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O saudoso Salão do Salvador

 

Quantos torrejanos do meu tempo e de tempos anteriores ao meu se não recordarão com saudade do velhinho e hoje inexistente Salão do Salvador, pequena sala de espectáculos mas ponto de encontro de muitos torrejanos, ou por pertencerem à Catequese, à Juventude Operária Católica ou a outras organizações da paróquia, ou por pertencerem aos diversos grupos de teatro que ali existiram, ou a grupos de variedades que com alguma frequência ali levavam a efeitos espectáculos musicais de certo interesse para a época e quase sempre com actores e cantores bem torrejanos.

 

Gerações de artistas desta então vila de Torres Novas ali representaram e se exibiram em inúmeras festas de angariação de fundos para a paróquia, tendo no tempo do Padre Búzio estas actividades sido incrementadas e começando a projectar-se filmes para a malta nova, regra geral filmes cómicos como o “Bucha e o Estica” e outros cómicos famosos como o Cantinflas e o Fernandel. Havia também alguns filmes famosos como “Marcelino Pão e Vinho”, de aventuras com cowboys e muitos desenhos animados do Walt Disney com figuras célebres como o rato Mickey e o Popeye de entre outros.

           

As sessões de cinema aos Sábados ou aos Domingos começavam pelas 15 horas, mas hora e meia antes a fila de malta da catequese era enorme e quem se atrasasse já sabia que não entrava, por a sala estar cheia que nem um ovo. Apagavam-se as luzes, corriam-se as cortinas e começava a festa.

           

Como se vê, a actividade do Salão do Salvador, ali defronte da igreja com o mesmo nome, foi durante algumas dezenas de anos um ponto de desenvolvimento artístico, nomeadamente da canção e do teatro amador.

           

Recordo nomes do teatro, como Ivo Cabaço, Carlos Gonçalves (Perna Marota), Ferreira, Monteiro, Veríssimo de Carvalho Pais, José Carlos Carreira, Francisco Ferreira do Rosário e seus filhos Fernando e Jaime, António Faria, Petronilho, Manuel Vieira, o Aires nos efeitos especiais e cenografia e o Alcobia na qualidade de ponto. De mulheres no teatro, por sinal retenho apenas os nomes de Inês Cabaço, Lena Belo e Manuela Neves.

           

Já na música, sob a batuta do competente e dedicado ensaiador e pianista José Castilho, ouvi diversos torrejanos a iniciarem-se na arte das canções, nomeadamente a Candita, mais tarde cançonetista afamada da Emissora Nacional e da televisão e de Inês Cabaço moça bem bonita para a época e também com muito jeito para a canção.. Quanto aos homens, lembro-me do Manuel Joaquim Lopes (irmão do João José), do João Ferreira (cantor romântico), do Marvão com o seu tirolês famoso (odléri, Odléri, Odléririti), do Luis Filipe (Bisito) um dos melhores cançonetistas torrejanos e que ainda hoje canta e bem por terras da Marinha Grande e por fim, do Francisco Paiva, com quem brinco ainda hoje por causa de uma sua convicta interpretação da canção “O Gafanhoto, salta, salta, salta salta”.

           

Nos meus tempos foi no Salão do Salvador que se iniciaram muitos artistas jovens e a sala foi sempre palco para a malta nova e mais velha, que ali levaram à cena diversos espectáculos.

           

Lembrar o Salão do Salvador é lembrar a vitalidade do povo torrejano, que muitas vezes esgotava a sala, lembrar as suas cadeiras metálicas com tampos em madeira, um palco pequeno, alguns camarins e um bar espaçoso, a que se tinha acesso por umas pequenas escadas junto ao palco.

           

Na sala do bar, havia uma muito utilizada mesa de ping-pong que tinha grande afluência da malta jovem. A lotação do Salão deveria rondar as duzentas pessoas.

           

O tempo foi no entanto sendo implacável para aquela casa. Com a saída do senhor Padre Búzio a actividade da casa foi-se reduzindo, a catequese mudou aos poucos para S. Pedro, a JOC deixou de ter a importância que tinha para a juventude, apareceram a televisão, o vídeo, e outras fontes de diversão e de interesse, o que levou ao inevitável encerramento do salão.

           

Vários invernos mais rigorosos foram aos poucos destruindo um património da nossa cidade, de tal forma que, quando um grupo de homens e mulheres de boa vontade pretendeu angariar fundos para a recuperação daquela casa, as verbas conseguidas não foram suficientes e a própria sociedade torrejana não aderiu sabe-se lá porquê.

           

Acabo recordando dois episódios teatrais a que não assisti mas que se contam ter acontecido naquela sala.

           

O primeiro numa cena de ciúme, a mulher recebia e lia uma carta do amante, puxava dos fósforos e queimava a carta, para o marido ao entrar desconfiado dizer: “Cheira-me aqui a papel queimado…”

           

Porém só em plena cena a actriz verificou que se tinha esquecido dos fósforos e vai daí, ao não poder queimar a carta, num belo improviso rasgou-a e deitou-a no lixo. O actor que fazia de marido, do exterior seguiu a cena com atenção, entrou e disse: “Cheira-me aqui a papel rasgado”. E do drama que se representava, saiu uma gargalhada geral própria de uma grande comédia em três actos.  

           

A segunda cena, para rematar, teve a ver também com outro drama, em que marido matava com dois tiros o amante da mulher. O homem dos efeitos especiais, Aires de seu nome, corria para o Salvador porque a peça estava quase a começar. Mas, chovia tanto, tanto, que apanhou uma molha

que o repassou até aos ossos. Ele, que trazia no bolso um pacote com pólvora, para imitar o barulho dos dois tiros fatais, friccionando-a com dois seixos. 

 

O marido enganado entra em cena e diz “Vais morrer, Vais morrer”, saca da pistola, prime o gatilho e nada, porque o amigo Aires não conseguia rebentar a pólvora de tão molhada que estava. O actor repetia, “Vais Morrer” duas vezes, “Vais morrer já disse” gritava, e do barulho dos tiros nada. Até que também num laivo de inteligência e improviso, disse: “Não morres duma maneira, morres doutra !”, pegou no cano da pistola e bateu com ela duas vezes na cabeça do adversário, que caiu inanimado.

 

Pois acreditem ou não, só nessa altura se ouviu o barulho dos dois tiros. Outra enorme gargalhada.

Este apontamento sobre a memória que retenho do Salão do Salvador, termina aqui, homenageando as gerações de torrejanos que por ali passaram e cujos nomes, e foram tantos, só de alguns tenho o privilégio de me lembrar.

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