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Um casamento fausto

Era um dia de Maio e aquela senhora da praça, pessoa simples, vincada no rosto com as contrariedades da vida: o trabalho nas praças antes e depois da lida do campo para acompanhar o marido, o sustento dos filhos, sabe-se lá com que sacrifícios… e a lida da casa de que faz questão de ser “a dona”, emprestando aos seus empenhos uma garra e uma determinação de quem nasceu para servir. Mas nos intervalos tem sempre um comentário, às vezes jocoso, que é a forma de espantar a dor.

Naquele dia disse-me:

– “Sabe, na semana que vem não virei porque vou ao casamento da minha filha. Ela não quer nada da minha vida, estudou e trabalha numa escola. Espero que tudo corra bem, mas tenho um desgosto porque não lhe posso satisfazer um desejo. É que ela disse-me que gostava muito de ir ao casamento num carro desses mais chiques, um Ferrari ou lá o que é isso. Mas eu tenho feito tantos sacrifícios, tenho-me privado de tantas coisas e isso não lhe posso dar, muito embora já lhe tenha dado uma boa prenda.

Olhei-a nos olhos, com sentimentos de amizade e compreensão, mas também calando alguma raiva, sem saber o que lhe dizer acerca dessa filha que não conheço. Foi então que me saiu este pensamento que exprimi para que a senhora entendesse:

– “De nada vale ter uma horta cercada com um belo muro, iluminação e decoração, se entretanto não se cuidar da terra onde as sementes hão-de germinar. Hoje muitas pessoas quando pensam em constituir família, sonham com todos os adereços, fazem todos os contactos e pagam os serviços mais requintados para que tudo pareça bem…, mas esquecem o essencial: não preparam o conhecimento do outro, não definem o projecto que querem construir com o resto das suas vidas…”

Ao que a vendedeira exclamou na sua humildade: “isso é muita sabedoria! A gente nem sabe como fazer…, para não desanimar!”

O casamento é como terra bem cultivada e lavrada com sulcos fundos, para afastar as sementes de ervas daninhas que sempre existem mesmo na melhor terra. É a escolha do melhor terreno e das melhores sementes; é a aposta numa colheita segura que traga abundância; é a esperança e a determinação para defender uma porção de propriedade de dons que se querem multiplicados; é a paciência para enfrentar as intempéries; é saber que entre as plantas que crescem, muitos serão os parasitas que se aproveitarão de cada uma, mas também de muitos outros viajantes que na sua passagem ajudam a planta a crescer, fecundar e dar bons frutos; a esperança de que o tempo e o trabalho se encarregam de os amadurecer até à colheita.

Actualmente por cada 90 casamentos 60 resultam em divórcio. E existe também o aparecimento de outros tipos de uniões que nem sequer entram nesta conta. O amor tornou-se uma coisa meramente genital. Não é possível manter uma sociedade sã e solidária quando a família passou a ser o elo mais fraco de um todo que deveria estar preparado para resistir e ser tábua de segurança para os relacionamentos e para as necessidades primárias em risco numa sociedade em crise.

A natureza através dos seus processos dinâmicos encarrega-se de nos dar uma grande lição, a nós que julgamos saber tudo, estudámos e viajámos muito. Nessa voragem, complicámos e deturpámos o sentido das coisas e da sua hierarquia: Colaborar no processo para recompor a sociedade com células básicas saudáveis que são a família de cada um. E isso é o mais importante.

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