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Carteirista – uma profissão com futuro

 

Milhares de portugueses estarão de acordo ao ouvir dizer que, nos tempos que correm, ser ladrão em Portugal deixou de ser uma vergonha intolerável. Tornou-se normal e não surpreende ninguém. Os políticos, a banca e os empresários aldrabam sem pestanejar. A justiça também não dá bons exemplos. Andam todos ocupados em jogadas obscuras, mas bem remuneradas. O que ainda há pouco eram apenas águas de regato, que mal ultrapassavam as barragens legais, na actualidade converteram-se em poderosas enchurradas que levam tudo à frente. Uma multidão de ladrões, sanguessugas, parasitas e demais esponjas para absorverem o sangue e o suor de quem ainda produz algo de valor nesta mortificada nação.

 

Os contribuintes pagam centenas de milhões de euros ao Estado. Este devia ter como uma das funções principais a protecção das pessoas e dos bens, no entanto é fácil constatar que, por desinteresse ou por incompetência, efectuou-se um reviramento de grande envergadura nele e na sociedade portuguesa. Desapareceu a vergonha. Tal como o desrespeito pelas autoridades e pela cidadania, também se abandonou o ostracismo a que eram votados os criminosos e os caloteiros, elementos dominantes na psicologia colectiva.

 

Parece um paradoxo, mas dentro de semanas os nossos ouvidos vão estar sob martelação permanente com o centenário da República e os valores republicanos. Por isso, será oportuno que cada cidadão medite sobre o significado da efeméride. Ensinaram-nos que, com a queda da monarquia, tinham sido abolidos os privilégios da nobreza.

 

Logo se chega à conclusão que o país necessita de outro 5 de Outubro. É um insulto ver os privilégios dos criminosos e da nova burguesia. Esta última transformou-se numa casta à parte e, diga-se de passagem, sem a distinção nem o polimento da velha aristocracia. Os únicos pontos em comum serão o sentido do privilégio e a diferença de tratamento. Quer ser tratada por “excelentíssima”, sem exceler em quase nada. E nem vale a pena mencionar “doutorices” anacrónicas e pacóvias. No que respeita a roubalheiras, nada mudou. Haverá mesmo quem afirme que os presentes governantes “esfolam” mais quem trabalha e produz. Talvez seja verdade. Não sabemos ao certo.

 

E a propósito de furtos, óptimos empregos e ocupações lucrativas, vem a talhe de foice a denúncia (?) publicada no DN (29.08.2010): “Os carteiristas clássicos […] chegam a ‘limpar’ mil euros por dia. A reforma das leis penais tornou-lhes a vida mais fácil: o crime vai até cinco anos e não prevê prisão preventiva”.

 

Escreve esse matutino que a polícia tem 1010 carteiristas identificados, a quem “a  reforma penal de 2007 facilitou a vida porque a moldura penal do furto por carteirismo vai até cinco anos de prisão, o que já não permite a aplicação da prisão preventiva. A alternativa à pena de prisão, neste crime, é a pena de multa até 600 dias. A impunidade do crime não deixa de estar associada à diminuição do número de queixas em todo o País”.

 

Caso o leitor tenha esquecido, é conveniente recordar que foi o presente governo que acrescentou algumas complicações ao processo de formulação das queixas. A maioria dos cidadãos compreenderam, de imediato, tratar-se de mais um exemplo da realidade “complicadex”. Em substituição do tão trompeteado “simplex” burocrático.

 

O DN cita fontes policiais quando retrata um caso típico: “O ‘Zé do Porto’ foi detido pela última vez em flagrante delito no passado dia 8, depois de furtar a carteira a um turista que desatou aos gritos, no eléctrico 15, em Alcântara. Aquando do incidente, a mulher de Zé do Porto fugiu e ele acabou detido pela PSP na companhia de um irmão e de um cúmplice. O valor furtado era de 350 euros. Presente ao tribunal de Pequena Instância Criminal, ficou apenas constituído arguido com Termo de Identidade e Residência (TIR)”.

 

Durante o verão passam umas semanas no Algarve e também colaboram na exportação de bens e serviços, não hesitando em atravessar a fronteira para fazer uns biscastes no sul de Espanha. As divisas que trazem do estrangeiro ajudam a fortalecer as finanças nacionais.

Em Lisboa, os lucros são avultadíssimos. Como foi mencionado, limpam sem dificuldade mil euros. Dois mil em dias mais laboriosos. Sem taxas municipais nem impostos a pagar. E, do ponto de vista estatístico, é bastante provável que estes laboriosos cidadãos sejam também beneficiários de rendimentos de inserção.

 

Criando a impunidade, permitindo a hegemonia da bicharada, os legisladores e a “justiça” esquecem-se que semelhantes roubos estragam as férias dos turistas. Ficam sem documentos, sem cartões e sem dinheiro. É fácil de imaginar o impacto negativo destes casos nos países donde são originárias as vítimas. Basta elas falarem a familiares, amigos e colegas que, a seu turno, irão comentar o caso com outros conhecidos. E por ali fora.

 

Perdas económicas dificeis de calcular. Depois os governantes vêm dizer que não há dinheiro. Que têm de aumentar os impostos, as taxas da água, a electricidade e o gás. Que não há verbas que garantam os serviços de saúde.

 

Com mil diabos, não seria mais ajuizado cortarem nas despesas com os próprios salários, carros de luxo, festas, viagens supérfluas, outras prebendas e sinecuras? Vão pentear macacos.

 

Com o actual desnorte, não são apenas os carteiristas que têm um grande futuro.

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