Home > Colaboradores > Vítor Antunes > A estrela cadente do renascimento Torrejano (parte 2)

A estrela cadente do renascimento Torrejano (parte 2)

Fazendo uso de uma enorme erudição, em 1540, endereçou ao papa, Paulo III, uma missiva num perfeito latim, a que mais tarde juntou a epístola quosdam ingenioli mei flosculos, que quer dizer, “algumas florinhas do meu jovem talento”. Manteve com a principal figura da igreja uma significativa correspondência tornando-se conhecida entre sábios e príncipes. Em 1542, a fama leva a que seu pai fosse “convidado” a enviá-la, com a irmã, Ângela Sigeia, para a corte da rainha D. Catarina, como moças de câmara. No palácio real, tem ao seu dispor uma vasta e preciosa biblioteca. A intensa leitura e estudo dos autores clássicos vão, paulatinamente, desenvolvendo os seus extraordinários dotes culturais e intelectuais, despertando a admiração de todos. Mais tarde, integra o leque das damas que serviram a Infanta, D. Maria. Luísa Sigeia e Joana Vaz, dedicavam-se às letras, as “damas latinas”. A sua irmã, Ângela, e Paula Vicente, filha do dramaturgo, Gil Vicente, tinham como tarefa as artes da música.

Das missivas escritas para o papa, Paulo III, destaca-se a que foi composta, em 1546, utilizando cinco línguas (latim, grego, hebraico, árabe e siríaco), acompanhada do seu célebre poema Syntra, elaborado num distinto latim, digno dos grandes poetas clássicos, descrevendo as belezas naturais da serra e vila de Sintra. O Sumo Pontífice, em carta datada de seis de Janeiro de 1547, maravilhado com os dons de Luísa Sigeia, respondeu-lhe louvando o extraordinário talento «que poucas vezes se encontra em homens quanto mais em mulheres». Ressalta no poema a descrição de uma natureza aprazível e inspiradora, povoada de seres mitológicos, onde a poetisa procura, ao interpelar a Ninfa (Mercúrio disfarçado), respostas sobre o futuro da Infanta de Portugal, D. Maria, filha do rei D. Manuel I. Há nos seus versos pormenores sensoriais – de sons, cores e cheiros da natureza – que os tumultos do quotidiano apagaram da nossa memória. Coloquemos à apreciação do caro leitor algumas dessas passagens:

«Junto às praias do ocidente, onde o

sol, ao aproximar-se a noite, já demanda o

oceano, e levado no seu carro ebúrneo, (…)fica

um lugar, onde um vale ameno, por entre

rochedos que se elevam até aos céus, se

recurva em graciosos outeiros, por entre os

quais se sente o murmurar da água.

(…) Aqui se encontram em grande, o choupo,

a aveleira, a faia, a pereira, a cerejeira, a

ameixieira, os castanheiros, e inúmeras

outras árvores que dão alimento aos felizes

mortais, tudo dádiva dos Deuses do céu.

(…) Ressoam os bosques com os gorjeios do

rouxinol, geme a rola, e a pomba, e fazem ali

seus ninhos todas as aves que voam pelo

espaço, no meio de um chilrear

ensurdecedor.

Nos prados florescem as odoríferas

rosas, os lírios, as violetas, o fragante

tomilho, a hortelã, o alecrim, o narciso, o

poejo bravo, a videira sagrada, e muitas

outras flores, ervas e arbustos que a terra

fertilíssima produz, nos vales e nas selvas,

com que a cada passo  (…) corre a água

cristalina com brando murmúrio pelo meio

do vale sombrio, por entre enormes rochedos, e

nos pequenos lagos que ela forma,

costumam vir banhar-se as formosas Ninfas,

ao romper da aurora, ou mesmo ainda

quando a noite tem o seu manto estendido

pela serra (…).»

É uma idílica Sintra que encontramos retratada nestes versos. Fonte de mistério e local paradisíaco; lugar onde o homem se reconcilia com os traços originais da sua natureza. A “Cintra’s glorious Éden”, como refere o poeta inglês, Lord Byron, no seu belo poema, Childe Harold’s Pilgrimage.

O padre, Inácio da Piedade e Vasconcelos, na História de Santarém Edificada, Lisboa, 1740, afirma ter visto em casa do terceiro neto de Ângela, João de Melo Carrilho Velasco, em Torres Novas, um retrato de Luísa Sigeia «com a notícia de uma honrada carta, gravada toda de especiais laudatórias que lhe mandou o papa Paulo III, envolta com muitas graças de Indulgências (…)». Trata-se da citada epístola, que, pelos vistos, estava inscrita no retrato da minerva torrejana. Este retrato e o de sua irmã, Ângela Sigeia, (descrito pelo padre António Carvalho da Costa, na Corografia Portuguesa, publicada em 1712) não chegaram até nós, nem mesmo os escritos de Ângela que se encontravam na casa de Torres Novas.

(continua)

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook