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Línguas, culturas e comunicação

Nos últimos dias, tomámos uma cura de leitura. Uma meia dúzia de livros em diversos idiomas, pois cremos ser importante conhecer a língua de um povo de forma a compreender a sua cultura e maneira de viver.

Quando estudávamos em Bruxelas resolvemos que, para compreender melhor a Bélgica e os belgas, tínhamos de aprender um pouco de neerlandês. Pois bem, foi a ler livros aos quadradinhos com o Pato Donaldo ou o Astérix” a dizerem “Dank U” (obrigado) ou “Alstublieft” (por favor).

Passar mentalmente de uma língua para outra é como atravessar uma fronteira. Um fenómeno associado com o vida contemporânea, onde milhões de pessoas têm de empregar mais do que um idioma no seu dia-a-dia. Talvez possamos servir de exemplo: em casa, falamos português; no trabalho, francês e inglês, sem contar as conversas de corredor com colegas hispânicos e alemães. De facto, a utilização de diversas línguas é uma necessidade para muita gente.

Na cidade em que vivemos, basta entrar num autocarro e logo nos damos conta que as fronteiras linguísticas são bastante permeáveis. Há jovens que vão de um idioma para outro com total naturalidade, e isso leva-nos a perguntar se as línguas não se encontrarão em compartimentos estanques do cérebro, ou, quiçá, num caos de conceitos e ideias.

Mais do que códigos aprendidos desde a mais tenra idade, parece que possuímos uma miscelânea de repertórios mentais que se podem ligar ou desligar como os canais do televisor. As expressões aparecem consoante a situação. Quando falamos português, não é raro ter de pensar duas vezes para traduzir: “partielle et partiale”, “I would’nt touch it with a 5 foot pole”, “weltanschauung” ou “aflojar las riendas”. No sentido inverso, como interpretar “sacudir a água do capote”? Melhor ainda: “tirar nabos da púcara”.

O filósofo Charles Sanders Peirce (1839-1914) criou dois campos de investigação: a semiótica e o pragmatismo. Um dos princípios de base do pragmatismo é que tudo o que pode acontecer é tão real como o que acontece.

Peirce queria compreender como as ideias eram criadas na mente humana. Assim apareceu a semiótica, ou seja o estudo dos signos (símbolos, índices e ícones) e das suas interpretações. Em semiótica o conceito de signo também inclui um pensamento, uma expressão linguística, ou mesmo os actualíssimos “emoticons” nas mensagens enviadas pelos telemóveis.

A realidade está em fluxo constante, pois signos antigos mudam de significado ou desaparecem ao serem substituídos por outros. Por exemplo, o significado da Mona Lisa para o comerciante de Florença, que a encomendou a Leonardo da Vinci, terá sido diferente daquele que lhe é atribuído pelos turistas no Museu do Louvre.

A cultura moderna assenta no digital, uma verdadeira revolução. É demasiado cedo para compreender o que se está a passar. No entanto, está demonstrado que tudo mudou com a popularização dos computadores e da internet.

Também se deve sublinhar que a maioria dos habitantes do planeta lê e compreende mais do que uma língua. O poliglotismo facilita a comunicação, mas a sociedade global encontrou outras formas de comunicar. Até o comércio e as relações interpessoais se transformaram. Nem sempre para melhor, diga-se de passagem.

Pense-se, sobretudo, como as camadas jovens inventaram uma língua própria com imagens e símbolos digitais. Alguns destes “emoticons” exprimem emoções evidentes (por exemplo:☺), outros requerem uma aprendizagem.

Estes métodos andam ligados à linguagem simbólica. Porém, num futuro próximo, a linguagem perderá a posição hegemónica que ocupa no processo cognitivo.

E, quando se chegar a esse ponto, não dependeremos mais de textos escritos ou falados em línguas estrangeiras. Que grande alívio para a “malta” nova. Ganhará a comunicação, mas perderão quase todos os idiomas menos falados e as respectivas culturas.

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