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Funchal, Vinho e Sissi

 

 

Na vastidão do Atlântico, uma erupção vulcânica deu origem a uma ilha onde o clima subtropical, aliado à humidade do ar, facilitou o desenvolvimento de uma flora extraordinária. Milhões de anos mais tarde, no Século XV, as caravelas do Infante Dom Henrique descobriram-na. Foi João Gonçalves Zarco quem comandou a expedição e lhe deu o nome de Madeira.

 

Plantaram naqueles solos férteis a cana sacarina vinda da Sicília e as vides de Chipre. Desde logo, a ilha ficou conhecida pelo vinho e cedo o seu comércio caiu nas mãos dos ingleses. Estes, após o casamento de Catarina de Bragança com o rei Carlos II, obtiveram o direito de ali viverem e negociarem.

 

Para os súbditos de Sua Majestade, o Funchal tornou-se então uma escala obrigatória nas viagens de regresso do continente africano ou da Índia. Tanto deviam ter gostado da ilha, que a ocuparam durante os primeiros anos do Século XIX. Como bem alegavam, para as proteger das investidas napoleónicas,

 

É abundante a bibliografia sobre a cultura do açúcar nos primórdios do povoamento. No entanto, foi o vinho que colocou o arquipélago nas rotas do comércio mundial. Principalmente, quando os exportadores lhe adicionaram aguardente vinícola e o trataram em estufas, dando-lhe assim um sabor torrado muito apreciado na época.

 

Os quatro tipos característicos do vinho da Madeira são: Sercial, Verdelho, Boal e Malvasia. Os dois primeiros, bastante secos, devem ser servidos frescos como aperitivos. Os últimos, por serem doces, à sobremesa.

 

Era tal a reputação deste elixir, que Shakespeare utilizou na peça “Ricardo III” a lenda do Duque de Clarence. Este, condenado à morte por conspiração contra o irmão (Eduardo IV), escolheu ser sufocado numa pipa de “Malmsy” (malvasia).

 

De facto, os néctares insulares ocuparam um espaço nobre nas mesas de imperadores e presidentes. Desde Napoleão aos Czares da Rússia, sem esquecer a aristocracia da novel república americana. Vem a propósito sublinhar que não foi com champanhe que George Washington brindou a independência dos Estados Unidos. Foi com “madeira”.

 

Numa recente estadia na Pérola do Atlântico, convivemos com um colega flamengo fascinado com a profusão de espécies florais madeirenses. Nomeou, entre outras, grevíleas originárias da Austrália, próteas da África do Sul, antúrios, brincos-de-princesa, orquídeas e estrelícias. E como tínhamos uma manhã livre, subimos a Avenida do Infante rumo ao Parque do Casino. A finalidade não era apreciar os jacarandás-roxos que dão sombra ao passeio, mas sim revisitar a estátua de Isabel da Baviera (1837-1898), imperatriz da Áustria e também rainha da Hungria, da Croácia e da Boémia. Mais conhecida por “Sissi”.

 

Alguns leitores recordar-se-ão dos filmes em que Romy Schneider (1938-1982) desempenhava o papel de “Sissi”. Por estranha coincidência, esta formosa actriz austríaca teve uma existência tão atormentada e trágica como a da imperatriz com a qual ficou associada na história do cinema.

 

A desafortunada Isabel residiu por algum tempo no Funchal e tem lá uma estátua para quem a queira admirar. Já noutras visitas a tínhamos visto. Com efeito, o hotel em que nos alojaram no ano passado ficava na Estrada Monumental – Lido e, por conseguinte, passávamos junto a ela todos os dias.

 

Alegrou-nos constatar que alguém continua a colocar uma flor de hibisco vermelha na mão da imperatriz. Mas o mais surpreendente foi a frase gravada no monumento: “Gostaria de partir deste mundo, como uma nuvem de fumo”.

 

No meio de tanta beleza natural e outras coisas boas, não compreendemos como é que uma mulher tão bonita e soberana de diversas nações possa ter acumulado tantos macaquinhos na cabeça. Em retrospectiva, talvez a psiquiatria moderna consiga diagnosticar as causas do problema: marido arrogante (Franz Joseph I), morte da filha primogénita aos dois anos de idade, sogra (e ao mesmo tempo tia) detestável, doenças psicossomáticas, anorexia e, quase no fim da vida, o suicídio do único descendente varão, o Príncipe Rodolfo, que devia ter sucedido na linha dos Habsburgos. A derradeira desgraça aconteceu em Genebra, quando um anarquista a assassinou. Por engano, visto que Luigi Lucheni tinha por alvo uma princesa dos Orléans.

 

Quanto a nós, pensamos que uns copinhos de malvasia e um bolo de mel de cana partilhado com a sogra teriam facilitado o diálogo com aquela que, até mais não poder, lhe fez a vida negra. Se fosse portuguesa, teria inspirado muitos fados.

 

Após a deslocagem do aeroporto de Santa Catarina, ainda ficámos uns minutos a olhar para o oceano e, à medida que o avião penetrava nas nuvens, deixámos de ver as pequenas ondas. Pensávamos nos destinos tristes de tanta gente famosa. Pouco depois, tudo desapareceu. Para trás, ficava aquela parcela de Portugal saída do magma basáltico e da profundeza do mar.

 

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