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A Galeria Neupergama quantos Museus Alfredo Keil vale?

 

Começo pela dor. Mais um amigo que partiu, sem que a cidade o considerasse como seu. É natural a partida, como fecham os cafés. O Portugal, onde ia comer outrora  a sandes de presunto e a imperial, perto das duas da manhã. Ou, noutros dias, a outras horas, jogava intermináveis partidas de dominó com o Pina, o José Alberto, o Ferraz da Gama, comigo. Por vezes, quando o café se enchia demasiado, com os retardatários do cinema dos fins de semana no Virgínia, ia-se recomeçar a noite, com os queijos secos do Valeriano, os pregos no prato ou as bifanas bem regados pelo tinto da sua adega.

 

O José Carlos Cardoso, dele se trata, foi a enterrar a 2 de Outubro.

 

A autarquia desconheceu-o em vida, foi coerente em não estar presente no seu funeral. Dou razão à Pilar, quando dinigifica, sarcástica, o Presidente da República Cavaco Silva, por não ter menorizado a grandeza da dignidade humana do Saramago, com a sua presença, quando do seu falecimento. Não se pode fingir o que se não sente. Ou pode-se, mas a mentira descobre-se sempre.

 

A Galeria Neupergama, que o Zé Carlos teimou criar e fazer crescer em Torres Novas, foi uma bofetada na incultura autárquica, que, eucalipticamente, raramente, para ser simpático, se dignou estar presente nas suas exposições.

 

Acontecimentos públicos sem a presença dos assessores, de texto e de imagem, que registam e fotografam para os anais da superficialidade a presença augusta do príncipe a quem vai faltando o reino, já que Ourém, sem nenhum remorso, com o apoio do capataz político do partido do reino, o pôs de lado, mesmo com o remoque do republicano PS se ir tornando em monarquia., não interessam a quem, ante o espelho da madrasta da Branca de Neve, nem a esta permite ser a mais bela, já que só se vê a si mesmo, o único, o verdadeiro, o com mais placas comemorativas por metro quadrado, o substituto local do Américo Tomás em inaugurações que ele decidiu e os outros pagam, e quem vier depois que se aguente, com a manutenção do desperdício.

 

O José Carlos, honra lhe seja feita, ideologicamente socialista, intelectualmente surrealista, não suportava a desfaçatez medíocre com que os autarcas disfarçam os seus jogos pessoais e lucrativos de poder com a jactância duma autoridade de que nem aprenderam as raízes e as fontes ideológicas, mas trazem nos bolsos dos casacos azuis do uniforme das vacas sagradas do regulamento das boas maneiras político a cartilha do abecedário dos jogos, das promoções dos de língua estendida estampilhadores dos selos dos alvarás, das trocas e baldrocas dos eternos vencedores e eternos derrotados dos concursos, sejam eles dos lugares na administração autárquica, sejam das adjudicações por preços que nunca se cumprem e por mais que se pergunte, nunca se divulgam as razões dos resultados finais nunca serem os do concurso, permitindo, já que a informação pública não existe, todo o tipo de legítimas dúvidas sobre contrapartidas e benefícios.

O José Carlos falava do Cesariny, do Bual, do Relógio, do Vespeira, do Nadir Afonso, do João Vieira, do Lagoa Henriques, do Fernando de Azevedo, do Eurico da Costa, do Charrua, do Lanhas, do Pomar, do Areal, do Bértholo, do Sena, do Cruzeiro Seixas, sem desprimor de outros tanto importantes como os que citei, como gente íntima, amigos que aderiram, eles, que eram nomes internacionais, à audácia duma galeria de província, como difusora da arte surrealista e contemporânea pelo interior português, onde vinham os galeristas de arte da capital e do Porto e doutras cidades de província abastecer-se, por reconhecerem a influência do Zé Carlos entre uma plêiada de nomes famosos da arte portuguesa.

 

Dissera-me um dia e eu escrevi-o num dos artigos então publicados, que, se a autarquia quisesse, fundaria um museu de arte contemporânea em Torres Novas, que ficaria como um espelho do melhor que existe no país.

 

Nunca houve resposta. E não se diga que não houve proposta, porque, na altura, a transmiti, em seu nome, a quem de direito.

 

 A Câmara nunca esteve interessada numa sala de exposições condigna, quanto mais num museu de arte contemporânea!

 

Mas, de repente, sem que ninguém o perceba e o príncipe autarca candidato a republicano não responda, surge a ideia, mesmo já a maqueta do museu dum autor, cuja importância lhe veio de terem adoptado a sua música como hino nacional, mas que nunca teve a menor ligação, contacto, relação, com o concelho. Em nome de muita gente, onde incluo a memória do José Carlos Cardoso, eu gostaria de saber a razão desta opção autárquica do PS de António Rodrigues pelo Alfredo Keil, como também (parece já esquecida) pelo escritor António Lobo Antunes, que minoriza os que, da direita à esquerda, contribuíram para o desenvolvimento do concelho na sua ligação regional e nacional, no passado e no presente. É que, enquanto uns são voluntários em colectividades, obras de investigação, criação de galerias, intervenções públicas, trabalho colectivo e solidário, hospitais, escolas de música, terceira idade, o executivo socialista usa os dinheiros dos nossos impostos para resolver os caprichos do seu príncipe, que, devido às maiorias absolutas que nos conduzem de vitória em vitória, até à derrota final, do endividamento, da miséria, do desemprego, da sopa do pobres, do pagar a crise do desperdício que se instalou, em nome de interesses e generalizada arbitrariedade, das mega-escolas e mega superfícies, do endividamento dos transportes e dos manuais escolares, neste Portugal político que me envergonha, paga milhares de Euros dos bolsos dos contribuintes para a maqueta dum museu que um, ele, defende, ignorando uma história e um património de que muito se fala, mas pouco se dignifica e salvaguarda, só para garantir à sua Versalhes a pompa, o local do servilismo e da abjecção, já que, como predisse o presidente da Junta da Meia Via, o maquiavelismo não admite adversários, só inimigos e, como tais, os trata.

O José Carlos, noutra cidade que não esta, teria conseguido o sonho do museu de arte contemporânea. Aqui, alguns guardam a memória de anos de exposições fantásticas, de catálogos como verdadeiras obras de arte, das leituras de poesia, da apresentação duma antologia de poesia surrealista, A Única Real Tradição Viva, do Perfecto Quadrado, dos jantares do aniversário da galeria , onde se juntavam poetas e pintores, amigos e galeristas.Com a sua morte, fica em risco um património cultural , que desejo que a família consiga honrar. Mas, há uma história que se não apaga e só enobrece quem nela viajou.

 

Começam a cansar-me as meias palavras, numa pátria que só conhece o povo português para o obrigar a pagar impostos, para pagar as dívidas que enriqueceram alguns milhares e transformaram milhões em desprotegidos, tudo em nome dum mercado que sabota, ameaça, chantageia, suga , o sangue , o suor e as lágrimas  dum povo sempre capacho das mordomias de políticos destes partidos que nos des(governam).

 

Acabo com indignação, de ver tanta mediocridade promovida pela sua capacidade de servilismo e subserviência, a despedir.me de mais um dos amigos que colocaram Torres Novas no seu altar de referência e a ela deram o melhor de si, chamando para ela o que de melhor havia no país.

Indignado, pela consciência de que nesta terra poucos se autopromovem a Torrejanos Ilustres, ante a resignação, a indiferença, o desprezo ou  o medo dos seus habitantes.

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