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Na Nova Inglaterra com o Furacão Earl

 

Estas linhas foram rabiscadas com um ar quente e húmido a entrar pelas janelas. Cheira a mar e a algas. O furacão Earl vem pelo litoral acima. O Presidente Obama declarou o estado de emergência nas regiões costeiras desde as Carolinas até à Nova Inglaterra. Na enseada por trás da casa, o enrolar da maré serve de música de fundo.

 

Tal como nos países escandinavos, tampouco aqui se fecham completamente as cortinas e isso atrai os insectos que batem nos vidros ou se acumulam nos mosquiteiros. Constata-se assim que existem mais variedades de traças do que podíamos imaginar. Algumas têm a forma de coração. Dominam o bege e o marfim, mas também as há em tons de castanho. São bonitas como Falmouth, a vila marítima onde gostamos de recarregar baterias antes de recomeçar as aulas.

 

Já escrevemos neste seminário que a Nova Inglaterra é a região mais histórica dos Estados Unidos, sendo a cidade de Boston considerada o “Berço da Liberdade”, palco de importantes episódios da Guerra da Independência. Foi aqui que, a partir do Século XVII, as colónias britânicas deram origem à grande nação que, apesar de tudo, continua a liderar a economia mundial.

 

No entanto, não é apenas pela história que admiramos este recanto do continente. Deslumbram-nos as montanhas e florestas do New Hampshire e do Vermont, sobretudo no Outono. Gostamos do relacionamento que os estados do Massachusetts, Connecticut, Rhode Island e Maine mantêm com o Atlântico. Somos fãs inquestionáveis dos Cape Coders. Talvez pela maneira de ser e de estar na vida. Intriga-nos a preocupação desta gente com a liberdade individual, com a afirmação da personalidade.

 

Como se aprende nos bancos da escola, os Pilgrims abandonaram a velha Europa em busca da liberdade de culto e da independência. Tiveram uma grande sorte em conseguir atravessar o oceano. De facto, nada sabiam de navegação e não estavam no mínimo preparados para a vida de pioneiros. Quando visitamos a praia de Eastham, onde os Pilgrims contactaram pela primeira vez uma tribo autóctone, divertimo-nos a fantasiar este encontro. Que pensaram estes povos um do outro? Tivessem tido os índios a premonição do que lhes iria acontecer, não teria sido melhor para eles terem deixado morrer à fome os intrusos vindos do estrangeiro?

 

Há alguns anos, por ocasião de um colóquio sobre estudos portugueses na Universidade de New Hampshire, o Professor Douglas Wheeler organizou uma excursão à Shoals Island. Recordamos os nomes de alguns participantes: Alberto João Jardim, António Barreto, Villaverde-Cabral, Rocha-Trindade, Medeiros Ferreira, Eduardo Lourenço. Foi igualmente o nosso primeiro “clambake”. Numa cova na areia, os anfitriões colocaram pedras a escaldar e algas nas quais estufaram mariscos. Além das típicas ameijoas da espécie “quahog”, também houve lagostas e milho na maçaroca.

 

Noutra altura, num “bed and breakfast” no Maine, com um vento marinho penetrante como uma faca a ferir a pele da cara, ofereceram-nos ao pequeno-almoço uns deliciosos “codfish cakes” (pareciam hambúrguers de bacalhau) acompanhados de geleia de abrunhos silvestres. Inesquecível.

 

Mais comum é o “Clam Chowder” vendido nas peixarias, mercearias, bares e restaurantes. É a iguaria emblemática da Nova Inglaterra. Eis aqui a receita: pôr duas dúzias de ameijoas grandes (de preferência “quahogs”) numa panela de ferro com meia-chávena de água. Quando as amejoas se abrirem, cortam-se as partes mais duras e junta-se-lhes duas taças de água. À parte, misturam-se 150 gramas de carne de porco salgada com cebola picada e, quando esta aloirar, acrescenta-se as ameijoas aos pedaços. Depois de uns cinco minutos de cozinhamento, adiciona-se três colheres de sopa de farinha e duas taças de batatas em cubos pequeninos. Deixa-se tudo ao lume até as batatas ficarem macias. Em seguida, mistura-se o resto das ameijoas, uma porção generosa de manteiga e aumenta-se a temperatura. Quando levantar fervura, adiciona-se três ou quatro taças de leite quente (mas não a ferver!). Por fim, um pouquinho de colorau, salsa, sal e uma pitada de tomilho. Deixa-se apurar a lume brando durante cerca de meia-hora.

 

Onde quer que se vá, é fácil encontrar a bebida oficial do Massachusetts: sumo de “cranberry” (arando vermelho da espécie “macrocarpus”). A produção concentra-se nos “bogs” (terrenos alagadiços) deste estado. Em Setembro e Outubro, ficam da cor da polpa de romã. Os indígenas já utilizavam esta planta antes da chegada dos europeus. Na actualidade, a sua laboração emprega bastantes descendentes de cabo-verdianos. Trata-se de uma fonte de vitamina C consumida diariamente por milhões de pessoas, pois descobriu-se que evita e combate as inflamações das vias urinárias. Por outro lado, nenhum americano ou canadiano pode imaginar o perú do “Thanksgiving”, sem que este seja servido com “cranberries”.

 

As férias aproximam-se do fim e acaba-se a vida ao ar livre. É tempo de regressar às aulas e há que respeitar horários que não perdoam. Nos sentidos norte (Boston) e leste (Providence e Nova Iorque), as estradas ficam atulhadas de carros. Desta vez, o furacão Earl e o receio da anunciada tempestade tropical forçaram os turistas a terminar de um dia para outro os piqueniques, os mergulhos no mar e as correrias na praia.

 

Por prudência, este ano também partimos mais cedo. No fim, substituímos a “Freedom Trail” (Pista da Liberdade) bostoniana pela praia de Menauhant. Revisitámos Beacon Hill, Faneuil Hall, Quincy Market, a casa de Paul Revere e o cemitério onde estão sepultados alguns “pais” desta República com R maiúsculo. Ficou adiado o encontro com a D. Cremilde que festejava o nascimento de mais um neto, no vizinho estado de New Hampshire. Só esperamos que o nome do bebé não seja Earl, como foi baptizado o furacão que abreviou a nossa estadia em Falmouth.

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