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O FMI e a argentinização de Portugal

Caro leitor! Se acompanha os noticiários da imprensa escrita e televisiva já se apercebeu que o país caminha, inexoravelmente, a passos largos para a bancarrota. Se ainda não deu conta da situação, mais tarde ou mais cedo, ela cairá sobre si de forma dramática. Culpados? Como sempre a culpa morrerá solteira! Os responsáveis pelos saques e crimes económicos, desferidos brutalmente sobre a nossa economia, esfumaram-se nos paraísos fiscais ou assobiam para o lado, perdidos em justificações estapafúrdias.

O mal-estar vivido pela maior parte dos cidadãos e que assola o país, é uma prova incontornável de que é urgente constituir leis sérias que criminalizem de forma exemplar os culpados pelo assalto continuado aos bens públicos e derrapagens financeiras. Por que não instituir um tribunal transnacional para crimes económicos e financeiros, perpetrados por políticos ou outros agentes, tanto nacionais como estrangeiros, à semelhança do tribunal, dos crimes contra a humanidade, existente em Haia? Nos casos que envolvessem situações exclusivamente do domínio interno, lesivos para o Estado ou instituições nacionais, julgo que a constituição em Portugal de uma magistratura especializada bastaria. Para que tal aconteça, muita coisa terá que mudar no nosso sistema judicial, na burocracia enraizada e transparência no combate à corrupção e tráfego de influências que tomaram conta do país.

Fragilizada pela penúria económica e financeira abateu-se sobre a nação portuguesa um outro perigo: a rapacidade do modelo neoliberal do FMI e apaniguados. Ao toque das suas recomendações, os actuais governantes vão irreflectidamente zurzindo o látego dos impostos, das espoliações sociais, ridicularização dos direitos da classe média e pobres que vêem um espesso manto de nevoeiro cair sobre os ideais de Abril. Este cenário é um novo remake de um filme antigo! Argentina, 1989. A mesma purga aplicada pelo FMI ao país da América latina está a acontecer em Portugal: privatização do património do Estado (electricidade, caminhos-de-ferro, água, telefones, auto-estradas, metropolitano, companhias aéreas, correios, etc.), extinção das golden share, milhares de funcionários públicos e reformados com os seus salários e pensões reduzidos para tapar os buracos financeiros do Estado (que sorverão rapidamente os magros proventos conseguidos com a venda ao desbarato de sectores-chave do país), aumentos dos impostos, subida dos preços dos bens essenciais e serviços…. O actual modelo ideológico imposto só pode descambar na recessão económica e recuo de décadas de conquistas civilizacionais. A precaridade, o desemprego, a exclusão, as falências, o aumento do custo de vida e prestações sociais levarão ao estrangulamento da economia. A par disso, como aconteceu com a Argentina, Portugal será ” o melhor aluno do FMI” e o primeiro-ministro, à imagem do representante da economia do país das pampas, Domingo Cavallo, o “herói liberal dos próximos anos”.

Para os anais da história o sucedido na Argentina simbolizou o fracasso do paradigma neoliberal, tal como a queda do Muro de Berlim levou ao descrédito o socialismo existente nos países do leste. E a nós o que acontecerá se os políticos insistirem neste modelo esgotado de economia? Julgo que (espero enganar-me!) Portugal desmonorar-se-á numa grave crise social e económica sem precedentes. Muitos anos serão necessários para que a nossa economia se restabeleça desta sangria injustificável.

Continuando o relato do que aconteceu na Argentina: atingido o clímax da desgraça em Dezembro de 2001, na noite de 1 de Janeiro de 2002, o peronista Eduardo Duhalde venceu as eleições e varreu de imediato o “modelo liberal” que muitos sacrifícios acarretaram ao povo argentino. No momento da investidura salientou: “ Este modelo atirou para a pobreza dois milhões de compatriotas, destruiu a classe média, arruinou as nossas indústrias e reduziu a nada os trabalhos dos argentinos.” Se reflectirmos um pouco, nestes meses de governação de Passos Coelho, é este o cenário que se está a construir. Precisamos de arrepiar caminho, para que o sofrimento e desespero que se vive hoje não atinjam a dimensão experienciada pelo povo da Argentina. É urgente dizer basta! Um outro modo de pensar e fazer economia, centrado nas pessoas reais (não em meras estatísticas) e na solidariedade dos povos, é possível construir!

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