Home > Colaboradores > Jorge Pinheiro > Lembrando o José Vidal e as bandeirinhas do centro de mesa

Lembrando o José Vidal e as bandeirinhas do centro de mesa

 

Certo dia em final de tarde e na altura do São Martinho, o António Maria Vassalo convidou uma malta muito jeitosa para ir até à Feira da Golegã. Deve ter sido por volta de 1963, há cerca de quarenta e sete anos.

 

O carro, salvo erro um Dodge, era do pai do António Maria, guiado pelo senhor Jaime, motorista da casa e apareceram para seguir viagem nada mais nada menos que dez matulões em tamanho e peso que se arrumaram muito a custo dentro da viatura. Éramos onze com o motorista e recordo-me de quase todos, a começar pelo António Maria Vassalo, seus primos Pedro e Alexandre Vassalo, o Alfredo Faria Mendes, eu, o Curado, o Orlando Sequeira, o Salter Cid da Chamusca e a comandar as hostes com o seu ar imperial e inigualável, o nosso saudoso amigo José Vidal.

           

Eu ia deitado no chão com a cabeça encostada à porta de trás do lado do condutor e o Alfredo ia na mesma posição, mas com a cabeça encostada à outra porta. Por cima de nós foram colocados os capotes, as gabardinas e o que mais houvesse, para que, caso a polícia nos mandasse parar só contar nove cabeças e não onze.

           

E foi dito e feito. Alguém se lembrou de irmos primeiro ao Restaurante Soltejo à Barquinha a ao passarmos ao posto da Polícia de Viação e Trânsito, na Ponte da Pedra à saída do Entroncamento a polícia mandou-nos parar. Lá dizia o senhor guarda que lhe parecia que a lotação estava mais que esgotada e os dois que ele não via a rezar, pedindo a todos os santinhos que o guarda não abrisse as portas de trás, pois se o fizesse lá ficávamos com a cabeça de fora a olhá-lo de baixo para cima. O motorista era experiente, argumentou que éramos todos boa gente e lá nos mandaram seguir sem mais problemas.

           

Chegados ao Soltejo, que era na época um restaurante de primeira linha, com empregados fardados a rigor e que até tinha chefe de sala e tudo,

começou a festa. As mesas tinham como centro um arranjo em madeira com várias bandeiras de diversos países. O Zé Vidal mandou que a malta se sentasse e pediu alto e bom som: “Venham dez copos de tinto para estas mesas !”. O chefe de sala muito respeitosamente informou que só havia taças e não copos ao que o Zé Vidal ripostou: “Ok, venham dez taças de vinho tinto para estas mesas !”.

           

A barraca estava montada e isso sem termos bebido uma gota. Do balcão vem a informação de que não havia vinho tinto e num repente o Zé Vidal lança um repto: “O malta, vamos mas é já para o Zé da Ana, que isto aqui é pior que uma tasca mesmo rasca !”. O chefe de sala, respeitosamente, chamou o Zé Vidal e sussurrou-lhe ao ouvido: “Os senhores podem ir para onde quiserem, mas primeiro têm que repor um centro de mesa com as bandeiras, que um de vós, inadvertidamente, fez desaparecer !”.

 

O Zé Vidal reuniu-nos e combinou que nos debruçaríamos todos sobre a mesa em questão e que o mágico que tirou a coisa devia de imediato voltar a colocá-la no lugar. Quando nos levantámos lá estava o centro de mesa e as bandeirinhas, e lá saímos sem uma gota beber, agora na direcção da Golegã.

 

Depois a história foi outra até às tantas da madrugada. Na Golegã também não se bebeu nada e apenas me lembro de ter comprado um bengalim em verga e dali seguirmos para casa do Gaspar na Chamusca, por sugestão do colega Salter Cid.

 

Lá se acordou o homem e até fomos bem recebidos, pois o Gaspar era motorista da Marquesa de Alorna e colega do Jaime, nosso motorista, com quem de imediato confraternizou.

 

O Gaspar era homem dado a colecções em especial de isqueiros e de copos de marca, contando-se na altura algumas centenas que forravam as paredes da sala de entrada. Dada a facilidade de acessos e contactos que ser motorista da Marquesa lhe proporcionavam, conseguia peças raríssimas, lembrando-me do seu orgulho em nos mostrar vários copos de cristal que tinham servido no banquete de gala oferecido por Salazar à Raínha Isabel II de Inglaterra, aquando da sua visita a Portugal.

 

Depois foi beber, contar anedotas e cantar o fado à desgarrada até às tantas, com a particularidade de a água-pé ser servida em pequenos penicos de barro que serviam à maravilha para aquela castiça função. Até que enfim se bebia alguma coisa…

 

No regresso confiámos a vida ao senhor Jaime, profissional íntegro e que não bebeu nada nessa noite, dado o peso da responsabilidade e da rapaziada que transportava.

A viagem passou-se num abrir e fechar de olhos, com a malta a dormir e bem enlatada. Só me lembro de acordar e me despedir do Alfredo Faria Mendes, meu vizinho de então, cada um com o seu bengalim, num até já, que o dia estava quase a nascer.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook