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Defuntos com belas vistas no Funchal

Passámos recentemente uns dias no Funchal. Na véspera do regresso, fomos jantar com dois colegas num restaurante à beira-mar. Música de fundo discreta, cheirinho convidativo vindo da cozinha e a atenção impecável do pessoal de mesa. Sem telemóvel nem emails de estudantes, apenas nos acompanhavam o peixe-espada com banana e o mar onde o pôr-do-sol deixava sombras nos ilhéus Selvagens. Não muito longe, os milhares de luzes de um navio de cruzeiro fizeram-nos recordar os filmes de Fellini. Quiçá o “Amarcord”.

Figuras importantes da história mundial (Winston Churchill, George Bernand Shaw) aqui passaram temporadas mais ou menos longas e alguns destes estrangeiros escreveram sobre a Madeira, Canárias e Açores. Partilhámos com os convivas algumas observações efectuadas por Joseph e Henry Bullar, descritas numa obra que publicaram sobre o Faial e as Furna em meados de Século XIX.

A conversa saltou dos arquipélagos atlânticos para a península ibérica, que serviu igualmente de tema a figuras gradas das letras como Théophile Gauthier, Lord Byron, Hemingway, Malraux, etc. Sem saber ao certo como lá chegámos, mencionámos o autor de um dos melhores romances picarescos que conhecemos “The History of Tom Jones, A Foundling” e também do menos estimado “Journal of a Voyage to Lisbon”. Chamava-se Henry Fielding (1707-1754) e foi sepultado na capital portuguesa, no Cemitério dos Ingleses. Para quem nunca tenha visto o singelo monumento que o recorda, está no dito local, por trás de um comprido e alto muro, próximo do Jardim da Estrela.

Ora bem, o outono é a estação do ano associada aos cemitérios e aos mortos. Estamos a pensar no Dia de Todos os Santos e, logo a seguir, ao dos Fiéis Defundos.

Como o tempo estava perfeito para umas passeatas, um dos companheiros antes referidos relatou uma curiosidade histórica e lançou-nos o repto de, no dia seguinte, irmos em busca de um rei quase ignorado.

Tratava-se de Vladislavo III, rei da Polónia, Hungria e Croácia, príncipe da Lituânia, e mais conhecido por Wladyslaw Warnenczyk. Reza a história que desapareceu na batalha de Varna em 1444. No entanto, uma lenda conta que ele teria ido como cruzado para a Terra Santa e, em vez de ter morrido às mãos dos muçulmanos turcos, teria acabado os dias na Madeira.

Tanto o mito como a história são ensinados às crianças polacas. É óbvio que não há documentação sobre a fase madeirense da vida de Wladyslaw III. Deve ser mais uma das muitas historietas para fazer sonhar a criançada farta dos céus acinzentados do norte europeu.

É verdade que, logo no fim da guerra, um polaco de nome Kielanowski viveu no Funchal onde trabalhou na hotelaria e se dedicou, nos períodos livres, à procura de provas em defesa da tese, segundo a qual o supracitado monarca teria vivido os últimos anos da sua existência na Pérola do Atlântico.

Como combinado, fomos no teleférico até ao Monte. São quinze minutos memoráveis do Jardim Almirante Reis à freguesia do mesmo nome, a 550 metros de altitude. O ar fresco e as paisagens deslumbrantes explicam em parte a abundância de quintas e moradias maravilhosas. Lá estava a famosa igreja de Nosa Senhora do Monte e outro túmulo. Não do rei Wladyslaw, mas sim de Carlos I da Áustria (ou Carlos IV da Hungria, para os magiares).

No fim da Primeira Guerra Mundial, os aliados decidiram apagar o império austro-húngaro do mapa da Europa. Ainda 1918 não tinha terminado e já os checos, polacos e jugoslavos proclamavam o direito à independência. Em 1919, o Tratado de Saint-Germain fixou as fronteiras da nova Áustria e baniu a monarquia. Os bens dos Habsburgos foram nacionalizados e Carlos I, que tinha sido coroado em 1916, após a morte do imperador Franz-Joseph, foi desterrado para a Ilha da Madeira.

Bem perto, fica a versão madeirense do Cemitério dos Ingleses. Ali se encontra a campa do Senhor e da Senhora Kielanowski. Não por terem sido protestantes, mas por serem súbditos de Sua Majestade. Em redor, outras lápides indicando os lugares de nascimento dos falecidos: África Oriental Britânica, Serra Leoa, Índia, Surrey, Dorset, etc., mas nem uma única pista que nos levasse a Wladyslaw III.

Apesar de não termos encontrado os restos do rei polaco, a “expedição” foi um sucesso total. Divertimo-nos e enchemos os olhos com panoramas inesquecíveis. Enquanto esperávamos que nos levassem para o aeroporto, ainda houve tempo para apreciar um “Madeira Vintage” com vinte anos de envelhecimento no barril e dois na garrafa.

Se nos convidarem, prometemos voltar. É terra de gente acolhedora. E, com ou sem o Presidente Alberto João, o labor é sempre agradável.

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