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O País que temos não é o país que somos

 

Portugal vive de quê? Ante as estatísticas, não vive: sobrevive. Como? De mão estendida, nas capitais da Europa, principalmente na da Alemanha unificada, à espera da compensação que foi entrar em 12 de Junho de 1985, para a Europa (então) dos 12, pela mão do por muitos dito pai da pátria, Dr. Mário Soares.

 

Em 15 anos trocou a moeda única pelo abandono da agricultura e das pescas, a internacionalização da indústria, a implosão do comércio, a publicitária salvação das novas tecnologias, que poluem e destroem o ambiente, ao ponto dos enxames de abelhas começaram a desaparecer, significando talvez o princípio do fim da vida como a conhecemos.

 

Mas entregou-se, de alma e coração, à destruição da costa portuguesa a bem dos Pestanas e Cia do turismo de luxo para os europeus do Norte, especialmente no Algarve e no litoral alentejano. Trocou os tractores por land rovers, os sobreiros por cimento, vidro e alcatrão, o trigo por regadios, à custa dos pesticidas que nos canceriginam, de milho, vegetais, frutas e tomate intensivos: Surgiram, como cogumelos, grandes fortunas especulativas, à custa da formação profissional no papel, que encheu os bolsos de muita gente que, nos habitáculos próximos do poder, se viram com montes e montes de notas novas iguais às da comunidade e contas bancárias nos off-shores do planeta e nos cofres sagrados da cúpida Suiça..

 

Criou-se uma sociedade consumista, baseada em grandes e médias superfícies de retalho e grossistas, assentes na importação de matérias primas e mercadorias, que enriquecem grupos monopolistas e empobrecem o país real, já que representam o que José Afonso popularizou na célebre canção da resistência ,Os Vampiros, sem prever que aqueles, depois da revolução de Abril, da partidocratização monopolista da constituição e da democracia a que chegámos, com a ajuda de célebres corifeus centristas, sociais democratas e socialistas da política portuguesa, iam engordar e multiplicar-se como uma epidemia altamente mortífera para o cidadão comum.

 

Por último, o pouco que Abril trouxera de bom, o Serviço Nacional de Saúde e a autonomia escolar e a gestão democrática do ensino, transformados numa teia mafiosa de compadrios que, em 15 anos, fizeram da saúde um mercado impúdico de negócios privados e o ensino uma paródia estatística de aliteracia galopante e incompetência burocrática absoluta. Tudo assente numa regra escondida, que condiciona a vida da sociedade portuguesa contemporânea: Quem tem o poder, define a verdade. Importa por isso mantê-lo, custe o que custar.

 

Quem ler as actas camarárias dos concelhos rurais dos finais do século XIX e as primeiras décadas do XX, verifica a importância que as populações, nas suas petições, conferiam à criação das escolas de ensino primário, nas suas freguesias.

 

Torre Novas pode servir de exemplo. A escola era a fonte da continuidade demográfica da aldeia, a luz da manutenção da identidade dum local, com sua história, economia, tradição, grupos sociais. A simples leitura dos livros de registo paroquial –  baptizados, casamentos , óbitos – mostra-nos como as famílias se perpetuaram, desde pelo menos o século XVI ( época dois primeiros registos) até ao fenómeno migratório de sessenta, mas com raízes até aos dias de hoje. O regedor, o padre, o professor, sintetizaram, até o 25 de Abril, a fonte do poder rural. Depois, com a Europa como El Dorado, o ruralismo implodiu, a aldeia desertificou-se, a população emigrou, as cidades atraíam com o seu esplendor, a sua multiplicidade funcional, o seu chamariz de mão de obra barata, primária. As famílias secaram, ficaram os velhos, os menos atreitos ao apelo do consumismo. Os postos de saúde, crescidos com Abril, encerraram-se, a medicina explodiu em lojas de comércio privadas, em estabelecimentos onde se paga desde a primeira pegada ao último suspiro, com o que se tem, o senão tem, se fica a dever, se pede emprestado. O mundo rural regrediu, o mundo urbano, sem cheta, gerou desemprego, miséria, fome, doença, violência. Vá-se lá perceber os lucros das empresas e dos bancos, a venda de automóveis, o encerramento de escolas, o aumento do crédito mal parado, a insolvência do pequeno e médio comerciante, a compra dos submarinos e dos carros de luxo pela administração público. Isto anda tudo ligado, a aparência e o real. Basta ver como o futebol ilude a nossa mentalidade messiânica dos melhores do mundo que, chegando ao campo, se transformam na irrisão e vexame nacionais.

 

Portugal já não é uma pátria, mas uma feira. A culpa, claro, é de Lisboa, e daquela linha que liga o Terreiro do Paço ao Estoril e ao Guincho, com algumas ramificações em zonas nobres da cidade.  Por aí passa a economia, a sociedade, a banca, a jurisprudência, a moral, a finança, as forças armadas, a espionagem, a agiotagem.

 

Juscelino KubitscheK de Oliveira, em 1955, ao transferir a capital, do Rio de Janeiro, para o planalto interior, criando Brasília, conduziu, como já vinha pensado desde, veja-se, o Marquês de Pombal, à interiorização do povoamento e do desenvolvimento e da integração nacional. O Brasil é, hoje, a potência conhecida que faz invejar muitos países industrializados, Portugal, nem no acordo ortográfico, ganhou direito ao seu património lexicográfico e linguístico.

 

Lisboa come, Lisboa vive, Lisboa vê, Lisboa joga, Lisboa cria, Lisboa legisla, Lisboa executa, Lisboa julga. O país, desde D. Manuel I, perdeu a identidade da tripla influência, muçulmana, judaica e cristã, monopolizou-se a fé e o império, burocratizaram-se a gestão e as riquezas dos territórios, funcionalizou-se numa aristocracia de corte o poder e o espavento, a moral e a cupidez, a misericórdia e a forca, o exército e a desigualdade, a rapina e a repressão.

 

O interior nacional é algo que se colocou no sótão das coisas inúteis, só utilizável para questões de propaganda político-eleitoral, em que todos aparecem a abraçar toda a gente, sobre a visão mercenária dos media de Lisboa.

  

Falta-nos um Juscelino que colocasse a capital no interior, secundarizasse Lisboa, o que ela foi e representa, olhasse para o campo, o mar, os rios, as serras, os planaltos e os vales, o Norte e o Sul, o Este e o Oeste, como uma unidade sócio.cultural. Um real programa político da cidadania, já que os cidadãos, para os poderes actuais, não passam de números estatísticos. Não são o que realmente são. Pessoas.

 

O País que temos não é o país que somos, o que merecemos.

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