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“Confortado e confortável” e “Custe o que custar”

Para título desta minha crónica quinzenal socorri-me de duas expressões recentes do Presidente do Conselho.

A primeira, “confortado e confortável” foi dita e repetida aquando daquela trapalhada da distribuição de prendas, quais recompensas a amigos, no tal Conselho Geral da EDP quando esta tinha sido acabada de “privatizar publicamente”, quer dizer nacionalizada a favor do estado chinês, e da nomeação de administradores para as Águas de Portugal. Lembram-se do que estou a falar. Aquele caso onde um proeminente economista do regime foi brindado com uma remuneração de 45.000€uros mensais, a acrescer à sua boa reforma e mais umas prendas importantes a outros amigos do arco do poder e ainda da entrada também de dois amigos para a outra empresa. E o senhor Presidente do Conselho, dizendo-se alheio a tais distribuições de prendas, sentia-se, e certamente continua a sentir-se, “confortado e confortável” segundo disse. Nós, que pagamos as facturas mensais, é que nos sentimos perfeitamente desconfortados e desconfortáveis pelas idas aos nossos bolsos todos os meses. Mas isso não interessa ao senhor.

A segunda foi dita e reafirmada, cito a SIC Noticias de 31 de Janeiro, “que Portugal vai cumprir o seu programa de assistência económica, “custe o que custar”, respondendo a quem pede a sua renegociação e aos “analistas” que dizem que o país vai “falhar”.

Quanto à primeira, nada a dizer. Está tudo bem no reino da Dinamarca. Nós pagamos e não bufamos.

Sobre a segunda, esta perseverança manifestada todos os dias a toda a força, faz-me lembrar tempos recentes passados em que o perseverante era outro. Citando o Jornal de Negócios de 01 de Fevereiro, “todos recordamos a forma como os membros do Governo anterior em vão se desdobraram em entrevistas na fase final do seu mandato de forma a evitar o pedido de empréstimo”. Esta é que me parece, infelizmente, ser uma frase feliz do jornal para comparar situações tão diferentes, mas com o mesmo final previsível, se bem que por actores também tão diferentes quanto parecidos, no afrontamento que sabem fazer à plebe que somos nós.

Como diz o povo na sua sabedoria milenar, o pior cego é o que não quer ver. E os nossos responsáveis não querem mesmo ver que o programa de assistência económica é curto no seu valor e curto no seu prazo de aplicação. E, como nos tais tempos recentes mas já passados, aí estão os mercados a castigarem-nos com taxas de juros incomportáveis, porque usurárias, porque consideram essas operações com risco acrescido. Daí a tal usura.

Esta medida perseverante do “custe o que custar”, mesmo sem luz ao fundo do túnel, já nos está a custar todos os dias nos preços dos bens essenciais como sejam os transportes, a luz, a água, os combustíveis, a alimentação, a saúde e a educação, que no final de contas estão pura e simplesmente a atacar o tecido económico e a pôr o país de cócoras, com o desemprego a aumentar todos os dias, como se um país parado pudesse ir a qualquer lado. É o país a empobrecer, mais nada. E, nesse sentido, os objectivos estão a ser conseguidos porque empobrecer é mesmo a palavras de ordem.

Para compor todo este ramalhete, eis o mesmo Presidente do Conselho, quando interpelado, no último debate quinzenal da Assembleia da República, se estava preocupado com a demissão em bloco da Direcção de Informação da RDP, depois de terem acabado com o programa “Este Tempo” de Pedro Rosa Mendes, porque criticou a forma e o modo como foi a organização de um programa recente da RTP em directo de Luanda, disse pura e simplesmente não estar preocupado. Pudera. Preocupados estamos nós com o caminho que isto leva.

Estávamos mal, mas ficámos pior e o que virá a seguir, porque há-de vir outra coisa qualquer, também não poderá ser nada de bom. Mas já que não nos podemos sentir “confortados nem confortáveis” com todas estas trapalhadas, que ao menos consigamos arranjar forças, “custe o que custar”, para combatermos esta letargia, este deixar andar, a caminho do buraco.

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