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IMPRENSA LOCAL – As crónicas brancas da vida das nossas comunidades

 

Em Portugal a imprensa generalista de âmbito nacional está entregue a um reduzido número de empresas que controlam grande parte da produção de notícias e formam a opinião pública. Os grupos Impresa, Sonae ou Média-Capital, constituem os maiores conglomerados de imprensa do país, sendo quase impossível fazer conhecer um facto ocorrido, se não for aproveitado como peça jornalística por um destes grupos. Sem dúvida, são um elemento importante no panorama de comunicação social do país, mas deixam de fora uma grande quantidade de factos e elementos constituintes do pulsar quotidiano nacional, sobretudo relacionados com as vivências de proximidade de um território com um povoamento denso mas disperso e muito enraizado em comunidades locais.

 

É nesta realidade que se percebe a grande abrangência e importância entre nós da imprensa local e regional. Por um lado, as pessoas que estão fora da vida dos grandes centros urbanos, ou fora da dinâmica do poder e da decisão, estão afastadas de uma certa lógica política e de consumos culturais mais amplos, ficando-se por uma mundo-visão de base local, a quem pouco interessa as grandes questões nacionais, pessoas que estão centradas no seu mundo de vizinhos ou comunidades de inserção da vida de todos os dias. Para quem vive em comunidades pequenas, tem muita importância o conto de factos e notícias locais, com que se identificam vivências. Há interesse em ler e conhecer a vida das pessoas e instituições que correm ao lado de todos e que determinam o rumo de cada comunidade. Também é mais fácil encontrar em torno da imprensa existente, colaboradores que, motivados por um espírito de voluntariado, ou por militâncias nas várias instituições locais, dão corpo a notícias, crónicas e documentários, muitas vezes impregnados de emoções que plasmam com vida os relatos e envolvem os leitores nos acontecimentos, mobilizando vontades, participação cívica, missão; Por outro lado, a imprensa local não dispõe de meios financeiros para fazer face aos custos de manter uma edição regular periódica, sem apoios estatais, de publicidade ou de tiragem que viabilizem a continuação de uma linha editorial. Estes colaboradores locais não representam despesas para uma cobertura noticiosa vasta, que inclui: política, economia, associativismo, religiosidade, vida autárquica, desporto, cultura e tradições, etc.

Deste modo a imprensa local dá um grande contributo ao país: como fluxo contínuo de notícias, no ajustamento e identificação das pessoas com as suas comunidades e cidades, estabilizando modos de vida, integrando pessoas e instituições, gerando dinamismos de apropriação territorial, impossíveis de concretizar a partir do Terreiro do Paço ou da Assembleia da República.

 

Paralelamente funciona como um meio privilegiado de informação e redução de assimetrias culturais dentro do país, permitindo também um treino de leitura permanente a milhões de pessoas.

O jornal da terra é o jornal da família que todos podem folhear e percorrer a cada semana. Basta pensarmos que uma parte das edições de imprensa local se vendem por assinatura e são expedidas para a cintura das grandes comunidades urbanas, onde vivem muitas das pessoas oriundas de meios rurais, do interior ou outras zonas mais deprimidas, sem possibilidade de oferecer emprego e qualidade de vida, servindo como um grande apaziguador de sentimentos de contradição entre o espaço rural e urbano. É também na imprensa local que se moldam e veiculam muitos valores tidos como essenciais e estruturantes do povo, e das suas opções morais, funcionando como reserva moral do país, pois além da “fumaça” que a grande imprensa nacional trás sobre os acontecimentos, na esfera privada, aquilo que é apresentado ou veiculado na imprensa regional tem grande significado e reproduz a forma de estar no mundo inerente a cada pessoa.

 

Apoiar, colaborar e consumir a imprensa local, é um factor de cidadania mas também um aproveitamento adequado de um património valioso que cada comunidade tem para edificar o sentimento de pertença a um concelho ou país, que cada um não deve desperdiçar.

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