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A toca do Girão – Antigos amigos do fado

 

Há poucos meses tive conhecimento que tinha aberto na nossa cidade um Restaurante e Casa de Petiscos, intitulado “A Toca do Girão”.

 

Fiquei de imediato desperto para o caso e verifiquei pelo convite que me foi endereçado no dia da inauguração, que o seu proprietário era nem mais nem menos que um velho conhecido e amigo, da zona de Santarém, o Rui Girão, excelente e experiente executante de viola de fado que muitas vezes me acompanhou nas minhas esporádicas e raras lides de cantador de fados e já lá vão tantos anos.

 

Informou-me o Rui que pretendia realizar um serão de fados todas as Quartas e Domingos a partir das 20,30 horas até à meia-noite.

 

É um homem que conhece muita gente do fado, desde colegas guitarristas, violas e baixos a fadistas profissionais e amadores fruto de muitos anos de acompanhamento em diversos espectáculos e tertúlias fadistas do nosso Ribatejo. É de todos um amigo antigo e um bom companheiro.

           

Tenho procurado saber junto da malta fadista como está a coisa a correr e as opiniões divergem, pois se há quem diga que corre bem, outros há que não auguram bom futuro para aquele cantinho dos fados.

           

É pena Torres Novas não ter presentemente o mesmo movimento que outrora, porque o centro da cidade era na zona antiga, onde se situa a Toca do Girão, precisamente na Rua Actriz Virgínia número dezassete, muito perto do antigo mercado mais conhecido pela Praça do Peixe.

Torres Novas tinha fama a nível distrital de ser a terra com mais movimento nocturno, pois fosse qual fosse a hora da noite, havia sempre gente na rua vinda de algumas tascas e cervejarias, que só fechavam às duas e três da manhã, porque havia sempre clientes até essas horas.

           

Hoje, a malta nova tem as suas diversões próprias, discotecas e bares não faltam e seguramente aí a razão do centro da cidade estar deserto, da cidade ter mudado, porque as cervejarias e as tascas foram encerrando e as pessoas de certa idade ficam comodamente em casa à noite e evitam sair para se encontrarem com os amigos como faziam antigamente.

           

Daí eu pensar que a abertura de uma Casa de Fados é bastante útil para a gente de todas as idades que gostam de fado, pois felizmente vai havendo cada vez mais jovens a ouvir e a iniciar-se a cantar o fado.

           

Torres Novas sempre teve cantadores, mas foi sempre muito difícil haver músicos de fado que os acompanhassem. Pois agora essa lacuna está preenchida e poderá ouvir uns bons fados, cantados por amadores, às quartas e Domingos ao início da noite.

           

A Toca do Girão é já neste momento o ponto de encontro de toda uma geração de fadistas amadores e isso eu constatei no passado Domingo, 30 de Janeiro, com um serão bem passado e bem cantado, com mais de quinze fadistas oriundos da Azambuja, Tomar, Ourém, Fátima, Torres Novas, Alcanena e Benavente a cantar, dois bons guitarristas, o Luis Grácio e o José Manuel e o “velho” Rui Girão à viola como ele tão bem sabe.

           

Pena é o espaço ser bastante exíguo mas quando há boa vontade haverá sempre lugar para mais um. Tomara eu e a malta da minha juventude ter tido o privilégio de haver um local público onde houvessem músicos para nos acompanhar.

 

Por isso faço um apelo aos jovens que me lerem para que se juntem e vão até lá cantar e ouvir cantar o fado, num silêncio bem fadista e ali nascerá certamente uma mão cheia de bons fadistas torrejanos e até alguns músicos da canção nacional. Pelo menos uma vez por mês já seria muito bom para fazerem daquele cantinho um bom ponto de encontro, comendo o seu petisco, bebendo o seu café e desfrutando a nossa canção nacional, a curto prazo património da humanidade.

           

E por falar de memórias e de fado vou tentar relembrar as guitarras e violas que me acompanharam ao longo de uma vida de canções e fados, todos bons artistas e todos ainda hoje meus amigos.

           

Começo pelo Carlos Velez e pelo Raimundo Seixas, uma dupla que fez escola e foi famosa por todo o país. O Raimundo está pelos Algarves mas o Carlos Velez, meu irmão mais velho como ele me chama, ainda toca e bem, parecendo um pronto-socorro do fado. Vai a todas…

           

Desse tempo, recordo o José Inês, o João Pedro Veiga, o Rui Girão que refiro, o Marona, o José Bacalhau, o Pedro Amendoeira, o Custódio Castelo, o Chico Silva, o João Chora, o Pinhal, o Petisca, o Bruno Mira, o Rocha, o Rui Miquelis, o Dr. Paulo Leitão e o nosso grande guitarrista torrejano Jorge Oliveira a viver na Covilhã e que tanto jeito nos teria feito se por aqui estivesse.

           

Que me perdoem aqueles que não recordo, mas é esta gente que faz com que o fado seja amado pelo povo e cantado e recordado pelos cantadores e cantadeiras de fado, muitos deles amadores, “Em Arruda ou Santarém, na Chamusca ou no Cartaxo, o grupo não vai abaixo” , “porque ainda há amadores para manter a tradição”.

           

Se gostas de fado não deixes morrer esta pequena tertúlia fadista que Torres Novas nunca teve e agora tem.

 

Vai até lá, canta um fadinho ou escuta em silêncio, pois não é só fadista quem canta, mas também quem o sabe ouvir.

 

Vamos ao fado.

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