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Em memória do António Cotovio

 

Bandos de gansos a voarem em direcção ao sul e relva molhada pelo orvalho. Aproxima-se a longa estação invernal e, por isso,  passámos o fim de semana a preparar o jardim. Podámos sebes, reparámos canteiros e até arrancámos o que restava dos tomateiros e pimentões. Como o tempo tem estado agradável, demos uns passeios para admirar a beleza das cores outonais. Ainda há tão poucos dias, parecia que a vida era diferente. Agora, mal se varrem as folhas mortas e logo outras se despegam do imenso ácer junto à casa. Também o brilho do sol era mais forte.

 

Cada período do ano tem a sua faina. O mesmo ocorre com as jornadas da existência. As surpresas são constantes e é melhor não pensar muito nelas.

 

Estávamos quase a concluir o artigo desta semana, quando apareceu no ecrã do computador o aviso de que tinham chegado novos emails. Começámos pelo do Luís Ribeiro. Comunicava o triste passamento do António Augusto Cotovio, nosso comum amigo e camarada de escola.

 

No Caminho de Santiago, à saída de Los Arcos, pode-se ler numa pedra à entrada do cemitério: “Yo que fuí lo que tu eres; Tú serás lo que yo soy!”. Dos milhares de peregrinos que por ali transitam com rumo a Compostela, nem todos reparam nessa inscrição.

 

A sucessão dos dias faz-nos lembrar as ratas-de-água da nossa meninice, quando nos divertíamos a arremessar seixos sobre as águas do rio. Planeavam uns momentos, davam dois ou três saltitos e acabavam por se afundar. Desapareciam para não mais voltar.

 

Perante os mortos, é costume dedicar-se-lhes as melhores palavras e fazer de modo a que se esqueçam algumas das suas faltas. No caso do Cotovio, será difícil encontrar quem pronuncie uma má palavra a seu respeito. Continuaremos a guardar com o maior carinho a memória da amizade que este colega sempre nos dispensou. Com tanta generosidade e simpatia.

 

Os companheiros elogiavam a personalidade deste homem, realçando o característico trato afável, a sua discrição e honradez. Nunca o vimos perder a calma. A 23 de Maio de 2009, por ocasião do convívio anual dos antigos alunos dos professores Silva Paiva e Oliveira, foi-lhe atribuída a Ratoeira d’Ouro em reconhecimento da sua fidelidade ao grupo. Se não estamos em erro, nunca faltou às reuniões dos “meninos da escola”.

 

Vai juntar-se aos que já se foram: entre outros, Zeca Fragoso, Humberto Brás Silva, Rogério Aires, José Carlos Vieira, Joaquim Prazeres Pereira, Manuel Oliveira Reis e Fernando Henriques dos Santos.

 

São chorados no seio das respectivas famílias. Mas também abrem as portas à nostalgia. Ao ausentarem-se deixam sempre saudades: deles e dos momentos partilhados. De uma época em que quase tudo parecia melhor.

 

Por tudo isto, é bom recordar o passado e aproveitar qualquer oportunidade para celebrar a vida. Um após outro, os colegas vão caindo como as folhas das árvores no Outono. No entanto, cada um à sua maneira deixa um legado importante.

 

Para a Milita, que é prima do autor destas linhas, e para toda a família enlutada, as nossas mais sentidas condolências.

 

O António Cotovio foi um homem bom! Uma perda irreparável. Ocupará um lugar muito especial na galeria dos eleitos.

 

Que descanse em paz!

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