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Assim se vê a força do PS

 

Para quem viu o debate da quinta-feira, na Assembleia da República, sobre as novas medidas apresentadas pelo Governo socialista de Sócrates, percebe por que a 1ªRepública Portuguesa caiu de podre, por um golpe militar, com a indiferença, senão o apoio do povo trabalhador industrial e campesino e dos seus organismos sindicais.

 

A semana passada eu falava num terramoto. Mas o que o governo socialista de Sócrates apresenta é um roubo legitimado a quem trabalha, ou a quem já trabalhou.

 

O país pode diminuir a dívida, mas não pode esconder as imagens cada vez mais trágicas dum povo ameaçado na sua existência, a remexer os caixotes de lixo dos hipermercados, em busca de comida, para que o polvo da corrupção financeira nacional e internacional se mantenha imparável, crescente, inamovível.

 

O Partido Socialista pode andar a cantar hossanas aos seus antepassados políticos, os bonzos do partido democrático da primeira república, a comemorar os cem anos duma política restritiva, contra os sindicatos, contra o país rural, contra a democracia eleitoral do voto universal, contra a paz, assente no caciquismo, no suborno, e que levou a cegueira do poder absoluto a um fim sem glória: à ditadura militar, depois à política do Estado Novo de Salazar. O autismo foi, para os bonzos do Partido Democrático, o que o projecto do partido socialista é, nos nossos dias, para o povo português: uma traição aos ideais da democracia. Ao contrário do que proclama nas suas dissertações de pura retórica demagógica, o Partido Socialista há muito renegou os ideais de Abril.

As comemorações do Centenário da República ignoram, na sua faustos idade à  lisboeta, que a República se perdeu por ignorar o país. Mas, quando em público se assume uma imagem compungida, como o ministro das finanças, a dizer que dormiu mal depois das medidas anunciadas, ou o primeiro ministro Sócrates se sentiu incomodado pela gravidade dasmesmas, só não é uma anedota, porque assenta numa mentalidade profundamente hipócrita, tão semelhante àquela do Movimento Nacional Feminino, com a sua recolha de produtos, no tempo da guerra colonial, que não raro se perdiam pelos diversos labirintos da distribuição.

 

Que o orçamento vai passar, com a abstenção do PSD e do CDS, não tenho a mínima dúvida.

Mas as medidas a tomar, do lado da receita, cortando nos vencimentos, aumentando o IVA, irão desencadear uma inflacção preocupante, com a subidas dos preços alimentares, dos transportes, do congelamento dos salários, e das reduções de 5% a partir duma 1.500 euros, a diminuição dos apoios do Serviço Nacional de Saúde, quer nos medicamentos, quer nos meios complementares de diagnóstico, das reduções da Adse, da de 20% das despesas do rendimento de inserção social, só para citar as páginas do desassossego que para o português com, a partir de agora, o maior IVA da Europa, terá de tentar sobreviver e fazer sobreviver as suas famílias, com margens tão duras de empobrecimento, que o transformam no cidadão mais explorado da Comunidade Europeia. Não assumem esses partidos da direita e do centro, posição muito diferente da do PS, para com o povo português. As suas bases sociais de apoio assentam os seus interesses numa democracia de classe média alta, por onde a crise perpassa como um vento de leve agitação.

 

Sabe-se que a mentalidade lusa, desde quinhentos, assenta no come e cala, na resignação, no fatalismo atávico, na mítica do Salvador, ou do paizinho que resolve os problemas por ele, cidadão.

E fico com curiosidade de saber se ainda se consegue desculpar de não ter possibilidade de mudar o seu destino. E, céptico que sou, no 5 de Outubro vou vê-lo a bater palmas ao político que o transforma num simples marioneta manipulada pelos cordéis da subserviência.

 

O momento grave que o país inicia, não sei como acabará.

O Povo, acredito, irá sentir no corpo e no espírito as medidas que o colocam no limiar mais baixo da sobrevivência.

 

A Europa afastou-se decisivamente de Portugal, o país mais antigo da Europa, talvez por isso, demencial e abandonado, sem energia para um combate pela sua dignidade, assustado com o perigo da sua própria sombra.

 

A comparação dos salários, preços, condições de educação, saúde, qualidade de vida, com a maioria dos países europeus, é pura ilusão. Não para os seus promotores, que recebem benesses pela sua qualidade de privilegiados. Não para os que trocaram o país pelas reformas douradas da Europa e, nas televisões deste país de fatos cinzentos e azuis e camisas brancas e gravatas monocoloridas, aplaudem as medidas tomadas, que nem sequer lhes arranha o sorriso trocista com que impõem medidas de emagrecimento que nunca cumprirão. Mas o povo português está como Sisifo, a empurrar a vida montanha acima, que, mal se distrai, rola de novo até à base. É, para quem não consegue ver que está nas suas mãos a mudança, o destino.

 

antoniomario45@gmail.com

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