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Com a cabeça na lua

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De manhã a notícia da rádio apanhou-me a caminho do emprego. Estranhei o seu teor, porque, ao contrário de todas as informações com que somos bombardeados diariamente, esta era absolutamente inofensiva e incólume. Parece que nessa noite, de lobisomens, de lua cheia, o nosso satélite, apresentava-se muito maior do que o habitual. Segundo a informação, já há dezoito anos que a lua não aparecia tão grande. Devo confessar que sempre me fascinou olhar para lua não apenas por questões astronómicas, mas por pensar que sempre nos acompanhou e assistiu aos nossos primeiros passos e a todas as atrocidades que cometemos e cometemos ainda. Mais ainda, fascina-me pensar que o nosso calendário; meses, dias, horas, minutos, segundos (temos hoje a tecnologia para medir milionésimas de segundo) é, ao fim ao cabo, apenas mais uma maneira de dividir o tempo que este satélite demora a cumprir um ciclo entre lua nova e lua cheia, passando pelos quartos. Sabemos que a lua anda quarto em quarto em quarto o que, se por um lado a torna um pouco leviana, por outro é fácil estabelecer o seu peso máximo que segundo medidas antigas não poderá exceder um arrátel. Falando seriamente! Agora parece-nos fácil explicar cientificamente as diversas fases lunares, o facto do perigeu coincidir com o equinócio de Primavera, a igualdade do dia e da noite. Temos até tecnologia para saber quantos milhares de quilómetros está distanciada da terra. Saberemos, certamente, qual o seu volume, a constituição das suas rochas. Um pequeno passo, um enorme passo; lembram-se da frase célebre do primeiro homem a caminhar na lua? Mas reparem, tudo isto, este calendário que nos comando, estes horários que nos condicionam, perceberam-nos os Homens num tempo muito remoto, anterior a Cristo, quando ainda observavam o céu sem outros instrumentos que não os próprios olhos. Também isto me fascina. E assim foi! Ao início da noite dei comigo a olhar a lua que estava brilhante e próxima, resplandecente e bonacheirona como a cara redonda duma criança sorridente. Lá estavam os mares e os continentes, as crateras dos impactos meteoríticos rodeadas de cicatrizes que, a ausência de atmosfera faz perdurar no tempo. Afinei mais os binóculos à procura de selenitas, quem sabe, tentando ver mais nitidamente o homem que, tendo sido castigado por trabalhar ao domingo, ficou para sempre condenado a penar na lua com um molho de vides às cos-tas. Não descortinei, evidentemente, nenhuma dessas fabulações, mas dei comigo a pensar que esta mesma lua que admirava era igualmente visível no Japão, no Iraque, ou aqui mais próximo em todos os lares das famílias Portuguesas. Que esta mesma lua que assiste às nossas desgraças e aos nossos erros será também a mesma lua, testemunha silenciosa, quando conseguirmos ultrapassar, e tenho fé que sim, os problemas que agora tão penosamente nos afligem. Dirão os pessimistas, os profetas da desgraça: este tipo anda sempre com a cabeça na lua. Falam verdade, acertam em cheio, pelo menos nesta noite mágica em que me distraí a admirar o espectáculo lunar…

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