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O Mosqueado e o brilho dos meus óculos

Há já alguns bons anos tive sociedade de pombos correios com o José Manuel Bué, com o pombal em sua casa no Bairro de S. Domingos para onde levei os meus cerca de vinte pombos que aduzimos ao seu pombal com certa facilidade, à excepção de um macho de côr lilás, que sempre ficou pelas redondezas do meu antigo pombal em Valverde e desaparceu sem deixar rasto algum tempo depois. De entre os meus pombos havia um casal de razoáveis voadores que resolvemos pôr na reprodução para ver se encontrávamos ali um filão de bons pombos. O macho tinha-me sido oferecido por Carlos Trincão Marques quando desistiu de concursar em Riachos e a fêmea de côr pedrada adquiri-a por 140$00 (setenta cêntimos) num leilão em Tomar e pertencia ao campeão do Tramagal, Valdemar Contente. O casal não se dava nem por nada, foi difícil o acasalamento e dessa união apenas nasceu um borracho, que por acaso veio a ser um razoável voador e mais tarde um bom reprodutor, com filhos campeões. A sua alcunha era a de “Mosqueado” e foi das aves mais curiosas que tive ao longo de muitos anos desse desporto. Era um líder dentro do pombal, fino como a seda, sempre alerta quando eu ou o Bué entrávamos no pombal e sempre muito difícil de agarrar. Só lhe faltava falar porque topava todos os movimentos. Nas provas, em especial nas de meio fundo na ordem dos 350 Kms., vinha quase sempre à frente ou bem posicionado para se classificar nos primeiros 20% dos pombos enviados. Lá vir ele vinha, mas tinha um contra, aterrava na prancha, ia espreitar até junto dos batentes da entrada, voltava as costas ao pombal e tomava sempre posição no lado oposto da prancha. Entrar no pombal para se lhe tirar a anilha e efectuar o seu controlo de chegada, isso é que não queria. O Bué bem me mandava sempre esconder, bem dizia que era azar que eu dava, ou que era o brilho dos meus óculos que o tornavam bravo e faziam com que não entrásse. Mas quando não havia sol ou quando chovia, ele fazia precisamente o mesmo, recordando eu um concurso de meio fundo em que chegou a horas de ficar entre os primeiros em Torres Novas. Chovia que se fartava, eu lá estava escondido à espreita, e o Mosqueado para entrar … é o entras! O Bué, passados alguns minutos perdeu a cabeça, foi buscar uma vara e falava alto e em bom som: ”Hoje acaba-se com o mal, o pombo é teu mas aqui quem manda sou eu.” E vai daí, fez pontaria e zás… o Mosqueado saltou, safou-se da vara e voou para uma barraca que havia ali a uns cinávidas quenta metros, em plena fazenda do “Chiba”e ali ficava, não fosse o Bué de sapatinho de luva se esquecer da lama e correr na direcção da fazenda para o enxotar. A lama que pisava acumulava-se nos sapatos e passada a passada lá se ia enterrando nela o bom do José Manuel. Ao chegar perto da barraca, o Mosqueado voou para a prancha, com o Bué bem longe e entrou no pombal como se não fosse nada com ele e com isto passaram-se mais de trinta minutos. Mas olhem que mesmo assim, ainda se classificou nos 50 primeiros, tal era o avanço que tinha ganho. Ao Bué passou-lhe a fúria e eu fartei-me de rir ao ver a sua dificuldade em deslocar-se no lamaçal no regresso. O Mosqueado foi preservado pela sua linhagem e veio a dar pelo menos um filho campeão e este por sua vez deu vários filhos também campeões. Entretanto a sociedade desfez-se, cada um de nós seguiu a sua vida, não sem que o José Manuel Bué me tivésse oferecido uma taça em nome da nossa sociedade e que marcava a amizade entre nós durante alguns anos na prática da columbofilia. Nunca fomos campeões, nunca ganhámos praticamente nada que se visse mas conseguimos ser um exemplo na lealdade, no respeito e na amizade que ainda hoje passados dezenas de anos continuamos a manter.

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