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2005-2010 – 5 ANOS DE LUTA E ESPERANÇA

 

Em todo o mundo acontecem coisas. Umas boas, outras de arrepiar. Choram-se os mortos no Paquistão devido a um atentado suicida numa mesquita. No Brasil s Polícia combate o tráfico de droga nas favelas; No Por cá, a crise instala-se, desemprego, greves, piadas na internet sobre os políticos.

 

Cada cidadão tenta fazer o melhor para sobreviver. Uns alimentam-se das Novas Oportunidades. Outros só têm um caminho: seguir em frente. O choque é severo. Dá-se uma paragem no tempo e tudo o que se pensou que não se queria fazer, está a acontecer. Pensa-se que vem a morte trajada de negro; em cada mão uma flor; em cada rosto uma lágrima; sente-se com dor a agulha sequiosa por uma mísera veia; sente-se o líquido entrar corpo adentro para matar o bicho; o maldito bicho duro como um rochedo que ataca o organismo sem permissão de ninguém; longas horas com a cabeça encostada à almofada; olha-se para o lado e alguém geme; em frente convulsões; tremores atormentam a sala; enfermeiras de sorriso aberto acariciam as dores de alma; mais sedativos; mais picadelas.

 

Noite de Natal de 2005, noite de trovoada num corpo dormente e saqueado pelo sofrimento. Perdeu-se o apetite e quando volta traz desejos desvairados, que acabam na pia da sanita. O espelho mira o rosto pálido e enfraquecido. Não há fio de cabelo; nem pêlo para ser depilado.

 

Janeiro de 2006 novos exames, novos tratamentos; uma máscara no rosto, uma bata vestida e raios laser na zona atingida pelo bicho. Um mês e meio de tortura física; o apetite regressa, mas a zona está queimada e só se engole as papas e alguns suplementos alimentares.

 

O esqueleto desequilibra-se; não há peito, nem traseiro; nem formas de mulher; uma tábua rasa. Não há desejos íntimos; não há beijos e abraços; só um sorriso rasgado e teimoso, como quem diz; “ Estou aqui”.

 

A boca sabe a ferro. Cheira a queimado e a pele protege-se com camadas sobrepostas de pomadas gordas e caras. Apetece sair. O Metro é o escape para fugir e sonhar novamente. Não importa a mesquinha sociedade, com seus olhares de “coitados, como eles estão”. Interessa ver o sol no Chiado, as telas em cada rua; as lojas de roupas bonitas; ler um livro nos jardins da Gulbenkian. E mesmo que os outros dias sejam iguais nos tratamentos, depois há sempre coisas e vidas diferentes.

 

Convive-se, brinca-se, joga-se às cartas; trocam-se confidências; come-se mais uma tigela de sopa. Leve o tempo que levar, uma hora, duas, nada importa. O mais importante é ter força de vontade.

 

Março de 2006. Finalmente o último tratamento. A ambulância carrega os pertences, o ramo de flores. Chora-se pelos que ficam. Traz-se no coração uma nova família.

 

Recupera-se em casa. O cabelo começa a crescer, o cheiro e o olfacto voltam. As visitas vêm lentamente e lentamente deixam de visitar. Recordam-se tempos de bonança; deprime-se o pensamento com a solidão.

 

Fevereiro de 2007. A mãe grita de dor e é levada de urgência para o hospital. Operação à vesícula, que lhe deixa mazelas. Meses a fio a costura rebenta e o pânico instala-se. O pilar principal está doente; Que fazer? Continuar a lutar, a ajudar, acompanhar a mãe que também nunca a deixou;

 

Janeiro de 2008. Nova recaída da mãe; A costura sangrou de novo e um Dr. com mãos hábeis curou a mãe. Felicidade.

 

Entretanto o bicho acalmou e as consultas também se alongaram com mais intervalos mensais.

 

Abril de 2009. Conseguiu reformar-se por invalidez; nunca estivera nos seus planos, mas teve de optar; ou a saúde ou o dinheiro. Fora uma decisão difícil, mas adaptou-se à sua nova vida.

 

Começou a ter uma vida mais calma, mas passa o dia a correr. Deixou de sair à noite por que o fumo do tabaco deixa-lhe a garganta seca, impedindo-a de respirar bem. Não há respeito da parte de quem gere os estabelecimentos nocturnos e de quem os frequenta.

 

Agosto de 2010. Após ter passado uma semana de férias na praia da sua vida e ter encontrado “os amigos do Verão azul”, ao ouvir o seu nome do altifalante entra de rompante na salinha da sua médica de Oncologia. Esta brinda-a com boas notícias, dizendo que está tudo bem. Despedem-se com um abraço forte e reconfortante de um “ até dia 4 de Janeiro de 2010.

 

Outubro de 2010. Atingiu os 5 anos na altura que lhe detectaram um cancro maligno nas vias respiratórias. Sente-se bem. Agradece ao seu querido organismo por ter aguentado todos os tratamentos e não só. É uma mulher forte e corajosa. Este ano viu amigos partirem, mas também superou alguns traumas.

 

Setembro de 2010. Foi a um programa de televisão falar de como superou o seu problema. O seu objectivo era fazer rir e transmitir a mensagem de força e esperança. Conseguiu isso e ainda hoje desconhecidos dizem-lhe: “ você foi à televisão, lembro-me da sua voz e gostei muito da sua postura”.

 

Dezembro de 2010. Passou o Natal com a sua mãe em paz, harmonia e com saúde.

 

Esta foi a sua maneira de como cidadã e colaboradora deste jornal desejar um FELIZ ANO NOVO aos seus estimados leitores, que felizmente são muitos. Com as palavras de apoio que tenho recebido ao longo destes anos de maior infortúnio peço-vos que nunca desistam de continuar a lutar e não me venham dizer que a morte nunca mais chega, como tenho ouvido. AMEM A VIDA, MESMO QUE ELA NEM SEMPRE VOS AME.

 

Bem-haja a todos.

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