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Nova Inglaterra, velha América

Com o verão a chegar ao fim, a época estival passou depressa. Como ensinámos uma cadeira desde os meados de junho até princípios de agosto, quase não tivemos tempo para recuperar. É assim a vida!

Como tantos outros seres humanos, é sempre com prazer que antecipamos uns dias de repouso. Um ano de ensino e investigação, a miríade de responsabilidades administrativas e a orientação de teses desgastam qualquer pessoa. Uma temporada de descanso é tão indispensável para o equilíbrio mental como o oxigénio para a subsistência do corpo.

Para restaurar energias, é preciso desligar o botão do piloto automático. Claro que isto é mais fácil de dizer do que de fazer. Como bem sabemos, são necessários uns dias para que desapareça a confusão da cabeça e se relaxe o espírito. Sair da rotina quotidiana constitui um perfeito remédio para o stress das obrigações profissionais. É saudável deixar de olhar para o ecrã do computador ou esquecer as reuniões de trabalho.

Ar fresco, luminosidade oceânica, bicicletas confortáveis servem de bálsamo para os desafios do resto do ano. Regressamos aos extensos verões da infância, quando se brincava durante todo o dia. E, nessa longínqua memória, as aulas apenas recomeçavam em outubro.

Mantivemos a tradição de dar um salto até à costa leste. Não só pela atração do mar, mas também para visitar amigos. É um grande privilégio poder desfrutar de umas miniférias em boa companhia e em sítio aprazível.

Andámos de bicicleta e fizemos longas passeatas a pé. Desta vez, além da habitual estadia no Cabo do Bacalhau, fomos percorrer de novo alguns lugares do nordeste americano. Com efeito, partilhamos com Proust que “le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages mais à avoir de nouveaux yeux” (a verdadeira viagem de descoberta não está na busca de novas paisagens, mas em ver com outros olhos).

A Nova Inglaterra é um dos rincões do continente mais visitados por turistas europeus. Trata-se de uma das regiões onde nasceram os Estados Unidos, aqui marcadamente WASP (brancos, anglo-saxónicos e protestantes). Talvez devido aos 102 “peregrinos” do navio “Mayflower” terem  aportado, em 1620, perto de Boston.

Será essa a eventual explicação para o fato do sonho americano ainda sobreviver intacto nestas paragens. “Viver livre ou morrer” é mais do que uma divisa, é a maneira de ser e de estrar numa sociedade plena de vitalidade, onde a palavra liberdade ainda tem algum significado. Damos um exemplo. No que toca ao relacionamento com os governantes, quando não desempenham cabalmente as tarefas para que foram eleitos são forçados a mudar de vida. Desde o período colonial que a maioria dos políticos estão na política para servirem a comunidade.

No entanto, a Nova Inglaterra não é apenas o Massachusetts. Os estados de Rhode Island, Connecticut, Vermont, New Hampshire e Maine também estão abrangidos por esta designação.

E é a propósito do Maine que escreveremos hoje, pois resolvemos revisitar o sul deste estado para ir a Portland. Queríamos rever a casa do poeta Henry W. Longfellow (1807-1882) e a impressionante colecção de pinturas de Winslow Homer, Andrew Wyeth e Edward Hopper, a que se acrescentam alguns quadros de Van Gogh, Gaugin e Picasso, no museu da cidade. Contudo, a razão principal talvez estivesse associada à prova dos célebres lavagantes que por aqui abundam. Igualmente famosos são os mirtilos selvagens, com os quais são confeccionados os deliciosos “blueberry pies” (tartes de mirtilos).

No regresso a Portsmouth (New Hampshire), tivemos a oportunidade de parar em Kennebunkport para admirar casonas milionárias à borda do mar, em particular a da família Bush at Walker’s Point. Lamentamos não ter tido mais tempo, pois ficámos impressionados com as magníficas ciclovias e a generosa dose de tranquilidade que existe nas redondezas.

Num futuro próximo, gostaríamos de organizar a nossa agenda de forma a poder observar um “town meeting”, onde tudo se discute sem rodeios e os autarcas apresentam contas aos eleitores. É o chamado democratismo participativo. Se a Grécia clássica é o berço da democracia, estamos convencidos que foi a Nova Inglaterra que a aperfeiçoou.

Se não estamos em erro, foi na década de sessenta que lemos numa obra de Érico Veríssimo (“Gato Preto em Campo de Neve”) o que este autor gaúcho considerava serem os atributos essenciais dos compatriotas do Tio Sam: a autonomia individual e a filosofia do “live-and- let- live”. Neste domínio, nada mudou na velha América.

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