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Acerca de blogues e do dono da bola

No ano prestes a terminar, aprendeu-se bastante em Portugal. Nada funciona e não há meio de serem julgados os responsáveis pelo buraco em que nos encontramos. A imunidade é total. De facto, é fácil constatar que não é necessário ser bom atleta para jogar à bola neste desgostoso país, pois o que importa − isso sim! − é ser dono da bola.

Como sabemos, a transparência é o pilar da responsabilidade. Infelizmente, numa democracia como a nossa, quase todos os governantes são opacos. Eles lá terão as suas razões. E quem os defende também.

Há quem, com o dinheiro dos contribuintes portugueses, “compre” canais de televisão, jornais diários, pasquins regionais e programas radiofónicos. Falta um jornalismo de referência à semelhança do “Le Monde, “The New York Times”, “Der Spiegel”, BBC, “Le Nouvel Observateur”.

Criou-se a ilusão que a censura foi extinta com o fim do regime anterior. No entanto, o lápis azul continua a ser usado. Não é preciso mais do que um figurão fazer de virgem falsa e os directores mais medrosos obedecem de imediato. Estão domesticados. Enfim, mistérios que não têm nada a ver com os direitos individuais.

A liberdade de se dizer a verdade, também devia ser respeitada. Há quem lhe chame o “contraditório” ou o “princípio do dissenso”, para evitar que se lave o cérebro do leitor.

No meio de tanta obscuridade, somos levados a crer que talvez os blogues constituam uma contrapeçonha. E, por esse motivo, temos seguido com algum interesse a bloguística local, a prática de escrever “posts” ou até artigos cujos temas podem ir das meras notícias às análises eruditas.

É fácil criar um blogue. Largos estratos da população participam nestes fóruns de aprendizagem e debate. Num ou noutro caso, ajudam na indecorosa autopromoção de políticos sempre em busca de protagonismo. Estamos a pensar num em particular, que espelha bem o autor. Um amigo apelidou-o de “Narciso”. Seria mais adequado chamar-se “Vanitas vanitatum sed omnia vanitas”.

Em Torres Novas, houve “sites” que percorríamos com determinada frequência. Recordamos, entre outros, “O Largo da Botica” (Jorge Salgado Simões) e o “Canhotices”. Neste, José Pereira partilhava uma análise de esquerda e não vacilava em expor algumas intrujices. Também é digno de menção o “A Ver o Mundo”, metamorfoseado em “Kyrie Eleison”, de Jorge Carreira Maia.

De enorme qualidade e de visita obrigatória é o “Ponteiros Parados”. Raro é o dia que não encontremos uns minutos para nele ler e ver os “bijoux” com que José Ricardo Costa nos regala. Além do mais, situa-se esteticamente numa posição superior.

O interesse dos conteúdos cativa a atenção e a prova está na elevada participação de quem o lê. Seguimos as suas sugestões a propósito de filmes, livros ou peças de música. Acerta em cheio. O “Jornal Torrejano” tem sorte de o ter como colaborador.

No campo da cidadania activa, António Mário Lopes dos Santos merece do mesmo modo uma referência. Que pena não ter um blogue, porquanto à sua maneira, no seu estilo próprio, nunca hesitou em pôr os pontos nos ii. Agora, com mais desenvoltura desde que migrou para “O Riachense”.

Mas voltemos aos “Ponteiros Parados”, visto que não resistimos à tentação. Quando em Janeiro fomos fazer uma conferência na Universidade de Atenas, tivemos o subido prazer de conhecer uma estudante que nos perguntou se conhecíamos o José Ricardo Costa. Tratava-se da παναγιώτα. Em contraste com as historietas políticas que lemos na primeira e última visita a outro blogue torrejano, aqui não há ficção nem meias-verdades para impressionar eleitores desatentos.

Sim, existe uma grega chamada Panaghiota que, com um grupo de outras estudantes, foi tomar um café connosco. Foi ela quem, no dia 4 de Fevereiro, comentou no “Ponteiros Parados”: “Gostei muito deste texto! Basta uma cena qualquer da vida e um momento … e surgem pensamentos tão interessantes!”.

Se houvesse um prémio para os blogues da região, o do José Ricardo ganhava a medalha de ouro. É, sem qualquer dúvida, um espaço de disputa de ideias acima da média.

Vem a propósito mencionar o “Politico”, quiçá um dos blogues mais influentes da América do Norte. Foi nele que encontrámos um comentário sobre as eleições autárquicas de Chicago: “Just remember the higher the Monkey climbs on a pole, the more you could see his butt” (quanto mais alto trepa o Macaco, melhor se lhe vê o traseiro). Ora bem, é esse o objectivo de bastantes blogues. Mostrar o que os comprometidos órgãos de comunicação tentam esconder.

Em conclusão, também no universo bloguístico é fácil encontrar quem seja de grande utilidade colectiva e quem apenas se sirva dele como prolongamento dos desmedidos egos. É que a liderança, como o futebol, não constrói o carácter de uma pessoa, ela revela-o.

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