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A estrela cadente do renascimento Torrejano (parte 4)

Os anos vividos por Luísa Sigeia na corte portuguesa não foram muito felizes. Numa carta escrita a seu cunhado, Alonso de Cuevas, lamenta-se da ingratidão dos príncipes, referindo os treze anos de “dedicada servidão” e da fraca generosidade recebida pelo empenho e saber colocados no duro encargo de ser mestra da infanta.

Ao abandonar o nosso país, foi viver para Burgos com o seu esposo. No ano de 1558, em Valladolid, após várias solicitações endereçadas à rainha da Hungria, D. Maria de Habsburgo, entra ao seu serviço. Passa a exercer o cargo de “dama latina” enquanto o seu marido, Francisco Cuevas, assumiu a função de secretário particular. A tranquilidade do casal durou escassos meses. Nesse mesmo ano morre inesperadamente a irmã de Carlos V, deixando-os com uma fraca renda. A Luísa Sigeia foi-lhe atribuída uma pensão anual de 56.250 maravedis e ao seu esposo, um pouco mais, a quantia anual de 93.750 maravedis. Um montante que não os salvaguardaria da pobreza.

Um mar de contrariedades abate-se sobre o casal. Sem emprego, escreve em 1559 ao rei de Espanha, Filipe II, oferecendo-se para fazer parte do grupo de damas ao serviço da sua esposa, Isabelle de Valois. Na carta relata momentos importantes da sua vida, incluindo o tempo passado na corte da D. Maria da Hungria, e do pouco dinheiro que tem para que possa regressar à cidade onde nascera com honra. Do monarca não obteve qualquer resposta. No início de 1560, em Toledo, solicita ao Bispo de Limoges, Sebastien de L’Aubespine, que interceda junto da rainha, para conseguir o tão desejado emprego. A esposa de Filipe II, Isabelle de Valois, recebe-a mas fecha-lhe as portas de entrada na corte régia. Desapontada com aqueles que a deveriam proteger da adversidade regressa a Burgos. Uma profunda tristeza vai acompanhar os seus últimos dias de vida. Em Setembro de 1560, confessa a Juan de Avellaneda a sua falta de gosto pelo estudo e desânimo. No dia 13 de Outubro desse ano, o espírito e saber que habitavam no seu frágil corpo abandonaram-na. Numa idade em que a árvore da sabedoria começa a dar os seus mais preciosos frutos.

A sua morte teve enormes repercussões no universo cultural do seu tempo. Vários humanistas elogiaram o seu saber e virtude, e lamentaram-se pela tragédia que representou para o mundo das letras o seu prematuro desaparecimento. Também Francisco Cuevas quis prestar o apreço que tinha pela sua esposa, Luísa Sigeia, ao inscrever na pedra tumular um epitáfio, onde lembra a enorme erudição da grande dama latina e, principalmente, a sua castidade e inocência.

Entre todas as homenagens dedicadas a Luísa Sigeia, gostaríamos de transcrever uma, que pela concisão e simplicidade lapidar das palavras, melhor reflecte a nobreza de carácter da ilustre torrejana. Pertence ao grande humanista português, André de Resende, e diz o seguinte: “ Aqui jaz Sigeia; isto basta; quem ignora o mais, quem necessita de explicações, é bárbaro, nem cultiva as belas letras.”

Mas, a incompreensão e dificuldades que transportou ao longo da vida, prolongaram-se depois da sua morte, agora trajada com as vestes da infâmia. No fatídico ano da sua morte, foi publicada uma obra obscena, que um autor francês de nome Nicolas Chorier, dizia ser de Luísa Sigeia. Traduzida em latim por um imaginário Joannes Mersius, com o título “Aloysiae Sigeae Toletanae satyra sotádica de arcanis Amoris et Veneris”. Um documento apócrifo (não autêntico) que não encaixam na reputação de honestidade e pureza de costumes presentes nas acções e vivências da ilustre torrejana.

Num século marcado pela procura da luz do conhecimento, a alma errante (Wanderer) de Luísa Sigeia pairou como uma estrela cadente com o propósito de desvelar o mistério e a opacidade que enfrentam os indivíduos enquanto parcelas de um infinito cada vez mais ausente.

Ela foi a viandante estrangeira para quem «o céu, que se estende até ao infinito, é a pátria querida.»

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