínseca ao homem, se não a cultivarmos, estamos sujeitos a perder essa capacidade superior, sem nunca ter tido a satisfação de nutrir o espírito com o seu verdadeiro alimento. O que nos reduziria à condição de simples animais, imersos num mundo de prazeres limitados e inferiores.

É de importância vital fazer crescer nas crianças e jovens o amor às coisas belas, para que na adultez possam ser felizes, conscientes e sensíveis. A tarefa passa por habituá-los a frequentar museus, bibliotecas, teatros e salas de espectáculo. Locais vocacionados para o encontro e familiarização com as grandes realizações artísticas e espirituais do ser humano.

Em Torres Novas, um desses santuários de “alimento do espírito” dá pelo nome de Museu Carlos Reis. Quem o visitar encontra diversas obras que “falam” da vida e das gentes da nossa terra. Desde os tempos da pré-história até ao século XX. A estatuária e a pintura sacra – situadas no piso inferior- apresentam um dos conjuntos de peças mais importantes do museu. São objectos profundamente belos, dando sentido à ideia da espiritualidade na arte. Pinturas etéreas e divinas, casos da “Adoração dos Pastores”, “São Cosme e São Damião” e do “ Retábulo de São Mateus”. Esculturas em que, pelas mãos dos artistas, o sagrado vive e se manifesta. Imagens como a da “Santa Ana e a Virgem”, “Nossa Senhora do Ó” e “São José”, convidam-nos à meditação e ao apaziguamento da alma.

Ao percorrermos o sector principal do edifício deparamos com duas salas onde se encontram expostas várias obras, do pintor torrejano, Carlos Reis. Um verdadeiro deleite para os nossos olhos que, através da paleta milagrosa do mestre, captam a alegria do povo rústico e a deslumbrante paisagem. São exemplos desta festa da cor e da luz, os quadros: “ Castanheiro Gigante”, “O Primeiro Filho”, “Saúde aos Noivos”, “Raios de Sol Ardente”, “No Caminho da Fonte”.

Diluído no conjunto das obras do mestre torrejano encontra-se um quadro da autoria de um dos maiores artistas portugueses. O pintor que melhor perscrutou a alma nacional, José Malhoa. A maior parte dos portugueses já viu em reproduções os seus célebres quadros, “Os Bêbados” ou “O Fado”. Telas onde está presente o lado sombrio da alma portuguesa, carregada de melancolia, como a canção que serve de inspiração ao título do último quadro. Numa e noutra tela é a penumbra do interior que domina, aprisionando as personagens. Na primeira, sob os efeitos adormecentes do vinho e, na outra, aos queixumes do fado. À parte destas duas obras, a pintura de Malhoa respira vida, alegria e ternura. O mestre tinha como ambição deixar nos seus quadros o sol e a luz de Portugal. Por isso a sua pintura extravasa de optimismo sadio, exercendo sobre quem a vê um poder de atracção, simpatia e fascínio. Para José Malhoa a pintura foi o seu mundo, a sua maneira de existir. Viver para ele era sinónimo de pintar.

O quadro a óleo sobre tela do mestre, nascido nas Caldas da Rainha, que pretendemos direccionar a atenção do visitante desprevenido, retrata o ilustre torrejano, Sebastião Dantas Baracho. A pintura de José Malhoa apresenta o general (na altura, em 1889, com a patente de tenente coronel) numa pose elegante e austera. A carnação macerada do rosto – onde sobressai o olhar penetrante e seguro do general-, transmite a nobreza de carácter e independência que acompanharam a vida deste ilustre torrejano. Só um pintor dotado de um enorme poder de visão conseguiria fixar na tela de forma aguda e perspicaz os traços psicológicos da personalidade do seu modelo.

Outra das características da pintura de Malhoa, presente no quadro, é-nos revelada através da indiferenciação entre a figura do general e o fundo que a sustenta. Este pormenor centraliza a nossa acuidade visual sobre o ilustre torrejano. Atentemos os nossos olhos sobre as mãos de Dantas Baracho. Poucos foram os artistas que conseguiram pintá-las com tão grande mestria. Também os acessórios presentes no quadro são tratados de forma delicada, mostrando o gosto do mestre pelo requinte. As tonalidades da tela aproximam a pintura de Malhoa dos grandes retratistas holandeses e espanhóis do século XVII.

Vale a pena debruçar o nosso olhar pelas cores, formas e profundidade do quadro de José Malhoa, para podermos sentir a força mágica da sua visão e paleta. Para o fazer, basta apenas uma simples ida ao museu da cidade.

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