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Virgínia da Silva: a actriz da voz de ouro (parte 4)

Virgínia da Silva, a mais portuguesa de todas as nossas actrizes, era dotada de uma voz inexcedível, cinzelada no mais perfeito cristal e nobre ouro. Esta impressão é relatada pelos que tiveram o privilégio de a verem e ouvirem no palco. Caso de Artur Gonçalves, que no artigo panegírico escrito no jornal O Almonda em honra da actriz Virgínia,  corrobora estas palavras: «A crítica do seu supremo valor artístico está feita no apreço que em vida lhe tributaram todos (…) pelo timbre melodioso de sua voz de oiro, única, inigualável, docemente sonorosa como um fio de pérolas tintinando em taça de cristal.»

Colocava na sua voz a intensidade necessária. Nada de excessos desnecessários que pudessem prolongar o espanto e sofrimento do espectador. O riso e o choro inscrito nas suas personagens adquiriam o incomparável cunho de autenticidade. Era uma artista para todas as plateias, para todos os corações e inteligências.

A grandeza do seu carácter não se limitava ao espaço cénico dos palcos. As suas virtudes humanas, plenas de ternura e bondade, levavam a que estivesse frequentemente associada a obras sociais e espectáculos para fins de caridade.

Em Dezembro de 1919, A Associação Protectora da Infância, atribuiu-lhe o diploma de sócia benemérita. Mas para Virgínia o que verdadeiramente importava era ajudar os outros sem esperar qualquer tipo de retribuição. Algumas vezes esse auxílio recaía sobre colegas de ofício: foi ela quem apoiou a actriz Emília Cândida, que se encontrava cega e numa situação de extrema pobreza.

O desgaste provocado por uma intensa vida artística e a doença que a ia consumindo obrigou-a a que se retirasse dos palcos. A sua récita de despedida aconteceu no seu querido teatro D. Maria II, lugar onde comungou com o público e colegas enormes êxitos e alegrias. Foi a 25 de Maio de 1906, com a peça O Marquez de Villemer, comédia em quatro actos de George Sand, no papel de Carolina de Saint Geneix. O programa, na sua primeira página, intitula a actriz Virgínia com os termos de eminente e inolvidável.

A partir desta data, reformou-se com uma modesta pensão. Ocasionalmente aparecia nos palcos do teatro ou em récitas com o propósito de ajudar a minorar as dificuldades dos outros. Tarefa em que colocou toda a sua inesgotável compaixão humana.

Mas alguns contratempos vão surgindo na vida da alma generosa e santa da actriz Virgínia. Sucedem o divórcio do actor Ferreira da Silva e o progressivo resvalar para uma situação económica precária.

Em Junho de 1920, o Presidente da República, António José de Almeida, atribui-lhe o grau de comendador da ordem de S. Tiago da Espada, «atendendo aos excepcionais talentos artísticos e aos serviços prestados ao teatro nacional.»

No crepúsculo da vida, ainda participa numa das primeiras longas-metragens realizadas no nosso país. Trata-se do filme O Condenado onde actua com o artista, ligado ao modernismo, Almada Negreiros.

Assolada pela indigência, o jornal Diário de Notícias, no dia 21 de Abril de 1922, promoveu, no Teatro São Carlos, em sua honra e benefício, uma récita de homenagem, com o objectivo de angariar dinheiro para a auxiliar. Foi a última vez que a actriz torrejana pisou o palco. Nesse dia interpretou o papel da Emília dos Velhos e declamou também alguns versos. A consagração e o carinho endereçados a Virgínia da Silva, por parte do público presente, foram apoteóticos.

Residindo numa pequena casa na rua Luciano Cordeiro, a actriz era agora o espectro daquela que encantara nos palcos pela sua linda postura, pela expressão dulcíssima do seu olhar e pela voz de cristal e ouro. Era o vulto de uma velhinha, muda e trémula, onde raiava uma imensa melancolia.

A morte surpreendeu-a numa fria tarde do dia 19 de Dezembro de 1922. A chama da vida extinguia-se nesse corpo frágil que em tempos emitira uma voz de ouro, única e inigualável. Coube a Santos Tavares a leitura do discurso fúnebre de homenagem à actriz Virgínia. Os restos mortais encontram-se sepultados no Jazigo dos Artistas Dramáticos, no cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Já a sua alma cintila no coração daqueles que guardam a imagem da sua bondade, talento e rectidão de carácter.

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