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A bolada e a “Luísa Tonta”

 

Eu era muito pequeno, cinco ou seis anitos, e o meu pai levou-me à bola no velhinho campo do Almonda Parque. Ainda me recordo que o jogo contava para a 2ª Divisão Nacional, e o adversário do C.D. Torres Novas era o Cova da Piedade.

 

Meu pai, com outros amigos, tomou lugar no peão, em pé, apoiado na vedação e eu, um puto, ficava aos seus pés a ver a bola.

 

Lembro-me de uma senhora, vestida de escuro, que estava perto de mim, sentada num banco e de chapéu-de-chuva preto aberto contra o sol.

 

Era chamada de “Luísa Tonta”, e tratava toda a gente por “Répsss” e que de tonta não tinha nada. Levava sempre o seu banquinho e o seu chapéu-de-chuva preto, que tanto servia para a abrigar da chuva como do sol e lá se sentava sempre, gozando com a malta do peão que se tinha que aguentar de pé.

 

Nunca faltava a um jogo do Desportivo no Quintal do Zé Maria.

 

Voltando a mim, alguém se lembrou da insegurança da minha posição, mesmo em cima da linha lateral, alertou o meu pai e foi sugerido por um responsável do campo, que eu me fosse sentar, muito quietinho, na base do mastro da bandeira, colocado aí a cinco metros da linha de cabeceira, do lado dos sanitários, ao tempo já existentes.

 

E assim foi. Lá me sentaram, dizendo-me para estar quietinho porque podia vir uma bola na minha direcção e era um sítio perigoso.

 

Ora eu, de chapéu de palha na cabeça, lá me mantive o mais quieto possível, a ver o ataque do Cova da Piedade e algumas belas defesas do guarda-redes do Torres Novas, o famoso Bué.

 

Acontece que as instruções foram incompletas. A dado passo, um avançado do Cova da Piedade isolou-se e em vez de rematar para a baliza, deu um valente chuto mas na direcção da minha pequena cabeça.

 

Eu bem vi a bola na minha direcção, mas para me manter quietinho, levei com ela em cheio. Também confesso, não tive nem tempo para pensar quanto mais  para me desviar.

 

E se aquilo doeu Santo Deus !

 

Até vi estrelas e por causa disso o jogo foi de imediato interrompido, o avançado, o massagista e o grande Bué só diziam: “Matámos o puto, matámos o puto”, mas felizmente eu ouvia tudo e portanto estava bem vivinho da costa.

 

Meu pai também apareceu de pronto e dali fomos para casa, sem sabermos ao menos quem ganhou o jogo.

 

Eu, garanto-vos, sei que ganhei uma valente bolada e um grande susto.

 

E nunca mais me esqueci da tal base do mastro da bandeira.

 

E já agora, o Torres Novas ganhou nessa tarde por dois a zero ao Cova da Piedade, foi em 1953 e isso foi confirmado na Biblioteca Municipal, num livro sobre o Clube Desportivo de Torres Novas, de autoria do Dr. João Calos Lopes.

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