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Quem paga pela mentira em que nos transformaram?

 

Se o nosso destino nacional é o que vem escrito nos indicadores económicos e sociais europeus e da ONU, é bom que se comece a perguntar, pública e em voz alta, quem nos andou a mentir durante dezenas de anos?

 

Onde fica a Europa, a que nos nivelaríamos, poucos anos depois da entrada na comunidade e na troca do escudo pelo euro, segundo apontava o pai da pátria, Mário Soares? Na Jangada de Pedra, de José Saramago? Nos Sinais de Fogo, de Jorge de Sena? No Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro? No Delfim,de José Cardoso Pires? No Finisterra, de Carlos de Oliveira? Em A Criação do Mundo, de Miguel Torga? No Interior Da tua Ausência , de Baptista Bastos? Em Era Bom Que Trocássemos Uma Ideias Sobre O Assunto, de Mário de Carvalho? Na Xerazade e os Outros, de Fernanda Botelho?

 

Do  papagaio rial, diz-me, quem passa? / – É el-rei D. Simão que vai à caça, ao Papagaio rial, diz-me, quem passa?/-É alguém, é alguém que foi à caça/do caçador Simão!..,.do célebre poema panfletário, O Caçador Simão, de Guerra Junqueiro, escrito em Viana do Castelo, a 8 de Abril de 1890, há um mundo que, posteriormente,  entrou em ruptura. Um Portugal anunciado como livre, 16 anos depois ruía, ao peso das forças conservadores do militarismo corporativo e fascista, que o general Óscar Fragoso Carmona, veio a consolidar à  sua volta. Culpa da cegueira da intelectualidade republicana, que esqueceu o mundo rural, e transformou em inimigo a abater, o mundo operário.

 

Os programas escolares, do básico, secundário, universitário, ontem como hoje, desconhecem-nos, autores e obras, e história. Obras, como muitas outras mais, que ninguém lê, mas onde o país está, radiografado, inteiro. Um país que se ignora.

 

A minha pergunta do início não tem, por isso, como destinatário, um povo sem raízes.

 

Mas, sim, os que o desenraizaram, os nomes que há décadas, no governo, no parlamento, na justiça, nas forças militares e militarizadas, na gestão do sistema empresarial do Estado, nas administrações bancárias, nos institutos estatais, nos serviços de informação, na televisão pública, privada e no cabo, nos governos civis. Nomes que se perpetuam, controlam, distribuem o bolo, os lugares, as sinecuras, os vencimentos, os subsídios, as reformas de curto prazo, a arbitrariedade dum direito acima da constituição, a excepção que não conduz a investigação, a processo, a julgamento, ainda que sejam visíveis os sinais exteriores de riqueza de quem há poucos anos era mais dívida e crédito mal parado e hoje é fortuna bancária em nome de qualquer primo na Suiça ou nos paraísos fiscais atlânticos, nos apartamento de luxo, casas de praia, nos negócios um pouco por todo o lado e em diversos países, multifacetados, por vezes em nome de outrem, mordomias e contas em offshores, tudo isto visível, publicitado, e elogiado pelos media num país com 11% de desempregados, e sem nenhuma esperança, pelo caminho que se segue, da sua diminuição.

 Exceptua – se o projecto socrático das novas oportunidades, com diplomas a atestar a ignorância e a esperteza saloia para uma estatística que leve os burocratas da CEE a abrirem os cordões à bolsa para a construção de novas auto-estradas, mas mantendo a proibição da pesca, da agricultura, organizando a desertificação do interior. Outrora, havia um jornal, Os Ridículos, que hoje faz falta, para dar nomes aos bois. Hoje veste-se demasiado de fato inteiro azul, camisa branca e gravata monocolor lisa. É tudo peganhentamente pastilha elástica que o empresário Mateus importa.

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Não vale a pena, leitor, desesperar sem revolta, resmungo-lhe, ao menos uma vez.

Não esconda a náusea que dá ver tanto comentador televisivo a dar manteiga ao governo ou a bater no seu entre aspas programa de salvação nacional, com a bênção dum presidente com várias reformas e mais chorudas que a minha ou a sua, e todos os intervenientes a receberem acima dos cinco mil euros – upa, upa –, ou de reformas, ou de consultadorias, ou de administrações dum tacho qualquer, ou da presidência dum Instituto de fazer cócegas às pulgas dos ratos, para que não se diga que não há estudos de génio para o investimento na qualidade das rolhas de cortiça subsidiadas do nosso multimilionário Amorim.

 

O Freeport, digam o que disserem, fica como um exemplo da ocultação da verdade pelos interesses conjugados da política, da justiça e da finança. Mas sofreu uma limpeza que nem os antigos glutões do TIDE levariam de vencida…

 

É a si, leitor, neste momento em que se preparam as comemorações do centenário da implantação da República, que pergunto: está satisfeito com o seu país? Não se sente mal com o peso dos impostos e a diminuição dos vencimentos reais, ao ver tanto carro de luxo a transportar presidentes da República,  Assembleia Geral,  Supremo Tribunal da Justiça, ministros, deputados, administradores, militares de alta patente, assessores de tudo quanto é cargo político, com submarinos para defender a pátria da possível ofensiva dos submarinos de Sarkozy, expulsando os ciganos para a Lusitânia, com a benção da Merkl e de Berlusconi?

 

A fome e a miséria  começam a ser preocupantes, di-lo Bruto da Costa, especialista católico, repete-o Carlos Moreira de Azevedo, alto responsável do episcopado português.

 

Mas que podem elas contra mais uma ponte sobre o Tejo para satisfazer o homem forte da Mota-Engil, que, quando deputado e ministro do PS, se celebrizou, não com a lavagem que fez das mãos como Pilatos, da tragédia de Entre-Rios, mas com quem se mete com o PS leva, que transforma a desgraça em euforia vitoriosa, como a metadona distribuída nos centros de saúde aos drogados ditos em remissão. Nestes anos que têm passado sobre o atraso português, o hoje administrador da Mota-Engil, Jorge Coelho, bem merece, Sr. Presidente Cavaco, a medalha da previsão lusitana, no dia da distribuição da banalidade lusa, que são, no 10 de Junho, as comemorações medalhísticas do dia da Pátria.

 

Pobre de outro desamparado, o esquecido Luís de Camões…

 

antoniomario45@gmail.com

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