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O Cebreiro, Etapa no Caminho

 

Agradecemos os emails e outras mensagens (¹) a propósito do apontamento sobre o Jacobeu. E vêm a talho de foice as linhas de um colega e mentor em questões santiagueiras. Diz ele: “Galicia está llena de peregrinos; ayer mismo los vimos subiendo hacia O Cebreiro desde el Bierzo”; los albergues se han quedado pequeños e incluso los pabellones de deportes; hay gente durmiendo al aire libre”.

 

Navegamos nas mesmas águas e gostaríamos de pertencer a esse mar de caminheiros. Mas por tal ser impossível, limitar-nos-emos à partilha dalgumas notas tomadas quando também percorremos um desses locais inolvidáveis: O Cebreiro.

 

Depois do interesse pelo Caminho de Santiago ter sido reactivado, serve de tema para grandes conversas. Está na moda e é de novo recomendado para a rejuvenescer a psique, para recarregar as baterias espirituais.

 

A romagem tem tantos significados como romeiros e pode assumir várias feições: uma obrigação semelhante ao hajj dos muçulmanos, uma viagem de redescoberta psicológica, ou um teste de tolerância humana.

 

A sua popularidade nem sempre por motivos religiosos ultrapassa as expectativas. Quem nela se implica, busca uma experiência além da rotina turística, procurando ao mesmo tempo um antídoto para os consumismos vazios. “El camino” está em vias de se transformar num divã de psiquiatra ambulante..

 

Em qualquer dos percursos ressaltam símbolos inesperados. Por exemplo, os peregrinos que utilizam a “rota dos franceses” atravessam as últimas montantas n’O Cebreiro e, por isso, lhe chamam “a porta” da Galiza.

 

Para quem vem dos profundos vales de Pedrafita e das Tierras del Bierzo é de facto a primeira povoação galega. Uma aldeia emblemática. No topo: um cruzeiro gigantesco; pela frente: as serras de Rañadoiro e de Piornal; em volta: as serranias d’Os Ancares e d’O Courel. A partir daqui, só restam 150 quilómetros para chegar à catedral de Compostela, admirar o Pórtico da Glória e abraçar o Apóstolo.

 

No Século VIII, havia neste lugar um hospital beneditino para assistência do corpo e da alma dos viajantes. No entanto, foi a Igreja de Santa Maria la Real, fundada pelo Conde Gérard d’Aurillac, que ficou célebre por causa de um cálice nela exposto. Ainda há quem acredite tratar-se do Santo Graal, usado por Cristo na última ceia.

 

Associamos de imediato com as aventuras de Sir Galaaz, o cavaleiro da Távola Redonda! E é Álvaro Cunqueiro quem afirma: “aqui aconteceu um milagre da conversão da hóstia em carne e do vinho em sangue a um humilde camponês chamado Juan Santín que, no meio de uma tremenda tempestade, foi o único participante na celebração de uma missa e ainda lá se encontram as relíquias do pobre aldeão”.

 

A nossa visita foi efectuada num dia de calor, porém do cimo da montanha que Aymeric Picaud (Século XII) dizia ser “a mais abrupta do Caminho” soprava uma aragem refrescante. As paisagens são inesquecíveis, os lugarejos belíssimos. No horizonte, na direcção de Castela-Lião e das Astúrias, são numerosas as florestas de castanheiros, carvalhos, vidoeiro e bétulas. Por toda a parte, veredas pedregosas descrevem ziguezagues bordejados de urze, tojo e giesta.

 

De vez em quando, avistam-se uns pontos mais escuros. São construções em granito e xisto. Os muros das casas têm manchas de musgo e de líquens.

 

Ainda se encontram “pallozas”, testemunhos da presença céltica. Têm forma de círculo, paredes de pedra e telhados cónicos cobertos de colmo. Até data recente, foram utilizadas para habitação ou como refúgio de peregrinos. Trazem-nos logo à memória os livros do Asterix.

 

Romanos, vândalos, alanos, suevos, visigodos e celtas deixaram marcas. Subsistem bastantes resquícios de culturas nórdicas nestes confins da Ibéria. E não é só por chover durante metade do ano, ou devido aos fenótipos mais comuns serem nitidamente distintos dos da Andaluzia ou de Valência.

 

A música das gaitas-de-foles e as “queimadas de bagaço” com açúcar, grãos de café e limão é que criam uma ilusão de “buenos días”. Aliás, ao dizerem assim, não é para desejar um dia bom, mas dias bons.

 

E como gritavam os cristãos nas pelejas da reconquista aos mouros: “Santiago y a ellos”!

 

Nota (¹) – Compraz-nos registar uma observação muito apropriada do Senhor Joaquim Rodrigues Bicho, nosso particular amigo e antigo catequista. Merecemos um “puxão de orelhas”. Com efeito, quando escrevemos “gerações mais tarde, em 1968, o Vaticano decretou o fim do Purgatório” (6.8.1910, p.3)  devíamos ter escrito Limbo. Uma diferença enorme. Se fosse no tempo do saudoso Padre Búzio, a penitência teria sido dupla: pelo erro e pela distracção. 

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