Adeus, José Torres!

 

De certo modo, magoado. Nunca tive, senão na adolescência, contactos com o Torres. Vi-o jogar futebol no antigo campo do Desportivo. Convivi, nessa altura, um pouco com ele, nos fundos do café do Manuel da Praça, onde a malta do meu tempo ia jogar matraquilhos. Era um jogador exímio, difícil como adversário. Que o digam o José-Alberto, o José Emílio, o Luís Ferreira, o Álvaro, eu mesmo. Mano a mano, muito difícil de vencer. Pares, conforme o parceiro que com ele alinhava.

Confesso. Nunca fui um grande adepto do futebol. Deixava isso para o José Emílio, o Luís, o José Ricardo, que sabiam tudo sobre as equipas, os jogadores, as peripécias, os contratos, e faziam da Bola, ou do Record, não me lembro qual (nunca li na minha vida um jornal desportivo, ainda que siga o que vem sobre desporto nos jornais que leio), o seu manual de formação. Mas o Torres era, como futebolista, para mim, uma excepção. Jogava no clube da minha terra, encontrávamo-nos nos locais de convívio, conhecíamo-nos, jogávamos bilhar ou matraquilhos, conversávamos do que os adolescentes e jovens conversam, nessa idade.

 

Mais tarde, acompanhei em Coimbra a saga dos magriços, senti um certo orgulho nacionalista por ser seu conterrâneo, ao vê-los conquistar aquele honroso terceiro lugar, ainda que a década de sessenta fosse, no Portugal Salazarista, a do genocídio duma geração, na guerra de África, na emigração clandestina, na recrudescer das lutas estudantis. O futebol foi sempre uma arma de conquista do poder, e de pão e circo para controlo do descontentamento das populações.

 

Daí em diante, esporadicamente, e só nas ruas de Torres Novas, nos encontrámos.

 

Soube mais tarde da sua doença, da sua «reforma», e não me espantou a forma como o país o tratou, porque é assim que este país, regra geral, trata os que o representaram e lhe deram nome no mundo.

 

Ao ver, pela televisão, as imagens do seu funeral no cemitério da Amadora, ficam-me os duros desabafos de Simões contra os tartufos do futebol que «liquidaram a carreira do Zé Torres», o bom gigante, repuxo da memória aquela imagem desengonçada de 1,93 metros caminhando ao lado dos meus 1,62, entre a praça e o Portugal, ou jogando bilhar no Central do Coelho, ou avançado centro dos amarelos no minúsculo campo de O Almonda. Outros guardarão melhores, mais íntimas, imagens do Zé. Não quis deixar de lhe agradecer os belos momentos dos jogos de matraquilhos no café do Senhor Manel, o gozo dos seus golos nos jogos televisivos, neste momento em que fico contente por saber que a bandeira do Clube Desportivo de Torres Novas, como a do Setúbal e a do Benfica, marcaram presença, como símbolos de respeito, solidariedade, agradecimento, sobre o seu caixão. O poder político e o federativo primaram pela ausência, mas isso, José, se pudesses, só te levaria a encolher os ombros, naquela forma meio ingénua, meio resignada, de que me recordo, de terem desperdiçado os teus direitos com aquele hábito que leva a justiça a ser pior em lentidão que um caracol num campo vasto, deixando que o vígaro se transforme em figura pública e a verdadeira figura pública não passe dum incómodo, senão duma ameaça à carapaça de honestidade que disfarça tanta trapaça.

 

Deste a este país algo de ti.

 

Recebeste o que os poderes nacionais têm para os que servem o país, por amor à camisola: um valente pontapé no rabo. Não foste o único, nem o último.

 

Um abraço.

 

Descansa em paz.

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